Para pensar a educação pública no Brasil no pós-pandemia

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Para pensar a educação pública no Brasil no pós-pandemia

Publicação do Cenpec traz artigos de quatro estudiosos de diferentes áreas sobre a educação pública no contexto atual e perspectivas para o futuro; saiba mais

Por Stephanie Kim Abe

As ruas de Paris estavam praticamente vazias, com os comércios de portas fechadas, apenas pontilhadas pelas crianças que iam ou voltavam das escolas em determinados horários. Essa foi uma das cenas mais emblemáticas do período pandêmico para o professor doutor Leandro de Lajonquière, que mora na capital francesa e é psicanalista.

Foto: acervo pessoal

Após o confinamento inicial de 45 dias, em que tudo foi fechado, as escolas foram as primeiras a reabrir na França. Isso é um indicativo da importância fundamental que o fato de as crianças frequentarem a escola tem para a sociedade francesa — não só para o desenvolvimento delas, como para a construção da nação”, explica.

Leandro de Lajonquière

Essa análise da postura, da estratégia educacional e da experiência da França no enfrentamento da pandemia é o tema do seu artigo Por que ir à escola? De respostas adultas e ensinamentos em tempos de Covid, que compõe a nova publicação Educação pública no Brasil no contexto atual e perspectivas para os próximos anos.

Produzida pelo Cenpec, a publicação apresenta a visão de cinco estudiosos de diferentes campos do conhecimento sobre os dilemas, os desafios e as possibilidades da educação pública no Brasil, frente à pandemia. Fruto de um ciclo de debates realizado no final do ano de 2021 no âmbito do Programa Ecoa Formação, o estudo foi organizado em torno de quatro artigos.

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Implicações da experiência escolar para o desenvolvimento das crianças

Em seu artigo, o prof. Leandro conta que não é nenhuma surpresa a forma como o governo francês tomou decisões relacionadas às políticas de educação durante o período pandêmico. Ele escreve que:

A escolarização é um sintoma social. Na França, a escola possui um valor indiscutível para a quase totalidade da população. Nesse sentido, ninguém deve se surpreender que o orçamento destinado à educação constitui de longe a primeira despesa nacional, assim como o Ministério da Educação é o maior empregador do país”. (p. 15)

prof. Leandro de Lajonquière

Professor em Ciências da Educação na Université Paris 8 – Vincennes – Saint-Denis e também na Universidade de São Paulo (onde passa metade do ano letivo), Leandro se dedica aos estudos psicanalíticos na educação, na infância e na formação docente

Na sua visão, há dois grandes motivos pelos quais a experiência escolar é respeitada e valorizada nas sociedades modernas. Uma delas tem a ver com a convivência com a outra pessoa, com o diferente, com o que não é familiar — no sentido de que não é conhecido:

O fato de irmos à escola nos possibilita construir certo funcionamento psíquico que nós não construiríamos se não a frequentássemos, e que tem a ver com o confronto com a alteridade. Quando vamos à escola, aprendemos certas coisas que não necessariamente aprendemos em casa, não só em relação ao conteúdo, mas à forma de estar e se comportar. Precisamos seguir regras, agradecer, aprender a conviver com os outros, que podem até ficar nossos amigos, mas que são desconhecidos no primeiro momento. Há sempre uma questão estranha”. 

prof. Leandro de Lajonquière

É justamente essa experiência da alteridade que nos permite também construir a cidadania, que é tão importante e essencial para as sociedades atuais.

Se você está permanentemente confinado apenas aquilo que lhe é familiar, a sua participação cidadã falha, não é completa. Porque cidadania é alteridade. O que é o Congresso Nacional se não adultos que representam partes da população tentando persuadir os outros que não partilham da mesma ideia, buscando chegar em um consenso? Ou seja, a experiência escolar é peça essencial na construção do espírito democrático”, explica o prof. Leandro.


A educação brasileira sob diferentes perspectivas 

Além de entender como a pandemia afetou essa experiência escolar na França sob o ponto de vista da psicanálise, a publicação Educação pública no Brasil engloba artigos sobre outras áreas de estudo. 

Foto: acervo pessoal

O artigo O desafio de (re)imaginar o espaço escolar: desigualdade e diferença na socialização mediada tecnologicamente, assinado pelo Prof. Dr. Valter Roberto Silvério, traz o ponto de vista da Sociologia, abordando a estrutura desigual e as discrepâncias sociais a respeito do acesso à internet e aos equipamentos tecnológicos (computadores e celulares) no país.

Foto: acervo pessoal

A partir do olhar da Ciências Política, o prof. doutor Fernando Luiz Abrucio discorre sobre a agenda educacional a nível global e os efeitos da pandemia na educação brasileira, apontando três desafios centrais para reconstruir o sistema educacional brasileiro após esse fenômeno — a criação do Sistema Nacional de Educação e a transformação do modelo pedagógico são alguns deles.

Fotos: acervo pessoal

Por fim, o professor doutor Alexsandro do Nascimento Santos e a professora mestre Luciana Vitor Cury discutem a respeito do papel das(os) dirigentes municipais dos sistemas de ensino e das capacidades institucionais, a fim de garantir a equidade educacional, a partir do que consideram ser uma escola mais justa para tempos (pós) pandêmicos.

Na apresentação da publicação, o diretor de pesquisa e avaliação do Cenpec Romualdo Portela lembra que:

Foto: acervo pessoal

Compreender o que está acontecendo é condição sine qua non para qualificar a luta dos trabalhadores da educação e da população para defender e garantir o direito à educação. Compreendê-la é condição para enfrentá-la”. 

Romualdo Portela


Pandemia como uma oportunidade de mudança

O professor Leandro reconhece que muitos governos tiveram que inventar ações ou pensar diferentes estratégias para minimizar os impactos da pandemia nas políticas como um todo, mas acredita que elas seguiram a forma como eles já pensavam o convívio social e a saúde pública. 

“Aqui na França, não me surpreendeu que os testes para Covid eram disponibilizados gratuitamente, por exemplo, porque essa disponibilização segue o funcionamento do sistema de saúde francês. As ações traduziram um modus operandi que já estava em curso”, diz.

O Brasil não se exime dessa análise. Ou seja, se as escolas demoraram para serem reabertas ou outras ações mais urgentes não foram tomadas a tempo para lidar com os efeitos da pandemia na educação, pode-se dizer que o lugar da educação brasileira na nossa sociedade ainda não está tão consolidado

E, para que isso mude, a população precisa “se implicar mais na educação das crianças”, como defende o prof. Leandro:

A pandemia, em si mesma, não produz mudanças — elas vão depender da forma como os adultos se implicam na educação das crianças. Isso significa que a educação precisa de investimentos constantes, carreiras docentes e salários dignos aos professores etc. A pandemia é apenas mais uma oportunidade para fazer a educação ser de qualidade e igualitária como ela deveria ser. Podemos deixá-la passar — e aí serão mais 500 anos de injustiça e desigualdade social”. 

prof. Leandro de Lajonquière


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