O abre e fecha das escolas

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O abre e fecha das escolas

Reportagem aborda os desafios enfrentados pelos(as) professores(as) de redes públicas que retomaram as aulas presenciais e as perspectivas com o agravamento da pandemia
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Por Stephanie Kim Abe

Vivemos o pior momento da pandemia. Ontem, 3 de março, o Brasil registrou o recorde de mortes em um dia: 1910 vidas perdidas. A situação se agrava em grande parte do país. Diversos estados estão decretando lockdown e regredindo seus territórios para fases mais restritivas de circulação e atividade.

É o caso do Ceará e de São Paulo, por exemplo. Desde o começo do ano até o dia 01 de março, o Ceará perdeu 1101 pessoas. Ao comparar o número com os dois últimos meses do ano passado, que teve no período 604 óbitos, vê-se quão preocupante a situação já era – e continua, no estado. Por sua vez, São Paulo atingiu o maior número de pessoas internadas com Covid-19 desde o começo da pandemia, e o ápice de mortes pela doença em 24h: 486 novos óbitos.  

Ao mesmo tempo que decretam novos lockdowns, alguns estados relutam em fechar as escolas. Outros nem as reabriram. Há aqueles que argumentam que as crianças não são grandes vetores e que as consequências para a defasagem de aprendizagem de manter as escolas fechadas são mais graves. Outros entendem que o cenário de agravamento da crise não traz segurança para profissionais de educação e estudantes, mesmo cumpridos todos os protocolos.

O secretário estadual de saúde de São Paulo, Jean Gorinchteyn, declarou esta semana ser favorável à suspensão das aulas, dado o cenário de agravamento da pandemia no estado. Mas ainda assim, o governo manteve as escolas abertas, após o decreto de novo lockdown que começa a partir deste sábado (dia 06). 

Para trazer ao debate a perspectiva dos(as) professores(as), conversamos com seis educadores(as) das redes municipais e estaduais de São Paulo, Ceará e Espírito Santo, que já retomaram aulas presenciais.

Embora os cenários sejam diferentes, há alguns pontos em comum no olhar desses(as) professores(as) quando o assunto é a educação na pandemia:

  • a questão da inclusão digital, que impede ou dificulta o acesso de alunos das escolas públicas às atividades remotas;
  • a demora da gestão educacional em garantir reformas para adequação do espaço físico a fim de garantir um retorno seguro; a importância do vínculo com a família;
  • o papel crucial de uma boa gestão para organizar esses novos processos.

Também é unânime o entendimento de que é necessário priorizar a vacinação de profissionais da educação e de que este não é o momento para retomar as aulas presencialmente.


#EducaçãonaPandemia

O Cenpec Educação tem acompanhado de perto todos os aspectos que envolvem o debate sobre a educação no contexto de pandemia: dos desafios de gestores(as) e educadores(as) aos impactos nos(as) estudantes; da importância do acolhimento aos limites do ensino remoto; das orientações e protocolos sanitários à necessidade de busca ativa.

O intuito é divulgar materiais formativos e informativos que colaborem para a garantia do direito à educação de todos(as) os(as) estudantes e para a redução das desigualdades educacionais em nosso país.

Confira todos os conteúdos em #EducacaoNaPandemia


A volta dos que não foram

No Ceará, desde o dia 1º de fevereiro, as aulas presenciais foram autorizadas para retomada apenas para as turmas do 3º ano, nas escolas públicas estaduais. Cada escola teve autonomia para decidir, em consulta com o seu corpo docente, se retornaria presencialmente ou não.

Na escola de Erica Silva Pontes, que leciona geografia para alunos do ensino médio na rede estadual, a maioria dos docentes optou pelo retorno – o que foi programado para o dia 15/02. De acordo com Erica, houve pressão da Secretaria para voltar nessa semana, justamente a do Carnaval, para evitar aglomerações. Erica explica:

Erica Silva Pontes
Foto: arquivo pessoal

Nós passamos uma semana fazendo adaptação pedagógica, para criar uma grade para o presencial, e outro horário para quem estava no ensino remoto. O que foi muito difícil, porque tem gente que dá aula para mais de uma turma, tem professor que dá aula em outras escolas, etc. Tentamos fazer esse quebra-cabeça, e foi um auê enorme para encaixar os professores.”

Erica Silva Pontes

No dia 17/02, o governo anunciou a suspensão das aulas presenciais em escolas e universidades públicas e privadas por 10 dias. Erica nem chegou a dar sua primeira aula presencial, marcada para o dia 18. “É a volta dos que não foram”, como ela própria define.

A incerteza também é parte da rotina de professores(as) de outras redes. Rejane Gandini Fialho, professora de língua portuguesa em cursos técnicos de duas escolas da rede estadual de educação do Espírito Santo, tem dado aulas presenciais desde o dia 4 de fevereiro, e diz que não há planejamento ou discussão para um fechamento das escolas, apesar de ela entender que esse é o futuro próximo.

Na rede estadual de São Paulo, o professor de história Diogo Leite de Carvalho vai a cada uma das três escolas em Guarulhos, onde dá aula uma vez por semana, desde o dia 08/02. Na sala de aula, ele tem orientado os alunos para possíveis mudanças no formato de ensino, garantindo que aqueles que têm dificuldade com a tecnologia e o acesso à plataforma do governo saiba usá-la em caso de uma volta ao ensino exclusivamente remoto.

“Na minha opinião, a gente teve outros momentos mais adequados pra reabrir a escola. Aqui no Ceará, todas as escolas estavam autorizadas a reabrir desde outubro de 2020, mas as públicas não reabriram porque não receberam as adequações necessárias. Não houve reformas ou inclusão digital”, diz Erica.

Foto: arquivo pessoal

Para Maria Aparecida Passini, professora de educação física das redes municipais de Vitória e Serra (ES), que retomou suas aulas presenciais esta semana (dia 01/03), não há possibilidade de novo fechamento das escolas, a não ser que haja um aumento dos casos e as prefeituras decretem estado crítico.

Claro que eu também não desejo isso. Não quero que aumentem os casos pra fechar escola. A gente está torcendo pra que dê tudo certo, que não haja mais problema, porque vai ser muito complicado. Que fiquemos no amarelo por muito tempo, e que dê tempo de chegar a vacina.”

Maria Aparecida Passini

Saiba mais sobre a importância de vacinar os profissionais de educação


Quem dá aula pra quem?

O retorno das aulas presenciais tem sido permitido para apenas 35% da capacidade total das escolas. Cada rede e escola tem trabalhado com um critério de separação das turmas e organização do trabalho dos professores. Há aquelas que priorizam os alunos com dificuldade de acesso às plataformas digitais (caso da escola onde leciona a professora Erica, em Fortaleza) ou aquelas que organizam toda a sala em subgrupos.

Diogo Leite de Carvalho

Nas escolas estaduais de Guarulhos onde o professor Diogo leciona, por exemplo, quem está encarregado de dar aulas para os grupos que vão às escolas não precisa cuidar dos alunos que escolheram estudar apenas remotamente:

Na verdade, a ideia da Secretaria era justamente esta: que a gente acumulasse funções, dando aulas presenciais e acompanhando os alunos on-line. Mas nós, professores, falamos que o certo seria aqueles que fazem parte de grupos de risco ou são idosos, e estão em casa, darem as aulas on-line.”

Diogo Leite de Carvalho

Já a professora Maria Aparecida não teve tanta sorte. Tanto na rede municipal de Vitória quanto na de Serra, ela precisa cuidar dos grupos de alunos(as) tanto presenciais como remotos:

Eu acabo dando a mesma aula duas semanas, porque ora eu vou dar pra uma turma, e aí esse mesmo conteúdo eu tenho que dar pra outra na semana seguinte. E a gente tem que fazer um trabalho também em casa, pra que aluno que optou por ficar em casa também esteja em atividade. Então, na verdade, o nosso trabalho triplicou.”

Maria Aparecida Passini

Vale lembrar que as condições para as aulas remotas e presenciais são diferentes, assim como as atividades propostas. A professora Erica conta que, como não tinham um plano B para o novo fechamento das escolas, a direção da sua escola resolveu manter a organização de grade horária nos dois subsequentes ao decreto do dia 17/02.

Na semana seguinte, retomaram o calendário de 1º de fevereiro, que contemplava uma organização só para o ensino remoto. Entre as mudanças, estava a duração das aulas: nas aulas presenciais, elas iam das 7h às 11h40; no remoto, das 8h às 10h50.

Reduzimos as aulas de 50 minutos para 30 por causa da questão das telas, pra não deixar os alunos muito tempo na frente do celular, e porque a maioria não tem condições adequadas para o estudo em casa, então não dá pra manter o mesmo ritmo.”

Erica Silva Pontes

Está rolando o ensino híbrido?

O ensino híbrido também tem sido colocado como uma das condições para a retomada das aulas presenciais nas redes municipais e estaduais.

A professora Rejane Gandini Fialho tem utilizado a metodologia ativa chamada de “sala de aula invertida” nas duas escolas estaduais do Espírito Santo em que dá aulas presencialmente. O fato de seus alunos serem do ensino médio facilita a realização das atividades, já que eles têm mais autonomia.

Rejane Gandini Fialho
Foto: arquivo pessoal

Temos feito meio que uma aula invertida, porque a gente tenta trabalhar um conteúdo com o grupo on-line, e atividades relacionadas a isso quando estão na sala de aula. A gente disponibiliza um roteiro na plataforma para os alunos seguirem, e quando chega a aula presencial é como se fosse uma fixação. A gente tira dúvidas, pra poder também não se repetir todas as vezes. Tem sido uma mão na roda, porque eles estudam o conteúdo em casa e a gente não perde tempo.”

Rejane Gandini Fialho

Para muitas escolas, o ensino híbrido tem sido apenas a transmissão de aulas ao vivo, seja do professor em sala de aula e os alunos em casa, ou o professor em casa e os alunos em sala de aula. Isso tem acontecido em apenas uma das escolas paulistas em que o professor Diogo dá aula. Isso porque, para que isso aconteça, é preciso haver boas condições de internet e projetor – recursos que não estão presentes na escola cearense da professora Erica.

Saiba mais sobre o que é e como funciona o ensino híbrido


Há medidas para garantir inclusão digital?

O acesso à tecnologia é um dos principais gargalos apontados por todos(as) os(as) entrevistados(as). Diogo conta que os chips de internet prometidos pelo governo paulista só começaram a ser distribuídos aos alunos este ano. Por isso, ele tenta, em suas aulas presenciais, direcionar os alunos para o aplicativo e até ensiná-los a usar, já que muitos nunca tiveram esse acesso antes.

É quase a mesma situação da rede cearense, de acordo com a professora Erica. No ano passado, as atividades remotas atingiram no máximo 25% dos alunos da sua escola. Com o chip de celular, entregue entre o final do ano passado e o começo de 2021, esse número dobrou, chegando a 50%:

Do ponto de vista da evolução é fantástico. Mas dobrou pra gente ficar com a metade, ou seja, continua sendo uma evasão enorme.”

Erica Silva Pontes

Os(as) professores(as) apontam diversos motivos para isso: da falta de aparelho à falta de conexão; da necessidade de dividir com os irmãos o celular até o desinteresse pelo conteúdo.

A professora Maria Aparecida conta que, mesmo se reinventando, como ela e muitos professores fizeram ano passado para arranjar meios de atingir os estudantes, o desfio da inclusão digital foi visível:

Ontem, eu estava dando aula e perguntei para os meus alunos: das minhas atividades do ano passado, quais vocês se lembram? Ninguém lembrava e acho que ninguém fez. É muito sério o aluno quando ele não tem vínculo com a escola, e nós professores não negamos isso. Principalmente porque os nossos alunos da escola pública não têm condições de realizar o ensino on-line, como têm os estudantes das escolas particulares.”

Maria Aparecida Passini

Qual o papel da gestão escolar neste contexto?

A professora Rejane ressalta a importância de uma gestão firme e forte em meio a tanta incerteza. Pela sua experiência em duas escolas distintas, ela vê a diferença na organização e no suporte da gestão ao trabalho dos professores, principalmente considerando um cenário de falta de padronização e diretrizes centrais.

Na rede capixaba, por exemplo, os professores foram avisados só nos primeiros dias de aula que teriam que realizar uma avaliação diagnóstica dos alunos, o que deixou as coisas um pouco tumultuadas. Além disso, não houve preparação do espaço físico da escola.

A percepção que eu tenho é que vai muito de cada escola. Numa das minhas escolas, a pedagoga é muito ativa. Ela já preparou muita coisa, como modelo de documentos etc. Na outra, não. Os professores ficam meio perdidos, e a gente tenta ajudar um ao outro. Em uma escola, eu não posso usar o laboratório, porque não tem janela ou quem limpar. Na outra, eu sinto menos medo, porque o corpo administrativo faz valer o protocolo.”

Rejane Gandini Fialho

Diogo notou ainda mais o papel da gestão em fazer cumprir os protocolos sanitários entre o alunado, principalmente em um cenário em que a maioria das escolas sofre com falta de funcionários e equipe. É essa atuação forte que o deixado mais seguro em sala de aula, já que muitos alunos não cumprem os protocolos:

O que eu percebo é que a maioria dos alunos não está em casa, está na rua. A maioria não sabe ou não entende o que está acontecendo, e achava que a escola ia voltar ao normal, como era antes. Alguns pais falaram que era pra gente ensinar os filhos a usarem a máscara. Então a gente precisa falar pra eles não ficarem abraçando, pedindo material emprestado, pra ter o álcool gel na mochila e limpar as mãos, que eles precisam tomar cuidado para não pegar a doença e contaminar a família. Quando eles aprendem, eles cumprem os protocolos. Mas não há equipe suficiente na escola, e quando eles não tem um inspetor ou professor junto, eles ficam se abraçando etc.”

Diogo Leite de Carvalho

Maria Aparecida ressalta a falta de olhar da Secretaria para as condições das escolas e dos professores:

A Secretaria está ‘cumpra-se’ desde o começo. Então o apoio que temos é o do próprio gestor. Se a escola está fazendo melhoria, é porque o gestor, com a sua equipe, está correndo atrás. Eu vejo que a gente tá mais apoiado um no outro: no colega, no gestor, na equipe pedagógica. Se não fosse isso, a gente já teria pirado.”

Maria Aparecida Passini

Para além do abre e fecha, precisamos garantir vínculo!

Que o cenário incerto deve permanecer por muito tempo é um fato. Mais do que se prender em debates sobre a reabertura ou não das escolas, é importante que as gestões educacionais e escolares estejam preparadas para lidar da melhor maneira com os desafios impostos pelo ensino remoto.

Para Beatriz Cortese, gerente de Tecnologias Educacionais do CENPEC Educação, as gestões precisam se ligar na iminência de evasão, garantindo uma busca escolar ativa; pensar organizações logísticas e operacionais em conjunto com diretores(as); e, principalmente garantir o acolhimento de todos.

Foto: acervo CENPEC

É preciso garantir que, nesse abre e fecha, seja mantido o contato com as famílias e os alunos o máximo possível. E cada um vai fazer isso conforme a sua realidade: alguns fazem por material impresso, outros o professor faz um plantão, ou algum funcionário consegue passar na casa do aluno. A retomada das aulas presenciais deve garantir acolhimento afetivo, uma revisão curricular importante, que considere a pandemia, e um diagnóstico da aprendizagem dos alunos.”

Beatriz Cortese

Saiba mais sobre o acolhimento em cascata: garantindo o apoio emocional na retomada das aulas presenciais


E a segurança dos professores e da comunidade, fica como?

Ainda que tenham voltado, nenhum dos(as) professores(as) entrevistados(as) se sente seguro(a) em ir pra escola. Seja porque os alunos não cumprem os protocolos, porque a Secretaria não fez as reformas e não garantiu os equipamentos necessários, porque possuem parentes em condições de risco em casa, ou pela simples situação de agravamento da pandemia no Brasil.

Além disso, a falta de gestão democrática também afetou o acolhimento e a segurança de todos(as) profissionais de educação e comunidade escolar.

No Ceará, nos conta a professora  Erica, o sindicato conseguiu que os(as) professores(as) fossem consultados e decidissem se voltariam a dar aulas presencialmente ou não. Mas merendeiros, porteiros, pessoal da secretaria ficaram de fora dessa consulta, o que a faz criticar a forma como essa consulta foi realizada:

A gestão teve a autonomia pra fazer o que achasse mais adequado, mas na minha análise, foi por falta de coordenação e diretrizes gerais. Faltou apoio da secretaria nas escolas, com dados epidemiológicos etc.”

Erica Silva Pontes

Para Rejane, o problema da falta de cumprimento dos protocolos pelos(as) estudantes está na desinformação – e por isso a importância também de ter a escola reaberta:

Acho que esse bombardeio de informações contraditórias faz com que eles não compreendam a gravidade da situação. Você conversa com eles e percebe que eles acham que o pior já passou. Então é quando vão à escola que eles aprendem a seguir os protocolos.”

Rejane Gandini Fialho

Ao mesmo tempo que as condições sanitárias emperram a reabertura das escolas e os(as) professores(as) lutam por uma vacinação mais ágil, eles(as) também reconhecem a importância de garantir o vínculo entre escola e alunos(as), como tem acontecido no ensino remoto. Além disso, reconhecem o papel da escola tanto na proteção das crianças e adolescentes, como um lugar de apoio às famílias:

Eu penso que foi um pouco cedo pra voltar. Mas na rede estadual é fato que as crianças não estão conseguindo acompanhar as aulas remotas. Agora, será que esse ensino não funcionou porque essa escola já precisava de uma forma diferente para olhar para o ensino e foi atropelada com essa questão com a pandemia? Então, além de não ter tido ainda nenhum investimento pra voltar, eu compreendo que também não deveriam retomar outras atividades. Porque, se não, onde os familiares vão deixar as crianças e como essa logística vai se dar, nesse sistema capitalista, que colocou a escola como um lugar onde você deixa os seus filhos e vai trabalhar?”

Rejane Gandini Fialho

E quem decidiu não voltar?

Em São Paulo, que retomou as aulas presenciais na rede estadual desde o dia 08/02, escolas públicas e privadas haviam registrado 741 casos confirmados de Covid-19 em 2021, até o dia 13 de fevereiro, segundo dados do Simed (Sistema de Informação e Monitoramento da Educação para a Covid-19). Já o levantamento do Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp), atualizado hoje (dia 04/03), contabiliza 1845 casos em 842 escolas. 

Por conta dessa situação, na rede municipal e estadual de São Paulo, muitos(as) professores(as) resolveram entrar em greve. Eles(as) chamam atenção para a falta de infraestrutura e equipe necessária para garantir o retorno seguro de funcionários, estudantes e famílias. Mais do que isso, apontam a inércia do governo em realizar as medidas necessárias e a falta de diálogo com a comunidade escolar. 

Na escola onde leciona Lara Santos Rocha, professora de língua portuguesa da rede municipal de São Paulo, 95% do corpo docente aderiu à greve:

Lara Santos Rocha
Foto: arquivo pessoal

Passamos praticamente o ano todo de 2020 sem coordenação pedagógica. A equipe de gestão era apenas a diretora, sozinha, que teve de dar conta de toda a dinâmica de formação de professores, de acompanhamento das questões burocráticas, de receber as famílias na escola. Foi só agora, no começo do ano, que tivemos a contratação de uma assistente de direção. Seguimos sem coordenação pedagógica. Além disso, mais de cinco professores(as) não retornariam, por causa do quadro de funcionários com comorbidades e acima de 60 anos, e teríamos apenas três profissionais para fazer toda a limpeza da escola.

Com relação ao espaço, sugerimos uma reforma no refeitório, que não é higiênico para as crianças, por comerem aglomeradas. A verba só foi liberada este ano, e as obras iniciadas agora. Para as famílias, parece que foi falta de vontade da escola não ter feito esse ajuste anteriormente. É um jogo sujo da Secretaria.

A gente sabe que a demanda pela escola é grande, em vários sentidos, em muitos aspectos. O mais importante pra nós é manter esse vínculo com as famílias. A comunidade tem que ser parceira da escola, e vice-versa. A gente não pode abrir mão dessa escuta, dessa troca, principalmente agora.

Quando a gente fala que não é seguro voltar, não é só por causa dos professores. É por entender que as nossas crianças são responsabilidade da escola a partir do momento que elas estão lá. Mas hoje, a gente não pode garantir esse cuidado. Precisamos exigir do Estado mecanismos de segurança para retornar com saúde e acolher nossas crianças com respeito e dignidade.”

Lara Santos Rocha

A professora Lia Aleixo, que leciona para turmas dos anos iniciais na rede municipal da cidade de São Paulo e também está em greve neste momento, questiona:

Foto: arquivo pessoal

As crianças precisam voltar para a escola. Mas para qual escola? O afeto neste momento se dá pelo distanciamento social. Se a defesa da vida hoje depende de ficar em casa, o que eu digo para as crianças indo para a escola? Será que estamos ensinando mesmo que podemos encontrar soluções coletivas para os problemas apresentados? Ou que temos de seguir as regras não importa qual seja a situação? 

Bem, os brinquedos estão interditados e nada pode ser de uso coletivo. Essa era a forma de partilhar a alegria, a vida e a aprendizagem na escola. Podemos fazer diferente? Podemos, mas também podemos cobrar que o governo garanta essas condições, em vez de responsabilizar nós professores e nós mães e pais pelo acesso ou não das crianças ao atendimento escolar. 

Está evidente que educação não está no centro dos debates. O protocolo coloca todos dentro da escola com reformas atrasadas e sem os prometidos tablets. Quem fala dos 65% que estariam em atendimento remoto? Por que o professor tem que ir até a escola para atender remotamente?

Sim, vejo possibilidades de um atendimento remoto neste momento. Não dá certo para todos, assim como acontece na escola… Mas temos que nos reinventar a partir da realidade e necessidade apresentada. O Estado tem que focar recursos e ações para salvar vidas agora. Prejuízos todos nós carregaremos e veremos o que fazer depois. Eu sei que estou fazendo a minha parte; em greve, sou barreira contra o vírus.”

Lia Aleixo

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