Cor e preconceito no Brasil

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Cor e preconceito no Brasil

Autoria: Associação Cristã de Moços de São Paulo, ONG finalista do Prêmio Itaú-Unicef de 2011 (contato: Nelci Abilel – (11) 5588-4878 – cdcleide@acmsaopaulo.org, nelci.abilel@uol.com.br – www.acmsaopaulo.org). Material publicado originalmente na Plataforma Educação&Participação
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O que é?

Debate sobre o preconceito contra a população negra no Brasil.

Material
  • 2 a 3 espelhos altos (se possível).
  • Folhas de sulfite.
  • Canetas hidrocor, aquarela e lápis de cor.
  • Folhas de papel pardo.
  • Computador com acesso à internet e data show.
  • Almofadas (trazidas pelos próprios jovens).
  • Revistas que contenham artigos sobre discriminação contra os negros no Brasil.
Finalidade

Desenvolver a compreensão de que diversidade não é desigualdade e de que o preconceito, de qualquer natureza, é socialmente construído.

Expectativa

Conhecer um pouco da história do negro no país; desconstruir estereótipos propagados cotidianamente nos vários espaços em que circulam e que reforçam discriminações de várias naturezas como raça, gênero, idade, classe social; valorizar-se como ser humano; gostar de si e de suas origens; respeitar o outro e suas origens.

Público-alvo

Adolescentes e jovens

Espaço

Sala de aula, de atividade ou de informática

Duração

3 encontros de aproximadamente 1h30

Início de conversa

Hector Pieterson, Soweto, 1976. Fonte: Geledés

Em 21 de março de 1960, houve uma manifestação de cerca de 20 mil negros, na cidade de Joanesburgo, capital da África do Sul, que protestavam contra os cartões de passe, que determinavam os locais por onde podiam passar. No bairro negro de Shaperville, defrontaram-se com a polícia que atirou sobre a multidão, deixando 186 feridos e 69 mortos.

Em memória às vítimas do massacre de Shaperville, em 1976, a Organização das Nações Unidas (ONU) instituiu o dia 21 de março como o Dia Internacional de Luta pela Eliminação da Discriminação Racial. O artigo I da Declaração das Nações Unidas sobre a eliminação da discriminação racial diz:

Discriminação racial significa qualquer distinção, exclusão, restrição ou preferência baseada na raça, cor, ascendência, origem étnica ou nacional com a finalidade ou o efeito de impedir ou dificultar o reconhecimento e exercício, em bases de igualdade, aos direitos humanos e liberdades fundamentais nos campos político, econômico, social, cultural ou qualquer outra área da vida pública.”

Declaração das Nações Unidas

E no Brasil, como vão as coisas?

Os dados do último Censo do IBGE de 2010 indicam que os negros autodeclarados (pretos ou pardos, na classificação do órgão oficial) representam 50,7% da população brasileira; os brancos 47,7%; os amarelos 1,1% e os indígenas 0,4%.

É a primeira vez na história do Brasil desde 1872, quando se realizou o primeiro censo demográfico no país, que a população negra é oficialmente declarada majoritária.

O Brasil é a maior nação afrodescendente fora do continente africano. No entanto, em pleno século XXI, após 124 anos da abolição da escravatura, os negros ainda sofrem discriminação, conforme atestam os indicadores sociais recentes.

As diferenças entre negros e brancos se expressam tanto no acesso desigual a bens e serviços, ao mercado de trabalho, ao ensino superior como no universo das relações interpessoais diárias.

No Relatório Global sobre a Igualdade no Trabalho de 2011, da Organização Internacional do Trabalho (OIT), o Brasil aparece com uma taxa de desemprego de 10,1%, entre negros e pardos, enquanto que, entre trabalhadores brancos, é de 8,2%. A participação dos negros na população desempregada é de 50,5%. Segundo o perfil feito pelo Instituto Ethos e o IBOPE, em 2010, das 500 maiores empresas do país, os negros ocupam 13,2% dos cargos de gerência e 5,3% de diretoria. A situação da mulher negra é pior: ela fica com 0,5% do topo.

Em relação ao acesso à educação, o Censo do IBGE de 2016 revela que a taxa de analfabetismo entre pessoas pretas ou pardas é de 9,9%, duas vezes mais do que entre brancos (4,2%). No ensino superior, o percentual de graduação de pretos e pardos cresceu de 2,2%, em 2000, para 9,3% em 2017. No entanto, o acesso de estudantes negros (8,8%) ainda é inferior ao de brancos (22,2%).

O aumento na matrícula de jovens negros no ensino superior tem sido impulsionado pela política afirmativa das cotas, iniciada em 2004 pela Universidade de Brasília. Essa e outras ações afirmativas têm o intuito de eliminar as desigualdades historicamente acumuladas entre negros e não-negros e criar a igualdade de oportunidades e de tratamento. 

O protagonismo do movimento negro começa a mudar essa situação, com a ressignificação do ser negro, que tenta vencer os diversos estereótipos negativos associados à negritude e reproduzidos nas relações sociais e nos meios de comunicação de massa, bem como questionar os lugares sociais de subordinação em que a população negra está inserida.

A própria atitude de autodeclarar-se negro no Censo é expressão disso. Esse processo tem fortalecido a autoestima da população negra e o movimento negro, assim como um maior debate público sobre as desigualdades raciais. Cabe ressaltar que, desde 5 de janeiro de 1989, preconceito racial no Brasil é crime, definido pela Lei n. 7.716.

Na prática

Sugestão de encaminhamento

1º encontro: aproximando-se do tema

Deixe o espaço da sala livre de objetos. Coloque alguns espelhos (2 ou 3), de preferência grandes, espalhados pelo espaço da sala. Diga que vão fazer uma atividade que envolve sensibilização e reflexão sobre a diversidade.

Para isso, inicialmente, andarão livremente pela sala, ao som de uma música suave, prestando atenção em sua respiração: inspirando e expirando devagar. Depois, a um sinal seu, a música será interrompida e eles pararão. Os que estiverem parados na frente dos espelhos vão se olhar por um minuto, observar seu rosto e seu corpo e identificar o que gostam em si. Quem não estiver no espelho, formará dupla com quem estiver mais próximo; os dois integrantes da dupla se cumprimentam e, silenciosamente, um observa o outro: altura, peso, cor da pele, tipo de cabelo.

Passado um minuto, a música será retomada e a caminhada também. Os elementos da dupla se despedem, com um aperto de mão. A um novo sinal – interrupção da música – de novo deverão parar e repetir o ritual em frente ao espelho ou a um colega e assim por diante, até que todos tenham passado pelo espelho e pelos colegas.

E se?
Se alguém parar em frente ao espelho, na segunda rodada, e já tiver
parado antes, deixará o espelho para um colega que ainda não se observou e formará dupla com um colega próximo. Os que estiverem formando duplas também não deverão repetir os parceiros das rodadas anteriores.

Distribua, a seguir, as folhas de sulfite, as canetas e as aquarelas para se retratarem, por meio do desenho, e retratarem alguns colegas. Quem quiser, poderá expor suas produções no chão, no centro da sala.

Os adolescentes e jovens circularão pelos desenhos para observarem-nos e depois, sentados em roda, conversarão sobre suas impressões a respeito do que vivenciaram na dinâmica e na produção do autorretrato:

  • Que sentimentos experimentaram?
  • Que pensamentos passaram pela sua cabeça?
  • Foi fácil ou difícil achar o que gostam em si?

Observe com eles os conteúdos que ficaram mais fortes nessa rodada, para serem retomados depois. Convide-os, então, a assistirem ao vídeo “Vista minha pele”. Em seguida, organize um debate sobre a condição do negro no Brasil.

Após a projeção, abra a roda para que comentem o enredo e a forma como foi apresentado (o branco é discriminado numa sociedade de negros):

  • Que intenção tinha o autor ao colocar os personagens brancos discriminados numa sociedade dominada por negros?
  • Qual a relação desse fato com o nome do vídeo?
  • O que cada um sentiu “vestindo” a pele do outro que é discriminado?
  • Que outros tipos de discriminação conhecem ou vivenciaram?

Observe que, neste caso, o enfoque foi no preconceito contra o negro, mas, em nossa sociedade existem preconceitos de outras naturezas como em relação à origem étnica, ao gênero, à orientação sexual, à idade (geracional), à classe social. Conduza a discussão para que entendam que o preconceito não é natural, é historicamente desenvolvido pelas relações de domínio e de poder estabelecidas entre povos ou grupos de pessoas e que passa de geração a geração como se fosse natural.  Mas, como não é natural, pode e deve ser erradicado. Essa é uma luta de vários movimentos sociais de ontem e de hoje, no nosso país e no mundo. Será que eles conhecem algum? Investigue.

Para aprofundar o assunto, proponha aos jovens trazer, em continuidade da oficina, para conversar com eles, algumas pessoas que tenham acúmulo sobre a participação do negro na expressão artística brasileira (cinema, novelas, música, pintura), bem como sobre movimentos políticos de emancipação, no decorrer de nossa história, para a realização de um debate.

Para isso, divida a turma em dois grupos e cada grupo sairá com uma tarefa. Um deles, com sua ajuda, irá procurar um professor de Arte, convidando-o a organizar um panorama geral da participação do negro nas artes, no Brasil; o outro grupo, também com sua ajuda, pesquisará se há na região alguma ONG ou movimento social organizado e reconhecido voltado para a questão racial, para convidar um representante a vir discutir a situação do negro no país: suas conquistas históricas e os atuais desafios. Aproveite esse momento para aproximar escolas, ONGs e outras instituições do território.

E se?
Se não houver algum grupo organizado nas proximidades, procure a ajuda de outros educadores, dos professores de História da escola ou de militantes de movimentos que você ou algum colega ou jovem de seu grupo conheça e que desenvolva um trabalho sério. O fato é que é importante que os jovens conversem, se informem e discutam a questão, pois esta é uma das formas de se valorizar a cultura negra e enfrentar a discriminação racial.

2º encontro: preparando o debate

Neste encontro, forme grupos e distribua algumas revistas sobre o tema da discriminação, enfocando a questão do negro, tema que será debatido na ocasião. Os grupos farão a leitura do texto e formularão perguntas para o debate, a partir dele. Acompanhe a leitura e esclareça as dúvidas de compreensão. Abra a roda, em seguida, para a socialização dos grupos. Indique também alguns sites para consultarem, no período entre esse encontro e o debate, na própria instituição, em casa, ou num telecentro, a fim de ampliarem o repertório sobre o assunto e fortalecer a discussão.

Organize com eles o evento: dia e hora em que será realizado; tempo que será destinado a cada palestrante (esse tempo deve ser informado aos convidados e deve ser de aproximadamente 15 min. para cada um); quais as perguntas que desejam fazer; como será a organização da sala, quais serão os procedimentos para recepcionar e agradecer os convidados.

Combine com o grupo como será a dinâmica do debate: cada palestrante fala e abre-se espaço para perguntas ou os dois falam e depois se debatem as questões?

Sugira que anotem pontos que chamarem a sua atenção, durante a fala dos convidados, para facilitar a elaboração das perguntas, no debate.

Será interessante, ainda, você marcar uma conversa prévia com os palestrantes para dar informações sobre sua turma, a fim de que possam desenvolver uma fala adequada à faixa etária dela e ao seu repertório; sugira que utilizem alguns recursos audiovisuais, que além de tornar mais dinâmico o debate, facilitam o entendimento.

3º encontro: o debate

O desenvolvimento do debate seguirá o planejamento feito anteriormente, a menos que tenha havido necessidade de alterações e ajustes. Assim, abre-se o evento com a apresentação dos convidados para o público presente, que poderá ser feita pelo educador, em conjunto com um adolescente ou um jovem.

Em seguida, façam a apresentação da dinâmica da exposição e do debate: a ordem das falas, em que momento serão feitas as perguntas e quanto tempo será dedicado para a sua discussão.

É importante ficar atento(a) para mediar eventuais impasses, apesar de todo o cuidado anterior com a preparação. O que se busca, ao debater a questão da discriminação, é a inserção social de todos, a igualdade de direitos e não o confronto ou o acirramento de posições ideológicas.

Hora de avaliar

Terminado o debate, após a saída dos convidados, os adolescentes e jovens organizam-se em grupos, conversam sobre o que foi mais significativo para cada um e relacionam num cartaz duas ou três ideias que consideram mais importantes do que foi tratado, afixando os cartazes na parede, após as devidas correções e reescrita.

Em seguida, proponha aos grupos que elejam, dentre essas ideias, a que consideram mais forte sobre a condição do negro na nossa sociedade e montem uma cena. Fotografe a cena de cada um e projete-as, em seguida, em datashow,para que possam se ver, representando-as. As fotos poderão ser ampliadas e afixadas nas paredes da sala, ao lado dos cartazes, compondo um painel.

Para ampliar

O que mais pode ser feito?

É importante ampliar o debate iniciado, abordando outros tipos de discriminação existentes na nossa sociedade, como as de gênero, de idade, de classe social.

A ajuda de instituições governamentais e não governamentais, envolvidas de alguma forma com a questão, é muito bem vinda.

Esse debate poderá ser estendido à comunidade e ser realizado em parceria com outra instituição do território. A projeção de um filme ou de um documentário e a apresentação de grupos artísticos atuantes na região ajudarão a atrair as pessoas para o debate e a tornar o encontro mais agradável.

Referências

Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas MEC/INEP: Pesquisa sobre Preconceito e Discriminação no Ambiente Escolar –2009.

Desconstruir o racismo e forjar uma utopia radical negra – Revista “Caros Amigos” de 18 de novembro de 2011. Artigo do jornalista e antropólogo Douglas Belchior e do historiador Jaime Amparo Alves, ambos membros da Uneafro-Brasil.