Jovens vozes negras na literatura

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Jovens vozes negras na literatura

Conheça três jovens escritores negros: Giovana Fernanda, Lucas Lins e Tawane Theodoro
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“Poesia marginal / Que me escolheu / Acolheu /
E assim me surpreendeu / E me tornou tudo que eu queria… /
Através da poesia / lhes apresento meu novo eu /
A voz da periferia”
Tawahe Theodoro

A cada dia, novos escritores despontam em saraus, slams (batalha das letras), coletivos literários e outros movimentos culturais nas periferias de diversas regiões do país. Suas vozes e letras ganham projeção por meio das redes sociais e mídias digitais. 

Roda de poesia do slam da Guilhermina. Foto: Marcello G. P. Stella
Roda de poesia, slam da Guilhermina. Foto: Marcello G. P. Stella

Nesses espaços, não apenas divulgam seus trabalhos, como também formam parcerias e despertam o gosto de outros jovens pela leitura e escrita. Dessa forma, tecem redes que promovem o letramento e a formação cidadã em suas comunidades. 

Transitando por linguagens e influências – da oralidade à escrita, da poesia à música, incorporando a dança, o audiovisual, elementos do hip hop, da cultura periférica e afro-brasileira -, suas obras trazem como foco questões sociais e políticas que vivenciam em seu cotidiano, percebendo as relações entre a realidade local e o panorama nacional e global.

A literatura me deu perspectiva de vida, me fez ter autoestima, meus hábitos, minhas escolhas de vida. As músicas que escuto são fruto da literatura, é algo que está além do meu trabalho literário, a minha escolha profissional, política, tudo que faço é fruto da literatura.”

Lucas Lins

Entre outras questões, os/as poetas falam da importância de jovens negros/as escreverem e publicarem suas produções literárias: 

Quando a gente publica nossas produções e lança pro mundo, é como se a gente se concretizasse como escritor pra sociedade, porque agora está registrado ali no papel. E mais uma vez firmamos como nós (jovens, pretos e periféricos) estamos vivos, e podemos ser o que a gente quiser. Tendo cada vez mais livros e escritores periféricos a gente vai virando referência pra quem está vindo, e isso vai se multiplicando.”

Tawane Theodoro

A atuação desses novos autores revela o quanto as novas gerações têm a dizer e a ser ouvidas.

O jovem pode ser referência para outros jovens reconhecerem sua capacidade e importância de expor seus sentimentos através da escrita. Às vezes só precisamos de uma palavra de apoio e alguém que nos dê a oportunidade de mostrar do que somos capazes, pois […] temos muito a dizer através da escrita.”

Giovana Fernanda

Conheça um pouco mais sobre essas três vozes que despontam na nossa literatura!


Gioh Fernanda

Gioh Fernanda
Arquivo pessoal

A música sempre foi uma presença forte na vida de Giovanna Fernanda, 14 anos, nascida na região noroeste da cidade de São Paulo. Bem menina, Gioh começou a conviver com artistas e a cultura periférica por influência do pai, o compositor e sambista Fernando Ripol, um dos fundadores do coletivo Samba do Congo. Mas foi a proximidade com a literatura periférica que despertou a vontade de escrever poemas, gênero que até hoje é sua maior paixão.

No balanço da paixão, sua primeira obra, recém-lançada no formato digital, tirou-a da sua zona de conforto, a poesia. O romance traz um pouco das referências e vivências da autora, por meio de sua protagonista, Dolores Gabriela.  A personagem, uma jovem de 18 anos que compartilha com a autora a condição de cadeirante, cursa o último ano do ensino médio, vivendo experiências e descobertas. 

Capa (reprodução)

Em uma narrativa leve, Gioh aborda como é ser uma pessoa com deficiência. O romance também traz fortes referências do grupo de samba-rock Clube do Balanço,  sendo o enredo inspirado em canções da banda.

“Depois de perder o ônibus de volta, sem ter a opção de ir com a minha mãe pra casa, ‘tivemos’ que ir andando. Nem vou entrar em detalhes de como é uma rua de São Paulo, para uma pessoa que tem uma deficiência física TOR TU RA. Depois de muitos buracos e calçadas sem rampa, chegamos na casa da Vic.”
Gioh Fernanda, No balanço da paixão, 2020. Leia a obra.

Portal CENPEC: Como foi sua formação leitora e escritora? 

Gioh Fernanda: Minha admiração pela literatura começou a partir do momento em que eu comecei a visitar coletivos culturais periféricos, mas principalmente os saraus. Eles abriram um novo horizonte pra mim, me fazendo conhecer um lado que até então eu não tinha descoberto, as poesias despertaram em mim sentimentos e possibilidades que me levaram além.

Portal CENPEC: Quem são suas principais influências (autores, obras)?

Gioh Fernanda: Posso dizer com orgulho que minhas principais influências são meus amigos. Tenho como referência as obras de pessoas próximas a mim, pertencentes a coletivos culturais periféricos.

Citando apenas algumas, pois são muitas pessoas: Vagner Souza, Chellmí, Sonia Bischain, do coletivo Sarau da Brasa, Raquel Almeida, Michel Yakini, Guiniver Santos, do coletivo Sarau do Elo da Corrente, Ana Paula de Oyá, do Sarau do Cravo, e Guma Thiago, do projeto Reduto do Rap.

Portal CENPEC: Você teve algum/a professor/a que te influenciou a seguir o caminho da escrita literária? 

Gioh Fernanda: Tive sim. A influência e o incentivo dos meus professores sempre aconteceu, graças a eles também que eu sigo nesse caminho da escrita. 

Carolina Maria de Jesus autografa seu livro Quarto de Despejo, em 1960. Foto: Wikipedia
Carolina Maria de Jesus autografa seu livro Quarto de despejo, em 1960. Foto: Wikipedia

Portal CENPEC: Em sua visão, qual é a importância de jovens negros/as se expressarem por meio da literatura e publicarem suas produções?

Gioh Fernanda: Assim como nomes famosos da literatura, como Carolina Maria de Jesus, Conceição Evaristo, Machado de Assis, entre vários outros que conhecemos, o jovem pode ser referência para outros jovens reconhecerem sua capacidade e importância de expor seus sentimentos através da escrita. 

Às vezes só precisamos de uma palavra de apoio e alguém que nos dê a oportunidade de mostrar do que somos capazes, pois, tal como os autores que citei, temos muito a dizer através da escrita.

Portal CENPEC: Sua escrita transita mais pela poesia. Pode contar como foi a experiência de escrever em prosa o livro No balanço da paixão

Gioh Fernanda: Está sendo uma experiência fantástica. Sair da minha zona de conforto me trouxe  novas possibilidades de expor meus pensamentos para além das poesias, e ter um feedback positivo de tudo isso é ainda mais gratificante.

Portal CENPEC: Como suas vivências pessoais influenciam sua escrita?

Gioh Fernanda: Eu busco sempre falar sobre coisas que se passam comigo, desde coisas boas até ruins.

Minha escrita é totalmente baseada em meus pensamentos e sentimentos. Com o livro No Balanço da Paixão não foi diferente: busquei colocar na Dolores, a protagonista, minhas vivências como uma garota com deficiência, mas da melhor forma possível, trazendo um pouco de visibilidade para o tema.


Lucas Lins

Lucas Lins
Foto: arquivo pessoal

Lucas Lins, 22 anos, reside na Cidade Tiradentes, periferia da zona leste de São Paulo (SP). Autor de duas publicações independentes – Remando contra a maré (2016) e Declínio & esplendor da bicicleta (2018) -, em 2019 foi residente literário Festa Literomusical do Parque Vicentina Aranha (Flim), um dos principais festivais do interior paulista, onde realizou a abertura da mesa do autor moçambicano Mia Couto.

Em 2020, produziu em suas redes sociais uma série de poemas sobre a quarentena, intitulado Poesia para matar o Corona

“Poesia pra matar o Corona #42
meu coração me acordou
como se estivesse com pressa
chorar é um efeito fisiológico
as ondas se movem
conforme a atividade do cérebro”


Lucas Lins, poema publicado na Revista Textou

Portal CENPEC: Como foi sua formação leitora e escritora?

Lucas Lins: Os livros sempre foram presentes na minha vida, literalmente. Gostava de histórias em quadrinhos e livros infantis. Ainda guardo aqui um dos livros mais antigos que me lembro de ter recebido, foi nos primeiros anos da escola, um livro curtinho com ilustrações e tal, contando a história do tricerátops, até hoje sou fã de dinossauros. Demorou pra eu vir a ler literatura mesmo, a escola não me apresentou autores e autoras clássicos como uma coisa legal, era ler aquele Dom Casmurro para prestar uma prova duas semanas depois, sabe? Eu até pegava o resumo na internet só pra ir bem na prova.

Portal CENPEC: Que autores e obras te influenciam?

Lucas Lins: Eu não sabia que existiam escritores vivos, escritores negros, achava que era uma profissão do passado, coisa dos clássicos, mas sempre gostei de escrever. Antes de ter acesso à internet, escrevia letras de músicas que eu gostava, sempre tive esse contato com a folha. Até que, no 2o ano do ensino médio, foi a escola onde eu estudava um movimento chamado Sarau Literatura Nossa. Naquele dia estavam, entre tantos outros grandes escritores e escritoras, Debora Garcia e Sacolinha. Fiquei impressionado ao ver a Debora recitando Genealogia, ali que eu saquei que era isso que gostava de fazer, mas não sabia que ainda era vivo.

Portal CENPEC: Você teve algum/a professor/a que o influenciou a ter na escrita literária uma forma de expressão, reflexão, denúncia?

Lucas Lins: Sim, principalmente dois: Edson Machado e Simone Rego, professores que me deram aula no ensino médio. Esses professores me incentivaram a escrever, convidaram esse movimento de sarau para escola, me indicavam autores. Foram muito importantes nessa minha formação. Eu cabulava aulas para ir à sala de leitura, ficar revisando meus poemas com o professor Edson.

Portal CENPEC: Em sua visão, qual é a importância de jovens negros se expressarem por meio da literatura e publicarem suas produções?

Portal CENPEC: Quais são seus principais canais de produção e divulgação de suas composições poéticas?

Declínio & esplendor da bicicleta
Capa (reprodução)

Lucas Lins: Desde meu ingresso na literatura, eu sabia da dificuldade de se publicar um livro, por ser um escritor iniciante, um escritor negro e muito jovem. O caminho que escolhi foi publicar meus livros por mim mesmo. Declínio & esplendor da bicicleta, meu segundo livro de poesias, eu mesmo comprei as folhas, dobrei e costurei cada livro, chamei alguns parceiros e parceiras para ajudar na ilustração e diagramação, e assim surgiu esse livro, que teve mais de 300 exemplares vendidos em dois anos, só de mão e mão, saraus, amigos…

Foi um livro que me colocou dentro do avião pela primeira vez.  Circulei com ele até o inicio da pandemia, quando desenvolvi uma série de exercícios diários de pratica de escrita, chamada de Poesia Pra Matar o Corona, e pode ser lida na íntegra no meu instagram @poesialucaslins. Também tenho alguns video-poesias, “Abriu um MC Donald’s na Quebrada”, por exemplo, é uma poesia que repercutiu bastante, poesia sobre a chegada do quiosque do MC Donald’s em Cidade Tiradentes, onde vivo.

Veja ‘Abriu um MC Donald’s na Quebrada”

Portal CENPEC: O que o motivou a escrever Poesias pra matar o Corona?

Lucas Lins: Poesias pra matar o Corona surgiu da necessidade de registrar esse período nunca visto antes. Eu sempre quis ter o hábito de escrever diariamente, mas sempre fracassei. Desta vez, decidi postar em minhas redes sociais “Poesia pra matar o corona 1”, assim as pessoas aguardariam o 2,3,4… 

O processo durou 70 dias, meus leitores me deram disciplina. Foi um período que estava muito aberto a ideias, explorei técnicas de escrita diferentes. Claramente eu não escreveria todos os dias grandes poemas, mas o meu propósito era exercitar mesmo, notar a transição do meu humor na quarentena, como esse período estava afetando meu olhar, o que eu consumia. Foi um trabalho sem pretensão, me surpreendi com a repercussão como a do jornal O Estado de São Paulo, Revista Select e a tradução de alguns poemas para o espanhol, por meio de um convite vindo do México.

Portal CENPEC: Em sua visão, qual é a importância de jovens negros se expressarem por meio da literatura e publicarem suas produções?

Lucas Lins: Qualquer expressão negra é importante, seja na militância nas ruas, na arte, no esporte. Nosso país tem em sua estrutura o silenciamento de nossas vozes. A literatura me deu perspectiva de vida, me fez ter autoestima, faz parte dos meus hábitos, das minhas escolhas de vida. As músicas que escuto são fruto da literatura, é algo que está além do meu trabalho literário. A minha escolha profissional, política, tudo que faço é fruto da literatura.

Conceição Evaristo
Foto: reprodução

“A nossa história não foi escrita para ninar os da Casa Grande, e sim para acordá-los de seus sonhos injustos.”

“Escrever e publicar são atos de rebeldia que nos colocam em outro lugar, contrariando o imaginário que a sociedade brasileira tem sobre nós.”

Conceição Evaristo

Portal CENPEC: Como a educação pode promover reflexões e práticas antirracistas e de valorização da cultura afro-brasileira?

Lucas Lins: Não sou profissional da educação, mas, como poeta, vejo que a literatura é uma ferramenta importantíssima para expressão e consciência. 

O que posso dizer é: existe um debate acontecendo, e não é de hoje, pensadores negros e pensadoras negras debatem há anos a estrutura do racismo e como se desdobra na educação. É hora de evidenciar ainda mais o discurso pregado por essas vozes.

Confira os autores da nova geração indicados por Lucas Lins

Lucas Litrento (Maceió, AL) autor de Os meninos iam pretos porque iam (um dos vencedores do Edital Para Publicação de Obras Literárias da Imprensa Oficial (poemas, 2019); Regina Azevedo (Natal-RN), autora de Candura (contos, 2014), Das vezes que morri em você (poemas, 2013) e Por isso eu amo em azul intenso (poemas, 2015), entre outros; Gabriel Sânpera (Rio de Janeiro-RJ), autor de Fora da cafua (poemas, 2018); Larissa Ferreira (Jacareí, SP), idealizadora do projeto @criancaleitora2020


Tawane Theodoro

Tawane Theodoro,
Foto: reprodução

Tawane Theodoro, 22 anos, nascida e criada em Capão Redondo, periferia da zona sul de São Paulo (SP). Poeta marginal, slammer e uma das organizadoras do Sarau do Capão e do Slam do Bronx, também é formadora do Slam Interescolar, projeto do Slam da Guilhermina. É autora do livro Afrofênix: a fúria negra ressurge (Quirino, 2019).

Portal CENPEC: Como foi sua formação leitora e escritora?

Tawane Theodoro: Minha formação como leitora ainda está em processo, aos poucos vou aprendendo a incluir a leitura na minha rotina, já que em meus tempos livres eu queria escrever e não ler. Porém, pegando amor pelos livros de poesia, comecei a ler também e isso vem me ajudando muito, abrindo meu leque de opções para escrever de maneira mais fácil. Como escritora, tenho uma carreira de quatro anos, participando bastante dos slams de São Paulo. Isso me fez entender a importância da poesia marginal e de como ela pode chegar a todos os locais, fazendo com que a cada dia eu me apaixone ainda mais por ela.

Poesia slam
Movimento que surgiu na década de 1980 em Chicago, nos Estados Unidos, hoje o slam é uma competição de poesia oral que traz a debate questões contundentes da atualidade. Performático/a, o/a poeta slammer tem como recursos a voz e o corpo.
O termo slam é uma onomatopeia inglesa para nomear o som de uma “batida” de porta ou janela, “algo próximo do nosso ‘pá!’ em língua portuguesa”, explica Cynthia Agra de Brito Neves, em artigo publicado na revista Linha D’Água.

Portal CENPEC: Quem são suas principais influências (autores, obras)?

Tawane Theodoro: Difícil citar minhas influencias porque são várias, desde a minha família, que abriu os caminhos pra eu entrar nessa carreira, sempre me apoiando muito, até poetas que participaram do meu processo como poeta.

Luz Ribeiro foi a primeira poeta que vi recitando, por isso a considero minha madrinha na poesia (o que eu carrego com muita honra, já que a acho simplesmente incrível). Jéssica Campos, que está do meu lado desde o começo e me impressiona a cada texto novo. Agnes Mariá e Carol Dall Farra, que eu me lembro até hoje de como fiquei chocada quando vi essas mulheres no palco, exemplos de interpretação e potência na escrita.

Portal CENPEC: Você teve algum/a professor/a que o influenciou a ter na escria literária uma forma de expressão, reflexão, denúncia?

Tawane Theodoro: Meus professores Bento, de Filosofia, Gabriel, de História, Erika e Josiane, de Português me ensinaram esse olhar crítico desde a escola e sou grata demais a eles.

O Cursinho Popular Carolina de Jesus, que, além de cursinho pré-vestibular, também é um movimento social, realizava saraus frequentemente e os professores tinham contato com a poesia marginal. Lá o professor Gabriel, que dava aulas de gramática na época, pediu como lição de casa pra gente escrever uma poesia, e com o auxílio dele e da Jéssica Campos produzi meu primeiro poema. A partir daí me apaixonei, e já faz quatro  anos que estou nisso. Então eu responsabilizo e agradeço a esse professor pelas minhas poesias, porque foi ele que me deu a base pra começar a escrever.

Portal CENPEC: Em sua visão, qual é a importância de jovens negros/as se expressarem por meio da literatura e publicarem suas produções?

Tawane Theodoro: A literatura precisa chegar como opção para todos nós, para que a gente se expresse e tenha nós mesmos como contadores da nossa própria história, e isso por si só é revolucionário. Quando a gente publica nossas produções e lança pro mundo, é como se a gente se concretizasse como escritor pra sociedade, porque agora está registrado ali no papel. E mais uma vez firmamos como nós (jovens, pretos e periféricos) estamos vivos, e podemos ser o que a gente quiser. Tendo cada vez mais livros e escritores periféricos a gente vai virando referência pra quem está vindo, e isso vai se multiplicando.

Portal CENPEC:  Em sua opinião, os slams e os saraus modificaram o cenário literário em nosso país? Como esses espaços e eventos podem influenciar a formação literária das crianças e jovens?

Tawane Theodoro: Modificaram porque os slams e os saraus na quebrada trouxeram a poesia (e no caso dos saraus outras manifestações artísticas também), dando a liberdade para escrever sobre o que a gente quiser. Durante a apresentação, quando o microfone está na nossa mão, é o nosso momento de contar a nossa versão. Podemos assim deixar o nosso marco na história, mostrando que a literatura do nosso país deve ser focada na diversidade, e não apenas na classe média alta, que é quem tem mais acesso à literatura e à arte de maneira geral.

Agora, quando a literatura marginal entra nas escolas, ou através de outros meios (como a internet) chega nas crianças e adolescentes, desde novos eles já entendem a importância da escrita, e como consequência a leitura já se torna de maior interesse, e eles entendem que tem a opção de ser artista, que isso normalmente não é apresentado e nem incentivado.

Portal CENPEC: Pode contar pra gente quais são seus próximos planos em relação à produção literária?

Tawane Theodoro: Iniciei a produção do meu segundo livro, estou no começo desse projeto, pensando em cada detalhe dele. Mas o que eu posso já adiantar aqui é que vou trazer uma variedade de temas nas minhas poesias maior do que no livro anterior, em que foquei em críticas sociais.

Desta vez, vou trazer todas as minhas poesias, e é importante colocar em pauta que não é porque somos poetas marginais que a gente não pode sair do tema de militância: a gente escrevendo sobre qualquer assunto é revolucionário.

Portal CENPEC: Como a literatura e a educação podem promover reflexões e práticas antirracistas e de valorização da cultura afro-brasileira?

Incluindo a história afro-brasileira nas aulas, não contando apenas sobre a escravidão, pois na escola quando se fala sobre a população preta a maioria das vezes fala de dor e sofrimento.

É importante contar essa parte, mas não ficar apenas nisso. Devemos falar sobre a nossa rica cultura durante o ano todo não apenas no dia 20 de novembro como uma exceção.

 Afrofênix: a fúria negra ressurge,
Capa (reprodução)

Portal CENPEC: Que autores e obras de jovens escritores/as você acha interessante os educadores conhecerem e trabalharem com seus estudantes?

Tawane Theodoro:  Afrofênix: a fúria negra ressurge, da poeta que vos fala, Tawane Theodoro (já aproveitando pra fazer aquela propaganda rs). Reservado, do poeta Alexandre Ribeiro. Transcrevendo a marginalidade, da poeta Jessica Campos. As antologias dos coletivos: Slam das minas e Slam da Guilhermina, que traz vários poetas de várias realidades diferentes. Negra nua crua, da poeta Mel Duarte. Espanca Estanca, da poeta Luz Ribeiro.


Veja também

Live Poetas e Slammers: encontro com Jéssica Campos e Tawane Theodoro:

Documentário Pelas Margens: vozes femininas na literatura periférica: