Brincando no baú da oralidade

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Brincando no baú da oralidade

As brincadeiras orais fazem parte da cultura popular brasileira. Como elas podem contribuir para a educação infantil?

Um, dois, feijão com arroz. Uni duni tê, salamê minguê. Rei, Capitão, Soldado, Ladrão… Quem nunca brincou com esses pequenos versos, acompanhados de palmas, batidas de pé ou outros gestos? Eles são exemplos muito conhecidos de parlenda, parte da tradição oral do nosso povo.

Parlenda é um conjunto de palavras com pouco ou nenhum nexo lógico e de caráter lúdico. Constituída por rimas simples e versos curtos, ritmo fácil, tem a função de divertir, entreter ou acalmar crianças, compor uma brincadeira ou ajudar na memorização de números, dias da semana, cores etc.

Parlenda

Mas de onde vem essa brincadeira?  As parlendas chegaram ao Brasil com os portugueses, que as chamam de cantilenas ou lenga-lengas. Aqui ganharam novas cores e sonoridades, enriquecidos pelas contribuições linguísticas e culturais dos povos indígenas e africanos.

Acalanto

Elas se distinguem dos acalantos (cantigas para fazer criança dormir), dos jogos (caracterizados pela competição entre os participantes), das cantigas de roda, das adivinhas ou charadas (‘o que é o que é”) e das superstições e simpatias.

Brinco

Há também os brincos, que são parlendas mais fáceis, ditas e recitadas pelos pais, avós, educadores ou cuidadores para entreter ou acalmar os bebês e as crianças bem pequenas.

Brincadeiras orais na educação infantil

Resultado de imagem para Lenice Gomes e Fabiano Moraes e autores do livro Alfabetizar letrando com a tradição oral (2013):
Capa do livro. Reprodução

Qual é a importância das brincadeiras de tradição oral para o desenvolvimento das crianças pequenas? Segundo os pesquisadores Lenice Gomes e Fabiano Moraes, autores do livro Alfabetizar letrando com a tradição oral (São Paulo: Cortez, 2013):

A palavra, o verbo, a linguagem e o ato de narrar são criadores e transformadores. Ao homem é concebido este dom que traz em si o poder da escolha, da mudança e do discernimento. O dom de transitar dos mitos às recriações, da tradição oral aos escritos para crianças.

Lenice Gomes e Fabiano Moraes
Maria Alice Junqueira

Em reportagem, a especialista em alfabetização e letramento Maria Alice Junqueira, coordenadora do projeto Letra Viva Alfabetiza (CENPEC Educação), lembra:

Entendemos os jogos e as brincadeiras como parte da cultura. É o adulto, seja a mãe, o pai, os avós, seja o cuidador, o educador quem apresenta brincadeiras tradicionais. Isso acontece desde bebês, por meio de acalantos e brincos, por exemplo.”

Maria Alice Junqueira

Professor » Claudia Lemos Vóvio » GUARULHOS - Escola de Filosofia, Letras e  Ciências Humanas - EFLCH » Educação » Somos UNIFESP
Claudia Vòvio

Para Claudia Lemos Vóvio, professora de alfabetização e letramento na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), é fundamental a todo alfabetizador conhecer bem o repertório da infância: a brincadeira, a oralidade, a literatura infantil são aliadas do ensino-aprendizagem da língua escrita, aproximando a criança do universo letrado. Confira a entrevista.

Magda Soares

A professora emérita da Universidade Federal de Minas Gerais Magda Soares, em entrevista ao CENPEC, também destaca a importância de jogos e brincadeiras com palavras, como a parlenda, para a aprendizagem da língua escrita.

Quando a professora trabalha com parlendas que não têm sentido, a criança volta sua atenção para os sons das palavras. Dessa forma, ela está desenvolvendo consciência fonológica, ou seja, a compreensão de que a escrita é a representação gráfica da fala.”

Magda Soares


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ContaCausos. Reprodução

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