Balé para meninas e futebol para meninos?

-

Balé para meninas e futebol para meninos?

Autoria: Educação&Participação
Imprimir
O que é?

Debate sobre os papéis, tradicionalmente, atribuídos aos meninos e às meninas na nossa sociedade.

Material
  • Folhas de sulfite.
  • Filipetas de cartolina com as frases a serem usadas na oficina.
  • Filipetas de sulfite com os dizeres CONCORDO e DISCORDO.
  • Pincéis atômicos.
  • Lápis de cor.
  • Canção “João e Maria”, de Chico Buarque de Holanda.
  • Aparelho de som.
Finalidade

Compreender que os comportamentos relacionados às questões de gênero são definidos culturalmente e, portanto, passíveis de mudanças.

Expectativa

Reconhecer, questionar e desnaturaziar os estereótipos de comportamentos específicos de meninas ou meninos.

Público

Adolescentes e jovens.

Espaço

Sala de aula, de atividades, biblioteca, parque ou outro ambiente onde se possa ouvir música e conversar.

Duração

1 encontro de 1h30


Início de conversa

Meninas jogando futebol
Foto: Pixabay

“Meninas são doces, tranquilas, compreensivas, cuidadoras por serem forjadas pela natureza à maternidade. Já meninos são indisciplinados, fortes, aventureiros, esportistas… Meninas brincam de boneca, querem ser bailarinas e são inclinadas à área de humanas. Meninos jogam bola, sonham em ser super-heróis e são melhores em exatas…” Quantas vezes não ouvimos frases como essas?

Embora soem tão fora de moda nos dias de hoje, expressam visões estereotipadas ainda muito presentes em nossa sociedade. A escola e outros espaços educativos, como integrantes da esfera social, não fica isenta de juízos de valor e comportamentos impositivos excludentes pautados nessas visões sobre sexo/gênero.

Como se ensina a ser menina: o sexismo na escola”, Moreno
Capa do livro. Foto: reprodução

Desde o nascimento, recebemos influências sociais que nos condicionam a assumir uma divisão de papéis e a aceitá-los como verdade. As meninas têm um enxoval rosa, recebem presentes delicados, bonecas e utensílios de cozinha. Os meninos têm um enxoval azul, cor escolhida pela sociedade moderna para representar o masculino. Além disso, eles recebem brinquedos que estimulam a criatividade e, sobretudo, a agressividade, uma vez que, nas brincadeiras, desempenham o papel de heróis fortes e invencíveis.”

SILVA, J. S. F.; GOMES, A. F. Resenha sobre o livro Como se ensina a ser menina: o sexismo na escola (São Paulo: Moderna, 2003), de M. Moreno.

A proposta desta oficina é identificar e discutir essas opiniões e comportamentos entre crianças e jovens, com o objetivo de desenvolver um olhar crítico sobre aquilo que se costuma considerar “natural” ou inevitável: será mesmo que toda menina sonha ser bailarina? E se ela quiser ser astronauta, pode?


Na prática

Receba os estudantes com folhas de sulfite espalhadas pela sala, pincéis atômicos e lápis de cor, ao som da música João e Maria, de Chico Buarque de Holanda. Peça que usem as folhas para desenharem brinquedos e brincadeiras infantis porque irão fazer uma reflexão sobre esse assunto.

Após uns 20 minutos, aproximadamente, cada um apresentará seu desenho e você pedirá a quem fez para dizer se esse é um brinquedo ou uma brincadeira para meninas, para meninos ou para os dois e por quê. Conforme a resposta, separe as produções em pilhas diferentes.

Conforme forem falando, registre em cartazes os nomes dos brinquedos e/ou das brincadeiras e as justificativas dadas para classificá-los como de meninos, de meninas ou de ambos. Faça três cartazes: um para brinquedos/brincadeiras de meninos, um para os de meninas e um para os dois.

Depois que todos apresentarem suas produções e justificativas, chame a atenção para os cartazes e inicie um debate sobre as diferenças apontadas entre os brinquedos e brincadeiras atribuídos às meninas, aos meninos ou a ambos: por que esses brinquedos ou brincadeiras foram identificados como de meninas, de meninos ou dos dois? Acham que é isso mesmo?

E se?
Se a pilha que contém os desenhos de brinquedos que servem tanto para meninos como para meninas for significativa, em relação às demais (só para meninos e só para meninas), chame a atenção da turma, pois isso significa que houve avanços no modo de pensar de nossa sociedade ou eles já pararam para refletir sobre essa questão. Mas, se for pequena-estimule-os a começarem a pensar sobre o assunto.

Em seguida, proponha outra atividade. Disponha dois cartazes no chão. Em um deles está escrito CONCORDO e em outro DISCORDO. Passe uma caixa com papeizinhos em que também estará escrito CONCORDO e DISCORDO para que sorteiem.

Diga a eles que você mostrará algumas frases escritas em cartolina (uma por vez) e cada participante se deslocará para um desses dois cartazes, conforme o indicado pelo papel sorteado, mesmo que essa não seja a sua real posição.

A partir de cada frase, será possível discutir e questionar alguns mitos e preconceitos, cotidianamente, veiculados e promover desse modo o exercício da argumentação e de  experimentação de se colocarem diferentes posições frente a uma mesma questão.

Os integrantes dos dois grupos que se formarem, um, em torno do cartaz CONCORDO e, outro, em torno do cartaz DISCORDO, terão um tempo para conversar e combinar entre si sobre os argumentos que irão utilizar para defenderem a posição assumida.

Depois de alguns minutos, troque as posições e eles terão que defender a posição contrária à sua anterior.

Indicamos algumas frases que expressam visões arraigadas em nossa cultura, mas você pode escolher outras, mais pertinentes ao contexto do trabalho, ou que melhor se adequarem a seus objetivos.

Frases:
1- Balé e futebol são adequados para meninas e meninos sem diferenciação.
2- Menino que usa rosa é gay.
3 – Homens não levam jeito com crianças, por isso há tão poucos homens professores na Educação Infantil e nos primeiros anos do Ensino Fundamental.
4- É natural que os meninos mexam com meninas vestindo shorts curtos ou saias curtas.
5- Existem poucas mulheres citadas nos livros de História, pois as mulheres não tiveram participação importante nos acontecimentos históricos do país.

Outras frases possíveis: Engenharia e robótica são coisas para homens; Homem não chora; Loira é burra etc.

Ao final, proponha que se sentem em círculo e inicie uma conversa, retomando cada frase da atividade anterior e seus argumentos. Aproveite os próprios argumentos utilizados pelos adolescentes, para problematizar as questões. Seguem também algumas possibilidades de problematização:

Balé e futebol são adequados para meninas e meninos sem diferenciação.

Problematização possível: Por que não? Futebol exige força e condicionamento, que são bons para ambos os sexos, cada um na proporção adequada; então mulheres podem perfeitamente jogar com mulheres, que têm a mesma compleição física. O balé também exige força e condicionamento, além de sensibilidade, o que também é bom, para os dois sexos. Já ouviram falar do dançarino russo Mikhail Nikolaévich Baryshnikov entre outros? Sugira que pesquisem sobre ele na internet.

Menino que usa rosa é gay.

Problematização possívelPor quê? Quem definiu isso? Tem alguma lei dizendo isso? Onde? De onde vem essa afirmação? Já pararam para pensar?

É natural que os meninos mexam com meninas vestindo shorts curtos ou saias curtas.

Problematização possível: Será mesmo? As pessoas são donas do próprio corpo e se não estão infringindo as leis, que direito alguém tem de invadir a sua vida?

Existem poucas mulheres citadas nos livros de História, pois as mulheres não tiveram participação importante nos acontecimentos históricos do país.

Problematização possível: Será verdade? Ou será que quem tem escrito esses livros até muito recentemente, têm sido os homens, pelo menos homens que não valorizam a participação das mulheres?

Homens não levam jeito com crianças, por isso há tão poucos homens professores na Educação Infantil e nos primeiros anos do ensino fundamental.

Problematização possível: Por que não? Levam jeito sim. Podem pensar em alguns exemplos? Será que não teríamos que pensar nas condições de trabalho e na remuneração precária dos professores, também? Em nossa cultura, apesar das mudanças, ainda se atribui aos homens a responsabilidade maior de sustentar a família.

E se?
Se houver embate ou discordância com as problematizações feitas, não insista. O que se pretende é levantar questões para os adolescentes e jovens pensarem e não se impor posições.

Em seguida, pergunte se, por acaso, têm em casa fotos antigas de seus avós e tios e o que observam nelas. As roupas, os penteados com que foram fotografados se parecem com os usados atualmente? Não, certamente mudaram e se percebem as mudanças, podendo-se nomeá-las, não? Peça que identifiquem as mudanças observadas.

Então, se considerarmos outros momentos da história, veremos que os costumes e os comportamentos das pessoas mudam e muitas coisas que não eram aceitas antes, passaram a ser aceitas, como mulher votar, usar calças compridas e homens usarem cabelos compridos, colocar brincos etc. Já ouviram os mais velhos fazerem referência a isso?

No entanto, a aceitação do novo não é simples. Ela ocorre num processo lento e em meio a preconceitos e, às vezes, com sérias discriminações. Muitas vezes, não temos noção de quanta luta foi necessária para as mulheres votarem, usarem calças compridas ou os homens usarem cabelos compridos, colocar brincos etc. Parece até que sempre foi assim. Seria interessante pesquisar… Às vezes, pode demorar gerações até que um novo comportamento seja aceito pela sociedade.

Para explicitar o peso do comportamento, que se reproduz “naturalmente” em um determinado meio cultural, sobre grupos mais fragilizados da sociedade, projete para eles o curta-metragem Vida Maria, animação produzida por Márcio Ramos, em 2006.

Animação Vida Maria (8’35 min)

A animação mostra como, em determinados contextos socioeconômicos e culturais, como o sertão nordestino, ainda cabe à mulher, exclusivamente, os trabalhos domésticos e a criação dos filhos, sem a possibilidade de romper o “eterno” ciclo de vida de pobreza. Apesar de essa situação estar se transformando, nos últimos tempos (o curta foi produzido há dez anos), com a atuação de movimentos sociais organizados, ela ainda está presente na vida rural brasileira e mesmo em áreas periféricas de grandes centros urbanos.

Da mesma forma, outros grupos sociais como os negros, os indígenas, os homossexuais, os migrantes pobres, sofrem pressões sociais as quais dificultam e impedem, muitas vezes, deles saírem das condições de vida opressivas em que vivem para terem acesso a uma condição de vida digna, podendo realizar seus sonhos e ser felizes.


Hora de avaliar

Organize grupos mistos de meninas e de meninos e peça para avaliarem a oficina: o que discutiram é novo para eles ou já haviam feito alguma leitura ou participado de algum debate sobre o assunto? O que a oficina trouxe de elementos para refletirem sobre os papeis sociais dos homens e das mulheres em nossa sociedade?

O que mais poderá ser feito?

– Uma enquete, junto às famílias, para identificar comportamentos que há dez anos eram rechaçados e, atualmente, são aceitos como naturais.

– Uma pesquisa para identificar a participação de homens e de mulheres em profissões, tradicionalmente, vistas, na sociedade, como só de um determinado sexo e como essas pessoas lidaram com isso, por exemplo, homens dançarinos e mulheres aviadoras. Os estudantes mesmo podem levantar quais as profissões que gostariam de pesquisar. Essa pesquisa poderá ser realizada em diferentes períodos históricos. Professores de história e de geografia podem ajudar muito.


Para ampliar

Gênero & Sexo

Diferenciação biológica, diferenciação social
De modo geral, opomos o sexo, que é biológico, ao gênero (gender, em inglês), que é social. […]
As sociedades humanas, com uma notável monotonia, sobrevalorizam a diferenciação biológica, atribuindo aos dois sexos funções diferentes (divididas, separadas e geralmente hierarquizadas) no corpo social como um todo. Elas lhe aplicam uma ‘gramática’: um gênero (um tipo) ‘feminino’ é culturalmente imposto à fêmea para que se torne uma mulher social, e um gênero ‘masculino’ ao macho, para que se torne um homem social.”

MATHIEU, Nicole-Claude. Sexo e gênero. In: HIRATA, H. et al (org.). Dicionário Crítico do Feminismo. Editora UNESP : São Paulo, 2009, p. 173–178. Disponível em:
https://medium.com/qg-feminista/sexo-e-g%C3%AAnero-7bf157e1407c . Acesso em: 07 fev. 2020.

Fontes de referência

Livros

LOURO, G. L. Gênero, sexualidade e educação. Petrópolis, RJ: Vozes, 1997 (Coleção Educação pós-crítica.)

GROSSI, M. P. Identidade de gênero e sexualidade. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1993.

COLEÇÃO Antiprincesas e Antiheróis. Buenos Aires: Chirimbote, 2015.  Disponível em: www.chirimbote.com.ar. Acesso em: 07 fev. 2020.

Cruzada Antiprincesas

Textos disponíveis em sites

GROSSI, M. P. Identidade de gênero e sexualidade, [s.d]. Disponível em:
https://miriamgrossi.paginas.ufsc.br/files/2012/03/grossi_miriam_identidade_de_genero_e_sexualidade.pdf. Acesso em 07 fev. 2020.

UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO. Biblioteca Virtual de Direitos Humanos. Disponível em:
http://www.direitoshumanos.usp.br/index.php/Declara%C3%A7%C3%A3o-Universal-dos-Direitos-Humanos/declaracao-universal-dos-direitos-humanos.html. Acesso em 07 fev. 2020.

BRASIL. Constituição Federal, artigo 5º – Título II – Dos direitos e Garantias fundamentais- Capítulo I- Dos direitos e deveres individuais e coletivos.
Disponível em: www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/Constituicao.htm. Acesso em 07 fev. 2020.

Vídeo

Vídeo Boneca na mochila

Veja também

Raça, gênero, diversidade e inclusão no ensino médio

Em jogo, bullying, gênero e fake news

Ensino médio, projetos de vida e trabalho