APC: Mogeiro e a experiência de formação continuada

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APC: Mogeiro e a experiência de formação continuada

Rede municipal de Mogeiro (PB) utiliza a tecnologia educacional do APC para melhorar a aprendizagem de estudantes em ensino remoto. Confira entrevista com a coordenadora pedagógica Márcia Gomes dos Santos Silva
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Por Breno Procópio

O pequeno município de Mogeiro, no interior da Paraíba, já começou a colher os primeiros resultados positivos na sua rede de ensino, a partir do uso da tecnologia educacional do Apoio Pedagógico Complementar (APC).

Mogeiro participa do programa desde 2020, quando o APC passou a ser implementado em parceria com o Consórcio Intermunicipal de Gestão Pública Integrada nos Municípios do Baixo Paraíba (Cogiva), como foco no enfrentamento dos desafios de aprendizagem nos anos iniciais do ensino fundamental.

De lá pra cá, a equipe técnica da Secretaria de Educação de Mogeiro se apropriou de ferramentas e práticas como os mapas de foco, a avaliação diagnóstica e a formação continuada de gestores(as) pedagógicos(as) e professores(as).

Além disso, a metodologia do APC tem permitido ao município um planejamento sistêmico em educação, em um processo de “cascata formativa”. Nesse modelo, a equipe técnica apoia a formação dos(as) gestores(as) pedagógicos(as), e estes apoiam a formação docente. Todos(as) mobilizados(as) em melhorar a qualidade do ensino para os(as) estudantes.

Márcia G. S. Silva. Foto: arquivo pessoal

Para contar sobre a trajetória de Mogeiro, e o modo como a equipe técnica tem conseguido gerar uma mudança de percepção e criar melhores condições de ensino e aprendizagem, entrevistamos a técnica da secretaria de educação e coordenadora pedagógica Márcia Gomes dos Santos Silva, uma das responsáveis pela coordenação das ações formativas no município.

A entrevista é um relato de experiência que pode apoiar gestores(as) e professores(as) de várias regiões do país a construir soluções para o enfrentamento dos desafios educacionais em um contexto de pandemia e pós-pandemia.

Confira a entrevista.


Portal Cenpec: Na sua percepção, de que maneira o módulo Língua Portuguesa do APC ajudou na formação da equipe técnica de Mogeiro?

Márcia G. dos Santos Silva: O módulo de Língua Portuguesa do APC tem contribuído de forma significativa na formação da equipe técnica, pois se constitui como espaço de diálogo e reflexões sobre os desafios enfrentados no ensino e aprendizagem dos anos iniciais do ensino fundamental.

Além disso, orienta o trabalho da equipe junto aos(às) gestores(as), apontando caminhos para fortalecer a formação continuada de professores(as) no intuito de promover a aprendizagem significativa dos(as) estudantes por meio da priorização curricular, levando sempre em consideração as particularidades do município. 

Portal Cenpec: Quais aprendizados você achou mais importante para levar aos gestores escolares em termos de planejamento e diagnóstico em Língua Portuguesa? 

Márcia G. dos Santos Silva: Aponto as reflexões sobre a importância da avaliação diagnóstica, a priorização curricular por meio dos mapas de foco, o trabalho com os gêneros textuais e o esquema da sequência didática. 

Portal Cenpec: O primeiro encontro de Língua Portuguesa em 2021 foi sobre priorização curricular. Você já conhecia essa metodologia? Na sua opinião, qual a importância da priorização curricular em um contexto de ensino remoto? 

Márcia G. dos Santos Silva: Em Mogeiro a discussão a respeito dos mapas de foco e da priorização curricular vem sendo articulada desde o ano passado, mas como estava de licença para formação há três anos, pessoalmente só tive contato com o material do programa no início deste ano, quando fui convidada a participar dos encontros do APC. 

Mergulhei nos estudos dos mapas de foco para acompanhar o trabalho da equipe que já estava em andamento e para poder dar conta da formação continuada dos(as) professores(as) da escola que acompanho enquanto coordenadora pedagógica (em nosso município a equipe técnica é quem também se desdobra para fazer o trabalho pedagógico nas escolas). 

Vale destacar que, a princípio, a priorização curricular proposta pelo programa seria para atender a demanda dos(as) estudantes em distorção idade-série, que iriam compor as turmas do APC, mas diante da pandemia percebemos a necessidade de um trabalho com foco no fortalecimento da aprendizagem de todos(as) os(as) estudantes da rede. 

Quando sabemos a situação real dos(as) estudantes e qual alvo a ser alcançado é mais fácil percorrer o caminho da aprendizagem e superar os desafios do percurso.

Se não sei aonde quero chegar, qualquer caminho me serve, mas quando tenho clareza da situação atual e dos objetivos a serem alcançados para melhoria da aprendizagem consigo também ter em vista o caminho certo, depois é só seguir olhando sempre para o alvo. Neste sentido, considero muito importante neste momento definir prioridades no ensino e aprendizagem. 

Portal Cenpec: E como a Secretaria de Educação apresentou o tema da priorização curricular para os(as) gestores(as) escolares do município? 

Márcia G. dos Santos Silva: Apresentamos os mapas de foco a toda rede na jornada pedagógica no início do ano letivo e desde então temos oferecido formação continuada aos professores no que chamamos de Horário de Trabalho Pedagógico Coletivo (HTPC). 

Ooutra ação articulada da equipe é a seleção de objetos de conhecimento a cada quinzena com foco nas unidades temáticas prioritárias para que os(as) professores(as) possam pensar em atividades significativas para os(as) estudantes. 

Além do HTPC, a secretaria de educação tem oferecido, no meio virtual, aos(às) gestores(as) e professores(as) uma formação continuada de Língua Portuguesa e Matemática para estudo das temáticas apresentadas pelo APC. Abordamos também a avaliação diagnóstica e sua importância para o processo pedagógico. 

Portal Cenpec: O segundo encontro de Língua Portuguesa foi sobre a Avaliação Diagnóstica? O que você achou do encontro? Foi importante para o seu trabalho como técnica?

Márcia G. dos Santos Silva: Foi um encontro muito produtivo e me senti instigada a participar de forma mais intensa nas ações do programa. Discutimos sobre o papel da avaliação diagnóstica, seus objetivos e possibilidades de contribuição para o acompanhamento da aprendizagem dos(as) estudantes.

Os instrumentos para avaliação diagnóstica e as planilhas para sistematização dos resultados apresentados pelo programa contribuíram de forma significativa para o levantamento da realidade e análise de vários aspectos da aprendizagem em Língua Portuguesa na rede de ensino de Mogeiro. 

Além disso, o estudo da caracterização das habilidades das questões propostas na avaliação ajuda no mapeamento das possíveis dificuldades e/ou potencialidades dos(das) alunos(as) diante dos erros e acertos. 

Portal Cenpec: A Secretaria de Educação de Mogeiro já aplicou a Avaliação Diagnóstica? Se sim, qual foi o resultado? 

Márcia G. dos Santos Silva: A avaliação diagnóstica do nosso município ocorreu entre os dias 6 e 15 do mês de julho deste ano, no formato presencial com escalonamento dos(as) estudantes, seguindo todos os protocolos de segurança. Contamos com um número significativo de estudantes que realizaram as avaliações em toda a rede, chegando em algumas turmas a atingir 100% de participação. 

Estávamos apreensivos de como estaria a aprendizagem dos(as) estudantes diante da pandemia e o resultado em algumas escolas superou nossa expectativa. Refletimos com isso que, apesar dos desafios das aulas remotas e da mediação via WhatsApp, o trabalho tem colaborado para que os(as) alunos(as) continuem avançando. 

Em algumas escolas o resultado das turmas do 2º ano foi melhor que a do 3º ano, assim como tivemos turmas do 4º ano que superaram o 5º ano. 

Tive a oportunidade de acompanhar de perto os resultados da escola que acompanho como coordenadora pedagógica, pois fiquei responsável pela sistematização nas planilhas. Com isso consegui mapear as questões em que os(as) estudantes mais acertaram, aquelas em que apresentaram maiores dificuldades e outras em que nenhum aluno da turma conseguiu acertar. 

A avaliação diagnóstica revelou questões não só para intervenção no trabalho com os(as) estudantes, mas também demandas formativas para os(as) professores(as), pois ao ouvir relatos destes quanto às dúvidas na hora da correção das questões, percebi que não só os(as) alunos(as) estavam com dificuldades. 

Com base no que foi diagnosticado, já realizamos um primeiro momento para discussão em cada escola, análise das questões e dos distratores e comparativos entre as turmas para pensarmos formas de intervenção no processo e como podemos ajudar os(as) professores(as) a sanar as dificuldades. 

Portal Cenpec: Quais as principais deficiências dos estudantes de Mogeiro no aprendizado em Língua Portuguesa? 

Márcia G. dos Santos Silva: A leitura e a interpretação do texto tem sido um grande desafio, os(as) alunos(as) do 2º e 3º ano em sua maioria ainda não conseguiram consolidar a alfabetização e com isso sentem dificuldades na leitura de frases e para fazer inferência a partir da informação implícita do texto. 

Já os(as) estudantes do 4º e 5º ano ainda não conseguem estabelecer relação entre as partes de um texto e também apresentaram dificuldades na identificação do efeito de sentido decorrente do uso da pontuação e de outras notações. 

Quanto à escrita não foi possível diagnosticar através do instrumento utilizado, mas estamos refletindo sobre possíveis estratégias para o monitoramento com objetivo de promover intervenções necessárias. 

Portal Cenpec: A Secretaria de Educação do seu município já começou a formação de gestores(as) e professores(as) com base no diagnóstico das deficiências dos(as) estudantes em Língua Portuguesa, certo? Pode comentar como será o curso? 

Márcia G. dos Santos Silva: Conforme disse anteriormente, iniciamos a formação continuada com os(as) professores(as) e gestores(as) de forma virtual tanto para os estudos em Língua Portuguesa quanto em Matemática. 

A técnica Maria Cristina tem desenvolvido o trabalho com Matemática e eu fiquei responsável por articular o estudo em Língua Portuguesa que nesta etapa tem focado no trabalho com gêneros textuais, sempre apontando as relações das habilidades com as atividades a serem propostas aos estudantes. 

Os encontros estão sendo articulados de acordo com as demandas formativas dos(as) professores(as) para o enfrentamento das dificuldades dos(as) estudantes, mas há no nosso plano de ação metas e estratégias para que os estudos e as oficinas também ocorram de forma presencial assim que for possível. 

Na formação continuada contamos com a parceria de todas as pessoas que compõem a equipe técnica da SME num trabalho colaborativo, como diz nossa colega Gilvaneide Ferreira: “somostod@sprotagonistas”. A equipe tem unido esforços para a melhoria da aprendizagem dos estudantes e buscado fazer o melhor dentro de suas possibilidades. 

Portal Cenpec: Qual a sua opinião sobre o curso de formação de gestores(as) e professores(as) ser elaborado com base na deficiência de aprendizagem dos(as) alunos(as)? Você considera isso uma boa proposta metodológica? 

Márcia G. dos Santos Silva:  Concordo com a ideia de pensar a formação com base na situação real dos(as) estudantes e, nesse sentido, a avaliação diagnóstica contribuiu de forma significativa para o planejamento de possíveis intervenções. 

Como diz Jussara Hoffman: “A avaliação escolar só faz sentido se tiver o intuito de buscar caminhos para melhorar a aprendizagem”. 

Diante dos resultados obtidos, agora é seguir com as ações de formação continuada dos(as) professores(as) e pensar estratégias para melhoria da prática pedagógica e da aprendizagem dos(as) estudantes. Temos um longo caminho a percorrer, mas em cada encontro do programa e diante de cada ação executada um sentimento toma conta de toda equipe, estamos no caminho certo.


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