OSC e escola pública: garantia de educação integral

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OSC e escola pública: garantia de educação integral

Esta temática traz experiências de educação integral inspiradoras em parcerias entre escolas e organizações da sociedade civil

A fim de proporcionar o desenvolvimento pleno de crianças, adolescentes e jovens, a educação integral propõe a cooperação de atores e espaços educativos além da escola.

Nesse contexto, toda a sociedade é convocada e abre-se a possibilidade de parcerias.

Esta temática aborda as parcerias entre escolas e organizações da sociedade civil (OSCs). Com textos de referência, conteúdo multimídia e depoimentos de quem superou desafios, o material apresenta dicas de como se articular para promover a educação integral.

Educação integral para quê?

educação integral busca garantir o pleno desenvolvimento de crianças, adolescentes e jovens e reconhece que ele só é possível quando se observam diferentes dimensões: física, afetiva, cognitiva, ética, estética e política, em uma proposta multidimensional e integrada.

Isso pressupõe a articulação dos diversos saberes da escola, da família, da comunidade e do território em que o indivíduo se insere, com múltiplas oportunidades de aprendizagem por meio da ampliação do tempo, da circulação no território e do acesso a cultura, arte, esporte, ciência e tecnologias etc.

Assim, mais do que ampliar a jornada escolar, a proposta da educação integral trata de ampliar repertórios e oferecer oportunidades a crianças, adolescentes e jovens para compreenderem e expressarem o mundo utilizando as diferentes linguagens, dentro e fora da escola. Não pode ser dissociada, portanto, de seu reconhecimento como cidadãos e sujeitos de direitos – e se torna, na verdade, um dos fundamentos das políticas públicas que visam à garantia desses direitos.

Esse reconhecimento remonta à Declaração dos Direitos da Criança (1959) e à Convenção sobre os Direitos da Criança, adotada pela Resolução 44/25 da ONU, de 1989, e ratificada por 193 países, inclusive o Brasil. É também o princípio que se encontra em documentos como o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e a Constituição Federal do Brasil de 1988.

• O vídeo abaixo, que destaca o Projeto Pequenos Cidadãos da Floresta, iniciativa da Associação Missionária de Apoio e Resgate, de Manaus (AM), mostra a importância do reconhecimento de crianças, adolescentes e jovens como sujeitos de direitos. O Projeto foi  vencedor na categoria médio porte da Regional Belém na 10ª edição do Prêmio Itaú-Unicef.


Há políticas de indução de educação integral no Brasil?

Ao falar de educação integral no Brasil é imprescindível citar duas iniciativas de enorme importância para a agenda política: o Programa Mais Educação e o último Plano Nacional de Educação (PNE).

Iniciado em 2007, o Mais Educação surge a partir da Portaria Normativa Interministerial nº 17, de 24 de abril de 2007, e integra as ações do Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE).

Operacionalizado pela Secretaria de Educação Básica (SEB), utiliza recursos do Programa Dinheiro Direto na Escola (PDDE) e do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) e inclui fundamentos da educação integral, com o objetivo de induzir e estimular o surgimento de políticas públicas locais nesse sentido em todo o País.

“É uma ação em escala nacional […], eficaz na medida em que constitui uma estratégia para reduzir as desigualdades e a vulnerabilidade social no País, com um caráter compensatório”, comenta Maria Amabile Mansutti, coordenadora técnica do Cenpec.

Já o PNE, sancionado em 2014, estabelece na meta 6 a oferta de “educação em tempo integral em, no mínimo, 50% das escolas, de forma a atender, pelo menos, 25% dos(as) alunos(as) da Educação Básica” até 2024.

A estratégia 6.4 dessa meta, por sua vez, propõe “a articulação da escola com os diferentes espaços educativos culturais e esportivos, e equipamentos públicos como centros comunitários, bibliotecas, praças, parques, museus, teatros, cinemas e planetários”.

Em suma, não é só a escola: outros agentes podem contribuir para a oferta de oportunidades de aprendizagem, em diferentes arranjos.

educação integral, portanto, não tem uma única maneira de ser implementada. De acordo com a temática Educação integral: um conceito em busca de novos sentidos, é consenso que as particularidades e potencialidades de cada local precisam ser levadas em consideração.

Nesse sentido, a parceria entre escolas públicas e OSCs é uma estratégia privilegiada para explorar essas potencialidades e promover uma formação mais completa do educando, tendo em vista que, sob a perspectiva da educação integral, as instituições não são autossuficientes para proverem, isoladamente, essa formação.

Articulação para a garantia de direitos

Maria de Salete Silva, especialista em educação e políticas públicas, explica a importância da articulação entre diferentes atores na efetivação dessas ações. Além disso, ressalta o protagonismo das OSCs na garantia dos direitos de crianças e adolescentes.

Qual a relação entre o papel social das OSCs e a educação integral?

Articular diferentes atores, propiciar o pleno desenvolvimento de crianças, adolescentes e jovens e reconhecê-los como sujeitos de direitos são fundamentos da educação integral – mas o conceito vai além.

Na verdade, a educação integral é também estratégica para a redução de vulnerabilidades e desigualdades, tendo assim um papel na concretização dos direitos garantidos em lei.

Esse papel é revestido de importância quando se observa que, mesmo com melhoras progressivas nos indicadores nos últimos anos, o Brasil ainda registra índices preocupantes de vulnerabilidade social e educacional, que desafiam o alcance das políticas públicas do Estado.

Diante desse contexto, as OSCs se constituem em alguns dos parceiros mais interessantes na implementação de políticas públicas e para a educação integral, graças à sua capilaridade, ou seja, ao seu alcance sociogeográfico.

“O Estado é necessário, imprescindível, insubstituível mesmo, mas não é suficiente”

Augusto de Franco, autor da obra Terceiro setor: a nova sociedade civil e seu papel estratégico para o desenvolvimento (2003)

Mas, afinal, o que é OSC?

A publicação Organização da sociedade civil e escola pública: uma parceria que transforma (2015), do Prêmio Itaú-Unicef, informa que OSC é “toda e qualquer entidade que desenvolva projetos sociais com finalidade pública”.

A obra assume ainda a definição da Associação Brasileira de Organizações Não Governamentais (Abong): “servem à comunidade, realizam um trabalho de promoção da cidadania e defesa dos direitos coletivos, lutam contra a exclusão, contribuem para o fortalecimento dos movimentos sociais e para a formação de suas lideranças, visando à constituição e ao pleno exercício de novos direitos sociais, incentivam e subsidiam a participação popular na formulação e implementação das políticas públicas”.

Esse tipo de entidade também é conhecido como organização não governamental (ONG), termo utilizado por instâncias como ONU e União Europeia.

O IBGE, por sua vez, conceitua organizações que compõem o universo do que ele denomina fundações privadas e associações sem fins lucrativos (Fasfil).

Na publicação As fundações privadas e associações sem fins lucrativos no Brasil: 2010, definem-se as Fasfil como organizações que são:

(a) privadas, não integrantes, portanto, do aparelho de Estado;

(b) sem fins lucrativos, isto é, organizações que não distribuem eventuais excedentes entre os proprietários ou diretores e que não possuem como razão primeira de existência a geração de lucros – podendo até gerá-los, desde que aplicados nas atividades fins;

(c) institucionalizadas, isto é, legalmente constituídas;

(d) autoadministradas ou capazes de gerenciar suas próprias atividades; e

(e) voluntárias, na medida em que podem ser constituídas livremente por qualquer grupo de pessoas, isto é, a atividade de associação ou de fundação da entidade é livremente decidida pelos sócios ou fundadores.

Como se realiza a parceria entre OSC e escola pública?

Atenta à complexidade do ser humano e à incompletude das instituições, a educação integral demanda uma multiplicidade de olhares e exige a interlocução e integração de vários atores, o que resulta na compreensão de que a escola e os demais espaços educativos da comunidade devem se reconhecer como intercomplementares.

Ainda nessa perspectiva ampliada, a educação integral, de acordo com o regulamento da 11ª edição do Prêmio Itaú-Unicef, se concretiza em ações socioeducativas “por meio de projetos com intencionalidade educativa que, desenvolvidos pela parceria entre organizações da sociedade civil e escolas públicas – articulados com outros espaços do território –, asseguram a aprendizagem e o direito ao desenvolvimento integral de crianças, adolescentes e jovens”.

O vídeo a seguir explica o que é intencionalidade pedagógica e por que ela é importante nas ações socioeducativas.

E essa tal incompletude?

Diz o artigo 86 do ECA: “a política de atendimento dos direitos da criança e do adolescente far-se-á através de um conjunto articulado de ações governamentais e não governamentais, da União, dos estados, do Distrito Federal e dos municípios”.

O artigo ecoa o princípio da incompletude institucional, que, segundo a doutora em Psicologia Tatiana Yokoy de Souza (2010), especialista em Assistência Social na Secretaria de Desenvolvimento Humano e Social do Distrito Federal, implica no fato de que “todas as políticas de garantias de direitos sejam executadas em uma rede integrada, com objetivos em comum, mobilizando o máximo de recursos disponíveis na comunidade”.

Para Silvia Tejadas (2007), doutora em Serviço Social e assistente social do Ministério Público do Rio Grande do Sul, essas redes se inserem tanto na perspectiva da integração e articulação entre diferentes políticas e instituições como entre diferentes áreas do conhecimento, partindo de uma concepção de “homem como ser histórico, indivisível, cujas necessidades devem ser atendidas na sua integralidade”.


“A escola, apesar de ter um lugar central, não é suficiente para ensinar tudo o que uma pessoa precisa aprender. Não há nessa afirmação uma crítica à escola, tampouco a desvalorização do que ela faz. Ao contrário, a partir dessas ideias pode-se pensar a escola em relação estreita com o mundo da cultura e com a sociedade vista de modo abrangente”

Maurício Érnica, docente do Departamento de Educação, Conhecimento, Linguagem e Arte (Delart) da Faculdade de Educação da Unicamp (2006, p. 15)

De que parceria estamos falando?

Segundo a obra Organização da sociedade civil e escola pública: uma parceria que transforma, o conceito de parceria se encontra em construção.

No entanto, é possível fazer algumas distinções: a parceria se diferencia do apoio ou colaboração, que é uma ajuda pontual, quando há o interesse das partes em realizar algo porque compartilham da mesma finalidade e uma entra com apoio técnico ou logístico a uma ação específica da outra; e do patrocínio, que ocorre quando há financiamento por meio de contribuição financeira, fornecimento de produtos, cessão de locais, doações etc.

A parceria envolve um “compartilhamento mais profundo de objetivos e expectativas de resultados. […] É preciso que haja sintonia na concepção, no planejamento e na realização daquilo que se quer, e algum nível de complementaridade entre os parceiros. […] Geralmente há reciprocidade e as instituições complementam racionalmente os recursos” (LOMONACO; BRUNSIZIAN, 2015, p. 14).

Estabelecer parcerias entre OSCs e escolas visando à educação integral significa, antes de tudo, reconhecer o lugar e as especificidades de cada uma; e, em seguida, identificar as potencialidades que elas oferecem a crianças, adolescentes e jovens quando trabalham integradas e em torno de um objetivo comum.

Portanto, o primeiro passo é saber quais são essas especificidades e quais as diferenças nos papéis de OSCs e escolas públicas. (Acesse o documento “OSC e Escola Pública: uma parceria que transforma”.)

“Nós nos juntamos para um benefício comum. O Projeto desenvolve as atividades que tem de desenvolver e […] nós também temos nossas ações dentro da escola”. Avenilza Tokuta Castro, diretora do Centro de Educação Tadashi Inomata, escola parceira da Alfabetiarte no Projeto Curumins da Amazônia II: Protagonizando Vidas com Educação e Arte, destaca que, mesmo com papéis diferentes, escola e OSC unidas ampliam os benefícios para crianças e adolescentes.

• Saiba mais sobre o projeto, vencedor nacional na categoria médio porte da 11ª edição do Prêmio Itaú-Unicef, no vídeo abaixo.

“A concepção de parceria significa uma associação em que a soma das partes representa mais que o somatório individual de seus membros”

Marlova Jovchelovitch Noleto, diretora da Área Programática da UNESCO no Brasil (2004)

Ações socioeducativas e diferentes metodologias

Além da capilaridade e de seu papel social, as OSCs, ao realizarem ações socioeducativas, têm autonomia para criar e testar metodologias, como explica a especialista Isa Guará, doutora em Serviço Social e docente da UNIAN – Universidade Anhanguera de São Paulo.

Quais os caminhos para fazer parcerias?

Na formação de parcerias entre OSCs e escolas públicas, diferentes modelos são possíveis.

Há aquelas, por exemplo, que ocorrem porque a organização procurou a escola. Há aquelas em que a escola tomou a iniciativa e fez a proposta à organização. Há também a parceria que se estabelece entre OSC e escola estimulada pela gestão pública.

O universo de parcerias entre OSCs e escolas públicas é bastante amplo e envolve essas e outras possibilidades.

Assim, o intuito aqui não é esgotar o assunto, mas apontar maneiras pelas quais os interessados em promover a educação integral juntem forças em prol do desenvolvimento de crianças, adolescentes e jovens, ampliando as possibilidades de aprendizagem e inspirando-se nas histórias de quem enfrentou e/ou enfrenta desafios e colhe frutos.

É importante destacar que uma parceria bem-sucedida, em primeiro lugar, caracteriza-se por uma associação em que “a soma das partes representa mais que o somatório individual de seus membros”, segundo Marlova Jovchelovitch Noleto (2004), mestre em Serviço Social e diretora da Área Programática da UNESCO no Brasil.

A especialista dá algumas dicas de como “chegar lá”:

  • concentrar-se no valor do somatório de forças;
  • adaptar-se estruturalmente: é preciso ceder para construir parcerias;
  • desenvolver confiança mútua suficiente;
  • estabelecer comunicação adequada e frequente;
  • ser preciso nos detalhes do acordo;
  • conhecer profundamente sua própria organização.

Assista, no vídeo abaixo, a uma experiência de parceria bem-sucedida entre OSC e escola pública.

O vídeo destaca o Projeto Eu, Você e a Escola, Educação que Transforma, parceria entre o Projeto Caminhando Juntos (Procaj) e a Escola Estadual João Cesar de Oliveira, de Diamantina (MG) e grande vencedor nacional da 11ª edição do Prêmio.

Gestão pública e estímulo à parceria

Quando o estado ou o município reconhece o papel social das OSCs e veem nele uma forma de potencializar sua política de educação integral, a parceria entre organizações e escolas passa a compor a própria proposta do poder público.

Assessorado pela Fundação Itaú Social, com coordenação técnica do Cenpec, por meio do Programa Políticas de Educação Integral, São Bernardo do Campo (SP) é um dos exemplos em que a parceria entre OSCs e escolas é estimulada pela gestão pública.

O município tem uma política pública de educação integral inspirada e induzida pelo Programa Mais Educação, implantado inicialmente em nove escolas, no ano de 2009.

A Secretaria Municipal de Educação assumiu os compromissos políticos e programáticos do Mais Educação. Adaptando-os à realidade do município e com apoio da interlocução com outras experiências de educação integral, como a de Belo Horizonte (MG), surgiu o Programa Tempo de Escola, em 2010.

O Tempo de Escola prevê:

  • ampliação das escolas atendidas, o que abarcou equipamentos de todas as regiões da cidade;
  • construção de parceria com OSCs para a promoção de atividades educativas e articulação com outras políticas municipais;
  • identificação de espaços no entorno das escolas aptos a serem utilizados pelo Programa;
  • contratação de educadores sociais, agentes de apoio e professor articulador com dedicação integral.

O processo de parceria com as organizações foi construído com base em um edital que buscou instituições que já desenvolvessem no município um trabalho social voltado para a faixa etária do Ensino Fundamental I.

Após um chamamento público e um encontro entre a Secretaria e as OSCs interessadas, foram realizadas visitas técnicas. Hoje o Programa, em parceria com OSCs, atende mais de 10 mil alunos.

Além da sala de aula: a escola busca parceiros

“Sair de dentro dos muros da escola é difícil, […] mas esse é o caminho para que tenhamos uma escola que exerça o seu papel social e uma educação integral de fato”, diz Elaine dos Santos Pereira, coordenadora pedagógica da Escola Municipal Santa Anastácia, em Abaetetuba (PA).

A escola é parceira da Associação Obras Sociais da Diocese de Abaetetuba no Projeto Escola de Cidadania – Preparando os Adolescentes para o Futuro, que foi vencedor na categoria pequeno porte da Regional Belém na 10ª edição do Prêmio Itaú-Unicef.

Quando a escola reconhece as potencialidades das OSCs no território, temos exemplos em que a iniciativa de parceria parte da própria direção escolar, da coordenadoria pedagógica ou ainda dos professores. A já referida publicação Organização da sociedade civil e escola pública: uma parceria que transforma traz algumas experiências nesse sentido.

Uma delas ocorre em Guararema (SP), onde são parceiras a Escola Estadual Ivan Brasil e a Associação Olhos de Águia. Inicialmente, a organização fazia palestras sobre a participação dos pais na vida escolar dos filhos, até que um dia o diretor da escola pediu uma atividade semanal de humanização. Assim nasceu a parceria. Hoje a Associação recebe alunos de duas escolas estaduais e três municipais no contraturno.

• Conheça, no vídeo abaixo, o Projeto Fazendo Arte, fruto da parceria entre a Associação Olhos de Águia e a Escola Estadual Ivan Brasil. O projeto foi um dos vencedores da Regional São Paulo na 10ª edição do Prêmio.


De fora para dentro: da OSC à escola

Por sua natureza mais flexível, é mais comum que a OSC busque a escola para estabelecer uma parceria visando à educação integral.

Referenciadas na publicação Organização da sociedade civil e escola pública: uma parceria que transforma, temos as experiências do Centro de Promoção e Assistência Social Ana Bernardina (Cepas) e Escola Municipal Herbert José de Souza, em Belo Horizonte (MG); e do Centro de Atendimento Especial à Criança e ao Adolescente de Paranavaí (Cecap) e Escola Municipal Getúlio Vargas, em Paranavaí (PR).

Já assessorada pela Fundação Itaú Social, com coordenação técnica do Cenpec, Belo Horizonte tem uma proposta de educação integral em sua rede, o Programa Escola Integrada. Portanto, a parceria do Cepas com a escola nasceu em um terreno fértil, quando uma das oficineiras da OSC, que também era professora, propôs o contato.

“A diretora ficou aliviada com a proposta que eu fiz, porque a indisciplina era muito grande, e a violência das crianças também. Nós nos propusemos iniciar com uma gincana […]. Quando a gincana acabou, nós começamos com a oficina de hip-hop. Ao final, a diretora falou assim: ‘E agora, o que nós vamos fazer?’”, conta Wesley Camilo, então coordenador da OSC.

Em Paranavaí (PR), também foi a OSC que propôs a parceria. Líria Inez Balestieri, diretora voluntária do Cecap, conta que um grupo de crianças com comportamento “não condizente”, como depredar o espaço da escola e desrespeitar professores, foi um dos argumentos para a aproximação: a organização demonstrou que o comportamento das crianças era diferente no projeto.

Foram realizados momentos de lazer e eventos culturais e artísticos, e a parceria se consolidou. O Cecap se relaciona hoje com 14 escolas estaduais e municipais. Saiba mais no vídeo abaixo.

“Funciona ensinar de outro jeito”

Os desafios, as oportunidades e as múltiplas possibilidades de aprendizagem que se apresentam nas parcerias entre OSC e escola pública dentro de uma proposta de educação integral são os temas de um documentário produzido pela Miração Filmes, de Sergio Roizenblit, com coordenação técnica do Cenpec. Confira!

Outros arranjos

As parcerias entre OSCs e escolas para a educação integral, às vezes, incluem o próprio poder público em uma ação tripartite.

A Associação Olhos de Águia, de Guararema (SP), por exemplo, hoje também recebe apoio técnico e financeiro da Prefeitura Municipal, e, quando a situação de vulnerabilidade é mais profunda, o Conselho Tutelar e o Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente (CMDCA) dão suporte.

Em São Bernardo do Campo, a parceria entre o Núcleo de Apoio ao Pequeno Cidadão e a Escola Municipal de Educação Básica Edson Danillo Dotto resultou no Projeto Preservando a Vida, vencedor na categoria médio porte da Regional São Paulo na 11ª edição do Prêmio Itaú-Unicef, mas foi da Secretaria de Educação a iniciativa de procurar o Núcleo.

Em Diadema (SP), o Projeto Matéria Rima, vencedor nacional na categoria pequeno porte da 11ª edição do Prêmio Itaú-Unicef, é resultado da parceria entre a Associação Assistencial e Cultural Manos de Paz e a Escola Municipal Sagrado Coração de Jesus – mas, antes de chegar à escola, a parceria da Associação foi feita diretamente com a Secretaria de Educação.

• Conheça, no vídeo abaixo, um pouco mais do Projeto Matéria Rima.

A 10ª edição do Programa Jovens Urbanos em São Paulo (SP) demonstrou mais uma das inúmeras possibilidades de parceria entre OSC e escola pública para a educação integral.

Por meio do Programa, houve uma articulação entre a Escola Estadual Ruy de Mello Junqueira e organizações do distrito de Cidade Tiradentes.

Como resultado, a escola recebeu experimentações do Jovens Urbanos e foi escolhida como um dos locais dos projetos de intervenção realizados pelos jovens participantes do Programa.

A aproximação entre a escola e as OSCs também possibilitou uma exploração cartográfica da região, que trabalhou com as potencialidades do território. “O Programa movimentou a escola […]. Isso fez com que outros alunos, de outros períodos, ficassem interessados nas atividades”, conta o professor Sergio Baptistilli.

• Assista ao vídeo sobre as explorações cartográficas na Cidade Tiradentes.

“Primeiro, o prefeito conheceu nosso trabalho, gostou muito e nos apresentou ao secretário de Educação. Aí, o secretário nos apresentou a todos os professores, diretores… Eles adoraram o nosso trabalho entramos nas escolas.”

Josiane Nascimento Silva, coordenadora pedagógica do Projeto Matéria Rima, vencedor nacional na categoria pequeno porte da 11ª edição do Prêmio Itaú-Unicef.

Superando desafios

Reconhecer a presença de organizações e escolas em um mesmo território, “romper os muros” da escola para a redução de vulnerabilidades sociais e valorizar a liderança e gestão, mesmo em um contexto de rede, são condições fundamentais para parcerias, ao mesmo tempo que há inúmeros desafios.

“O maior […] é construir uma relação de confiança”, conta Renata Paredes, coordenadora pedagógica da Associação Eremim, de Osasco (SP). “É difícil porque, no início, mudar um modelo, mudar uma perspectiva de atuação exige um pouco de coragem e de audácia”, concorda Maria Isabel Somme, coordenadora do Instituto de Incentivo à Criança e ao Adolescente (ICA), de Mogi Mirim (SP). As declarações estão em vídeo do Prêmio Itaú-Unicef.

Esses e outros temas são discutidos na videoconferência Parcerias: oportunidades e desafios, realizada pelo Prêmio Itaú-Unicef no contexto da Assessoria às Organizações Premiadas e Escolas Parceiras de 2014.

Assessoria às organizações e escolas

O Prêmio Itaú-Unicef identifica, reconhece e estimula ações socioeducativas desenvolvidas pela parceria entre OSCs e escolas públicas, mas não se limita a isso: a seleção dos projetos, que ocorre nos anos ímpares, prevê a formação dos profissionais da área de Educação e Assistência Social que atuam como avaliadores desses projetos.

Nos anos pares, as ações são centralizadas na formação de educadores e gestores das organizações e escolas públicas participantes no ano anterior, de agentes públicos e de diversos segmentos da sociedade envolvidos com a garantia de direitos de crianças, adolescentes e jovens. Os processos formativos contam com ações presenciais e a distância (EAD).

• O debate virtual Relação ONG-escola: formando e fortalecendo educadores aborda, entre outros tópicos, a inserção do trabalho da OSC na escola de maneira orgânica, pois o sucesso da parceria também passa pela importância da formação dos educadores

O que ganhamos com as parcerias

“A parceria firma o relacionamento que a sociedade tem com a escola. Então, é levar a rua para dentro da escola. Isso é muito importante: as crianças passam a gostar mais de ir à escola”
Josiane Nascimento Silva, coordenadora pedagógica do Projeto Matéria Rima, vencedor nacional na categoria pequeno porte da 11ª edição do Prêmio Itaú-Unicef

“O projeto é muito tecnológico: a gente mexe muito com câmera, computador, rádio, filmagens e várias outras coisas. Aprendi muito! A rádio me ajudou até nos trabalhos de escola”
Maria Eduarda de Andrade, participante do Projeto Preservando a Vida, vencedor na categoria médio porte da Regional São Paulo na 11ª edição do Prêmio Itaú-Unicef

Superando desafios

O vídeo abaixo mostra que é possível iniciar articulações entre os diversos atores do território, enfrentar problemas, superar os desafios por meio do diálogo, estabelecer e fortalecer as parcerias entre OSCs e escolas e, assim, oferecer diferentes oportunidades de aprendizagem a crianças, adolescentes e jovens.


Créditos

TEXTO:João Marinho de Lima Neto
EDIÇÃO:Márcia Coutinho R. Jimenez
LEITURA CRÍTICA:Nazira Arbache, Marcelo Bragato Pardini e equipe do Prêmio Itaú-Unicef
ARTE:Thiago Luis de Jesus
IMAGENS:flickr/Prêmio Itaú-Unicef