8M: as mulheres na educação

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8M: as mulheres na educação

Dia Internacional das Mulheres: o papel das mulheres na educação brasileira. Confira materiais para trabalhar o tema em sala de aula
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Por Stephanie Kim Abe

Foi em 1975 que a Organização das Nações Unidas (ONU) começou a celebrar o dia 8 de março como Dia Internacional das Mulheres, na busca por evidenciar a discussão sobre a importância da igualdade de gênero, o combate à violência, e a garantia dos direitos de meninas e mulheres. Mas a celebração tem suas origens no começo do século XX, em manifestações ligadas aos direitos das mulheres trabalhadoras.

A data passou a ser definitivamente estabelecida a partir do dia 8 de março de 1917, com a realização de uma manifestação de operárias por Pão e Paz, na atual cidade de São Petersburgo, Rússia. Em 8 de março de 1908, porém, houve um encontro massivo em Nova York em defesa do voto do sufrágio universal, tendo o Partido Socialista dos Estados Unidos organizado um comitê feminino local para apoiar o voto das mulheres.

No Brasil, as mulheres só passaram a exercer seu direito ao voto em 1932. As casadas, porém, só o puderam fazer em 1934, sendo que até 1962 elas só podiam trabalhar fora se o marido permitisse.

Veja outras curiosidades sobre o direito das mulheres no Brasil na reportagem do site Aos Fatos

Mulheres na educação

Atualmente, a presença das mulheres na educação brasileira é forte. Mas nem sempre foi assim, conforme explica o guia Quando a nossa voz ganha o mundo: garotas pelo direito à educação, da Ação Educativa:

Quando foram criadas as primeiras escolas no Brasil pelos jesuítas durante o período colonial, elas eram somente para meninos e homens da elite. Após a independência do Brasil (1822), com uma lei de 1827, é reconhecido o direito das meninas na escola. Começaram a surgir escolas femininas que, além de serem separadas das masculinas, tinham características  diferentes. Para as meninas, o foco era prepará-las para cuidar da casa e da família, e conteúdos, como a matemática, eram reduzidos.”

Ação Educativa, 2019

Hoje, as meninas apresentam maior sucesso de trajetória escolar. Entre os adultos com mais de 25 anos, 49,5% das mulheres concluíram o ensino médio, contra 45% dos homens, de acordo com dados da Pnad Contínua 2018. No ensino superior, elas compõem 55% das matrículas de graduação.

Na docência, a mesma coisa. De acordo com os dados do Censo da Educação Básica 2017, as mulheres formam 81% do professorado na educação básica brasileira.

Ainda assim, nem tudo é um mar de rosas. Conforme as mulheres vão progredindo na carreira acadêmica, por exemplo, esse cenário muda. No Brasil, apenas um em cada quatro pesquisadores seniores são mulheres. A maternidade e a desigualdade na divisão das tarefas domésticas são alguns dos fatores que acabam por dificultar o equilíbrio entre a vida profissional e pessoal das mulheres – mas não dos homens.

É na educação básica que se concentra a maioria das mulheres profissionais da educação, especialmente na educação infantil. Nesse segmento, ainda se vê uma desvalorização das professoras, muitas vezes vistas apenas como cuidadoras, e não como educadoras.

O cuidado associado a uma tarefa feminina e, por isso, de pouco valor, traz à tona traços machistas de nossa sociedade que se refletem e, muitas vezes, são reproduzidos na educação. É o que explica a professora Lara Marin, autora de A cultura nos livros didáticos (Editora Appris, 2019). Nessa obra, fruto de sua dissertação de mestrado, a pesquisadora mostra como elementos culturais presentes nas publicações para estudantes podem estimular machismo, racismo e crenças religiosas sectárias.

Lara Marin
Foto: reprodução

‘Tia, me ajuda?’ Essa simples frase proferida por uma criança no ambiente escolar nos parece normal à primeira vista, mas ela nos revela traços machistas da sociedade em uma instituição que escancara diariamente aos estudantes a desimportância social do cuidado e a desvalorização da mulher profissional.
[…] Ninguém chama uma advogada, uma médica, uma empresária, uma chef de cozinha de ‘tia’.
Paulo Freire já nos alertava o quanto essa expressão remonta a uma ideia que diminui o profissionalismo de professoras que passaram quatro anos de suas vidas em faculdades e estágios para estudar, observar o fazer pedagógico e atuar de forma tão séria e responsável quanto a de outras profissões.”

Lara Marin, A cultura nos livros didáticos (2019)

Saiba mais sobre mulheres, direitos e educação aqui


Para aprofundar seus conhecimentos

Diante dessa realidade, é importante trazer a discussão do feminismo e da igualdade de gênero a todos os espaços, inclusive a escola. Para entender mais sobre a luta das mulheres por igualdade e garantia de direitos, indicamos quatro livros sobre o tema para contribuir com a formação continuada de educadores(as):

Capa: reprodução

Para educar crianças feministas
Autora: Chimamanda Ngozi Adichie
Editora: Companhia das Letras

Esse livrinho de bolso traz quinze sugestões de como criar os(as) filhos(as) sob uma perspectiva feminista. São conselhos simples que colocam a igualdade de gênero refletida no dia a dia, como na justa distribuição de tarefas entre homens e mulheres. O manifesto, escrito em forma de carta da autora para uma amiga que acaba de virar mãe, serve para pais e mães de meninos e meninas.

Leia um trecho aqui.

Livro
Capa: reprodução

Feminismo: um guia gráfico
Autoras: Cathia Jenainati e Judy Groves
Editora: Sextante

Você sabe onde surgiu o termo “feminismo”? Quais as principais expoentes do pensamento feminista? E o que você sabe sobre termos que denotam a interseccionalidade do movimento com outras áreas – como feminismo psicanalítico, negro, lésbico, ou pós-feminismo?

Essa obra, em estilo graphic novel, traz informações sobre essas e outras questões que marcaram o movimento do século 17 aos dias atuais, por meio de uma linguagem descontraída e de forma descomplicada.

Saiba mais sobre a obra no vídeo a seguir:

Capa: reprodução

Por um feminismo afro-latino-americano
Autora: Lélia Gonzalez
Editora: Zahar

Obra essencial para ter um panorama geral e amplo da rica produção intelectual dessa que foi uma das mais importantes estudiosas brasileiras do século XX. Lélia Gonzalez foi filósofa, antropóloga, professora e militante do movimento negro e feminista, articulando como ninguém as relações de gênero e raça e tendo cunhado a categoria de amefricanidade.

As organizadoras Flavia Rios e Márcia Lima trazem textos produzidos entre 1979 e 1994, desde artigos de imprensa até entrevistas e cartas pessoais. Como convida Angela Davis, filósofa estadunidense ícone do feminismo, “leiam Lélia Gonzalez!”.

Leia um trecho aqui.

Capa: reprodução

O Feminismo é para todo mundo: políticas arrebatadoras
Autora: bell hooks
Editora: Rosa dos Tempos

“Feminismo é um movimento para acabar com o sexismo, exploração sexista e opressão”. Essa definição simples resume a visão de bell hooks, aclamada feminista negra, crítica cultural e ativista estadunidense, autora de mais de 30 livros – incluindo a obra infantil Meu crespo é de rainha.

A frase também dá a deixa sobre a linguagem acessível e direta que encontramos ao longo da obra, que traz os pensamentos da autora sobre diversos assuntos: políticas feministas, direitos reprodutivos, beleza, luta de classes feminista, feminismo global, trabalho, raça e gênero e o fim da violência. Em sua essência, o livro busca mostrar como a vida de todos(as) (homens, mulheres, crianças, pessoas de todos os gêneros) pode melhorar com o feminismo.

Saiba mais sobre a obra no vídeo do blog Impressões de Maria:


Para trabalhar em sala de aula

Além disso, também selecionamos diversos materiais que tratam do tema de mulheres e educação, e que podem ser trabalhados com os(as) estudantes, de diferentes etapas de ensino.

Livros:

Capa: reprodução

Malala, a menina que queria ir para a escola
Autora: Adriana Carranca
Ilustradora: Bruna Assis Brasil
Editora: Companhia das Letras

A ideia deste livro-reportagem é contar para crianças e adolescentes a incrível e inspiradora história de vida da paquistanesa Malala Yousafzai, que foi baleada por membros do Talibã aos 14 anos, no dia 9 de outubro de 2012, por defender a educação de meninas na região. “Uma criança, um professor, um livro e uma caneta podem mudar o mundo”, disse a jovem, em discurso à ONU em 2013.

A jornalista e autora Adriana Carranca traz não apenas os desafios enfrentados pela adolescente e os acontecimentos que levaram até o atentado, mas a história e as suas percepções do vale do Swat, região onde Malala morava e que a jornalista visitou logo após o ocorrido. A narrativa é potencializada pelas ilustrações de Bruna Assis.

A história dessa mulher que virou símbolo da luta pelo direito à educação de meninas e a mais jovem ganhadora do prêmio Nobel da Paz também pode ser explorada em Eu sou Malala, autobiografia escrita em parceria com a jornalista britânica Christina Lamb, e o documentário Malala, dirigido por Davis Guggenheim:

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50 brasileiras incríveis para conhecer antes de crescer
Autora: Débora Thomé
Editora: Galera

Escrito pela jornalista, cientista política e criadora do bloco de carnaval “Mulheres Rodadas” Débora Thomé, essa obra reúne biografias de grandes brasileiras, como o próprio nome já diz. Chiquinha Gonzaga, Ana Botafogo, Nise da Silveira, Tarsila do Amaral, Marta, Elza Soares, Cora Coralina e muitas outras estão contempladas neste livro, que traz ainda lindas ilustrações feitas por artistas mulheres.

Nesta mesma linha, também vale conhecer o livro Extraordinárias: Mulheres que revolucionaram o Brasil, de Duda Porto de Souza e Aryane Cararo, e As Cientistas: 50 mulheres que mudaram o mundo, de Rachel Ignotofsky.

Saiba mais sobre a obra:

Produções audiovisuais:

Lute como uma menina!
Direção: Flávio Colombini e Beatriz Alonso
Ano: 2016

Este documentário acompanha a luta de jovens alunas que participaram do movimento secundarista que surgiu contra o projeto de reorganização escolar imposto pelo governo de São Paulo em 2015. A produção mostra as experiências das meninas na organização interna do movimento de ocupação das escolas (foram mais de 200 instituições ocupadas), o enfrentamento às autoridades e à violência policial nos protestos, e o seu amadurecimento político, intelectual e cultural ao longo de todo o processo.

Disponível na íntegra no YouTube, o documentário pode ser usado para instigar reflexões sobre a importância da movimentação popular e do protagonismo juvenil feminista.

Carregadoras de Sonhos
Direção: Deivisson Fiúza
Ano: 2010

A partir do cotidiano de quatro professoras da rede pública do interior de Sergipe, este filme aborda aspectos estruturais relacionados à educação – como o transporte, a alimentação e as condições pedagógicas das escolas. Lançado em 2010, o longa é uma produção do Sindicato dos Trabalhadores em Educação Básica do Estado de Sergipe (Sintese), após uma pesquisa qualitativa realizada pelo órgão sobre as condições de trabalho dos(as) professores(as) do estado.

O roteiro mistura ficção com realidade, além de realismo e poesia. O filme foi dirigido pelo cineasta baiano Deivisson Fiúza e chegou a entrar na lista de seleção de filme brasileiro a concorrer ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 2011.

Podcasts

Maria vai com as outras
Apresentação: Bianca Vianna
Iniciativa: Rádio Piauí

Em cada episódio, a jornalista Branca Vianna realiza entrevistas com mulheres dos mais diferentes cargos, profissões e trajetórias, para discutir assuntos como a mulher no mercado de trabalho, a vida afetiva, família, maternidade, etc. Em um dos episódios da série “Maria na quarentena”, a entrevistada é uma professora de química que relata os desafios na sua rotina com as escolas fechadas e a transição das aulas para o modelo remoto. Ouça a seguir:

Os episódios saem às segundas-feiras a cada 15 dias, no site da revista Piauí e nas plataformas de streaming.

Acesse aqui para ouvir todos os episódios

Conversa de Portão
Iniciativa: Nós, mulheres da periferia
Parceria: UOL Plural

“O portão de casa é o lugar de encontro para conversar, trocar ideia e falar sobre todos os assuntos”. É assim que o portal Nós, mulheres da periferia explica o porquê do nome do seu podcast, que foi lançado em setembro de 2020.

Produzido em parceria com o UOL Plural, o podcast é apresentado, a cada episódio, por uma das cofundadoras do portal de jornalismo: Bianca Pedrina, Jéssica Moreira, Livia Lima, Regiany Silva, Mayara Penina e Semayat Oliveira. As convidadas especiais conversam sobre assuntos que estão em destaque no Brasil e no mundo – do BBB à política nacional, da sexualidade das meninas periféricas à saúde mental da mulher negra. Os episódios são publicados toda terça-feira, e a maioria tem em torno de meia hora.

Acesse todos os episódios aqui

Ouça a seguir um dos episódios, em que a jornalista Mayara Penina conversa com a educadora e assistente social Macaé Evaristo sobre o saldo e as mudanças que precisamos fazer para garantir o direito à educação das infâncias e juventudes.

Materiais pedagógicos:

Oficinas do Portal Cenpec Educação

Mulheres negras no cenário nacional: propõe uma pesquisa sobre mulheres negras de destaque na vida do país, para com os resultados encontrados pela turma ou classe trabalhar os conceitos de igualdade de oportunidades e justiça para todas e todos.

Balé para meninas e futebol para meninos? : esta atividade busca refletir e debater os papéis tradicionalmente atribuídos a meninas e meninos em nossa sociedade, podendo ser realizada na sala de aula ou em espaços como bibliotecas e parques.

Cor e preconceito no Brasil: pretende desconstruir estereótipos propagados cotidianamente sobre negros e negras no Brasil, através do conhecimento da história da população negra no país e da valorização e respeito ao outro. Traz um olhar interseccional para a questão de raça e gênero, considerando que a situação da mulher negra é a mais vulnerável.

Não à homofobia: frequentemente invisibilizadas nas discussões envolvendo direitos da mulher, as mulheres lésbicas e transexuais têm suas vulnerabilidades trabalhadas nesta oficina, que se destina a desenvolver, junto aos estudantes, atitudes de respeito e convivência com as diferenças entre seres humanos

Confira outras propostas em nossas Oficinas

Planos de aula da Nova Escola

Entre os materiais disponibilizados pela Nova Escola, é possível encontrar planos de aula sobre assuntos importantes a serem discutidos no Dia Internacional das Mulheres – e, claro, todos os outros dias do ano. O protagonismo das mulheres ao longo da história, a luta pelos direitos das mulheres no Brasil e a Constituição de 1988, mulheres na ciência e as profissões exercidas por mulheres atualmente são alguns dos temas abordados nesses materiais.

Há indicação de para qual série se destina o plano de aula e todas as propostas estão alinhadas à Base Nacional Comum Curricular (BNCC).

Acesse aqui


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