Drogas: conheça a pesquisa censurada da Fiocruz

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Drogas: conheça a pesquisa censurada da Fiocruz

Reportagem especial da Revista Educação revela o quadro que desagradou o governo. The Intercept e O Globo também furaram o bloqueio oficial, e mostraram a íntegra do estudo
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O Brasil não vive uma epidemia de consumo de drogas ilícitas: o maior problema são as bebidas alcoólicas. Essa é a principal conclusão do 3º Levantamento Nacional Domiciliar sobre o Uso de Drogas, realizado pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). A pesquisa foca o consumo de bebidas alcoólicas, tabaco e substâncias ilegais por adolescentes e jovens entre 12 e 17 anos e adultos dos 18 aos 65 anos.

O estudo, contratado em 2014 por licitação junto à Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) por R$ 7 milhões e entregue no final de 2016, jamais foi publicado pela Secretaria Nacional de Política de Drogas (Senad), do Ministério da Justiça, responsável pela encomenda.

A pesquisa em xeque

No início de maio deste ano, numa entrevista à Globonews, o ministro da Cidadania, Osmar Terra, contestou os resultados do levantamento e colocou em xeque a credibilidade da Fiocruz.

No entanto, a coleta dos dados utilizou a base metodológica da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), do IBGE, e envolveu a escuta de 16.273 pessoas em 351 municípios dos 26 estados e do Distrito Federal. As perguntas levaram em conta drogas lícitas, como álcool, tabaco, e ilícitas, como maconha, haxixe, cocaína em pó, crack e similares.

Drogas lícitas e ilícitas

Os resultados da pesquisa contrariam a tese defendida por setores políticos e religiosos nos últimos anos: o País não vive uma epidemia de consumo de drogas ilícitas. A análise de números e estatísticas indica que consumo de todas as drogas ilícitas no Brasil se estabilizou e, em alguns casos, caiu. Por outro lado, o estudo aponta o crescimento, pequeno mas constante, do consumo de bebidas alcoólicas entre adolescentes na faixa dos 12 ao 17 anos.

“Quinze a cada cem brasileiros que começam a beber socialmente se tornarão dependentes do álcool no Brasil. No caso da maconha, é mais ou menos a metade – e, cientificamente, podemos dizer que causa dependência psicológica, algo negativo, é claro, mas bem mais fácil de tratar, e ainda não comprovadamente física”, afirma à Revista Educação o especialista Dartiu Xavier da Silveira, doutor em Psiquiatria pela Unifesp e membro da International Association for Analytical Psychology.

Acesse a reportagem “Drogas: o problema está dentro da lei”, veiculada na Revista Educação em 24/05

“É evidente que o combate às drogas ilícitas exige olhar e trabalho atentos, mas imagine esse percentual assustador de 15% projetado sobre os milhões de estudantes adolescentes e jovens na faixa dos 12 aos 18 ou 20, 21 anos, no caso do álcool, com seu poder devastador de geração de dependência progressiva, incurável, causadora de desestruturação individual, social e familiar. Qual o tamanho dessa base potencial de futuros dependentes?”, questiona Xavier da Silveira, pioneiro no estudo e na adoção de políticas de redução de danos no País.

O fato em outros veículos

Além da Revista Educação, também o site The Intercept e o jornal O Globo conseguiram acesso à pesquisa da Fiocruz. No Intercept, a íntegra da pesquisa está disponível a quem acessar a página. No Globo, só é acessível a assinantes.

É do site de notícias que o Portal CENPEC Educação extrai o link de acesso ao estudo da Fiocruz.

Veja a íntegra da pesquisa