Grupo vermelho, amarelo e verde: divisão das turmas na reabertura das escolas

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Grupo vermelho, amarelo e verde: divisão das turmas na reabertura das escolas

Como docentes, coordenação escolar e redes têm contemplado as dificuldades de estudantes e planejado as aulas para turmas que retornam gradualmente à escola
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Por Stephanie Kim Abe

Pontos de atenção

  • Pensar a separação e o rodízio das turmas durante a volta gradual e escalonada às aulas presenciais tem sido um processo de tentativa e erro. Não há uma receita certa ou pronta.
  • Se antes da pandemia os(as) professores(as) já lidavam com diferentes níveis de aprendizagem dentro de uma mesma turma, agora essas defasagens se agravaram, e minimizá-las requer um olhar mais cuidadoso para os(as) mais impactados(as).
  • Enquanto alguns(as) educadores(as) utilizam metodologias ativas aproveitando o momento presencial e remoto da volta gradual às aulas, outros(as) buscam garantir que os(as) estudantes que estão em casa tenham o mesmo conteúdo de quem está presencialmente.
  • O planejamento com base na avaliação diagnóstica inicial é importante, porque traz um norte sobre quais defasagens de aprendizagem precisam ser atacadas. Mas toda a comunidade escolar (educadores, coordenação, familiares) precisam ter em mente que elas podem mudar, já que vivemos tempos de incerteza devido à pandemia.

Muitos municípios tiveram um ensaio do que seria a reabertura das escolas no começo de 2021, quando do início do ano letivo em fevereiro. Com o agravamento da pandemia em março e abril, esses planos foram paralisados.

Em Aripuanã (MT), a reabertura começou em maio, em apenas algumas escolas, com o que eles chamaram de “plantões pedagógicos”. Neles, os(as) professores(as) agendavam a presença de até cinco alunos(as) na escola por vez. Esse modelo foi também uma maneira de testar os protocolos de biossegurança.

Em uma medida controversa, o governo do estado de São Paulo autorizou a volta gradual das atividades presenciais na educação básica em abril, durante a fase vermelha do Plano SP – ou seja, o pico da pandemia. A orientação era priorizar estudantes mais vulneráveis nesse atendimento, como os(as) que precisavam de alimentação escolar, ou que estavam com dificuldade de acesso à internet ou com defasagem de aprendizagem.  

Na Escola Estadual Prof. Pedro Moreira Matos, localizada em São Miguel Paulista, zona leste da capital paulista, essas recomendações foram seguidas durante todo o primeiro semestre, quando os(as) educadores(as) também trabalharam em sistema de revezamento para garantir que houvesse menos circulação na escola e diminuir os riscos de contaminação. O atendimento, nesse período, foi de até 30% da capacidade da unidade.

Foto: arquivo pessoal

Ilda Ferreira, coordenadora pedagógica da escola, explica:

Como a maior parte da interação acontece via WhatsApp, as professoras comunicavam no grupo da turma: ‘amanhã teremos aula da turma verde, segue a lista dos alunos convocados para a aula presencial’. Esses nomes eram definidos de acordo com a defasagem do aluno, principalmente em relação à alfabetização ou a falta de acesso a internet.”

Ilda Ferreira

Grupos 1, 2 e 3 ou grupos A, B e C. Essa divisão das turmas em dois ou três grupos, denominados por cores, letras do alfabeto ou números, foi um dos inúmeros desafios que as unidades escolares tiveram que enfrentar para garantir que o atendimento presencial dos(as) estudantes não ultrapassasse o limite de 35% da capacidade escolar imposto pela maioria das redes de ensino.

Saiba mais sobre os desafios para a volta segura às aulas

Mais do que organizar as turmas, esse processo tem exigido pensar diferentes atividades para alunos(as) com diferentes níveis de aprendizagem, em diferentes modalidades de ensino (remoto e presencial).

  • A atividade que vai pra casa é a mesma da aula presencial?
  • O(A) professor(a) dá a mesma aula três vezes na semana?
  • Como fica a comunicação com quem ainda está no ensino remoto?
  • Qual o apoio que o(a) educador(a) precisa da gestão escolar?

Acho que não tem uma receita pronta. Temos aprendido a caminhar um dia de cada vez. É uma construção, que requer muita observação e coragem para aceitar que as coisas podem ser mudadas, assim como as nossas limitações. Precisamos continuar projetando, porque o planejamento é fundamental, mas também ser flexível, sempre ajustando quando tiver que ajustar.”

Ilda Ferreira

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Tentativa e erro

Na escola Pedro Moreira, o rodízio varia conforme a etapa de ensino e o período das aulas. No período da tarde (fundamental II) e à noite (ensino médio), as turmas estão divididas em três grupos, porque há mais estudantes por sala. Na manhã, que atende estudantes do ensino fundamental I, as turmas estão atualmente divididas em grupos amarelo e vermelho. Enquanto esses grupos vão um dia sim e outro não à escola, as turmas da tarde e noite tem outra organização.

Ilda, que é responsável pelas turmas do ensino fundamental I, explica:

Nos anos iniciais, há um professor para cada turma, além dos educadores especialistas de Arte e Ed. Física. Então fica mais fácil resolver a organização das turmas. No fundamental II e no ensino médio, cada turma tem muitos professores no mesmo dia, então a organização é mais complexa. Assim, o rodízio dessas turmas ficou semanal, ou seja, cada grupo vem a semana inteira e depois fica duas semanas inteiras em casa, em aula remota. Cada período tem uma realidade.”

Ilda Ferreira

Chegar a essa divisão, porém, foi um processo de tentativa e erro. No começo, as turmas dos anos iniciais chegaram a ser convocadas à escola semanalmente, e também eram divididas em três cores.

Como relata a coordenadora:

Percebemos que por semana não era legal, porque os(as) estudantes ficavam muito tempo sem ir à escola. Quando não iam, tampouco pegavam no caderno e continuavam não tendo acesso. Trocamos e experimentamos trazer cada turma por dois dias: segunda e terça, o grupo amarelo; quarta e quinta, o azul; sexta e segunda, o vermelho. Mas veio o pico da pandemia, e dessa forma tínhamos muita circulação de pessoas na escola em uma mesma semana.”

Ilda Ferreira
Foto: arquivo pessoal

Na Escola Municipal Prefeito Leonardo Reale, em Ilhabela (SP), as turmas também tinham sido separadas, no primeiro semestre, em três grupos. Porém, cada grupo ia um dia à escola, como explica Alexandre Soares Bastos, diretor da unidade:

Cada grupo ia um dia pra escola e ficava dois em casa. No total, de cada três dias, cada grupo passava um na escola, fechando em ciclos de três semanas.”

Alexandre Soares Bastos

Atualmente, a escola trabalha com a divisão da turma em dois grupos apenas, atendendo 50% da sua capacidade.


Sincronizar atividades remotas e presenciais

Quando não vão à escola, os(as) estudantes da Escola Estadual Pedro Moreira Matos acompanham as aulas pelo Centro de Mídias da Secretaria de Educação do Estado e também recebem atividades que os(as) professores(as) passam pelo Google Classroom ou pelo WhatsApp – ainda a ferramenta mais utilizada para a comunicação entre estudantes e escola. Aqueles(as) que se mantêm 100% em ensino remoto também veem as aulas do Centro de Mídias, que são ministradas por uma equipe da Secretaria.

A professora Carla Oliveira Silva, que tem turmas do 2º ano do ensino fundamental, explica que, enquanto o grupo amarelo está em sala de aula com a professora, o grupo vermelho recebe um roteiro da aula pelo WhatsApp:

Foto: arquivo pessoal

Faço como se fosse na sala de aula. Peço pra eles fazerem o cabeçalho, o nome da professora, a data de hoje. Começo então com uma leitura inicial, que é um vídeo meu lendo o livrinho para eles, que subi no YouTube. Depois, encaminho um áudio e indico pra eles qual aula do material didático eles vão assistir, com o link da aula do Centro de Mídias do dia.”

Carla Oliveira Silva

Em Aripuanã (MT), que atualmente divide as turmas em dois grupos, o conteúdo que é trabalhado em aula é também enviado para casa, em planejamentos quinzenais dos(as) educadores(as).

Ermes José dos Reis, secretário municipal de educação de Aripuanã (MT), explica:

Foto: arquivo pessoal

Com as crianças que estão em sala de aula, o(a) professor(a) tem focado na recuperação das habilidades do ano anterior e das prioritárias para este ano. Elas aproveitam para levar as atividades impressas para a semana seguinte, que estarão estudando em casa, enquanto o outro grupo vem à escola. O(A) professor(a) também envia pequenos vídeos ou áudios por WhatsApp explicando as atividades. Quando retornam à escola, elas corrigem as atividades e trabalham novos conteúdos.”

Ermes José dos Reis

Veja a importância da avaliação diagnóstica inicial e como elaborá-la


Criatividade e inovação são bem-vindas

Erica Panachuk de Souza, professora de Ciências do ensino fundamental II da Escola Leonardo Reale de Ilhabela, procura fazer diferente. Ela tem utilizado a metodologia ativa da sala de aula invertida para planejar as suas aulas para os(as) alunos(as) em ensino híbrido e remoto:

Foto: arquivo pessoal

Eu gosto muito de trabalhar com desenhos ou atividades práticas quando possível. Então, por exemplo, quando trabalhei células com a turma do 6º ano, pedi para que pesquisassem sobre o assunto em casa, antes da aula presencial, e fizessem um desenho. A partir desse trabalho, eu comecei o assunto em sala de aula – mas partindo do meu próprio desenho, para contemplar também aqueles que não puderam fazer a lição de casa.”

Erica Panachuk de Souza

Quando as turmas ainda eram divididas em três grupos, a professora dava uma lição de casa mais aprofundada ou longa para contemplar os dois dias que cada grupo ficaria em ensino remoto. Assim, ela diversificava as atividades que eram realizadas em casa e na escola, sempre considerando as dificuldades de acesso à internet ou equipamentos para realizar a pesquisa que alguns(as) estudantes pudessem ter.

A professora Carla tem estimulado o contato das crianças em alfabetização com a leitura por meio de rodas de leitura remotas. São ligações de vídeochamada, ao vivo, que ela realiza periodicamente com os(as) estudantes da turma que desejam participar, para que eles(as) possam falar uma parlenda, uma adivinha ou um poema, estimulando que se comuniquem.

Ambas professoras concordam que esse contexto adverso impulsionou os(as) educadores(as) a pensarem diferentes formas de dar aula.

Eu envio áudio, faço vídeos, até montei uma lousinha na minha casa. A pandemia nos estimulou a ficar mais criativo na elaboração das aulas, pra tentar melhorá-las.”

Carla Oliveira Silva

Erica relata que foi desafiador planejar as aulas no princípio. “Como repetir a aula três vezes sem deixar que ela ficasse monótona, até mesmo para nós, como professores?”, diz. Ela tem conseguido realizar diferentes atividades, como um projeto de lançamento de foguetes com a turma do 9º ano que ocorreu no primeiro semestre, devido à participação na Olimpíada Brasileira de Astronomia.

Agora, Erica está preparando uma feira de ciências com os(as) estudantes – a primeira a ser realizada na Escola Leonardo Reale. A ideia é que eles(as) possam apresentar um experimento de um assunto do seu interesse, de forma que sejam protagonistas do seu processo de criação e participação no evento. Eles(as) devem apresentar o trabalho em sala de aula no mês que vem e, caso a pandemia permita, fazer uma exposição aberta à comunidade escolar.

Os(As) alunos(as) têm recebido muito bem esses projetos. Tive até o caso de uma aluna que estava em ensino remoto, mas que pediu para participar da atividade de lançamento de foguetes. As aulas práticas são interessantes, chamam atenção e ajudam a fazer com que eles voltem pra sala de aula.”

Erica Panachuk de Souza

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Atenção às defasagens em sala de aula

A maior preocupação da professora Erica tem sido a quantidade de conteúdo que os(as) estudantes têm tido acesso. Ela vê a priorização curricular como necessária, já que, com o tempo menor de aula com cada grupo e as defasagens que vêm se acumulando desde o ano passado, é difícil cumprir com todo o currículo:

Mesmo com as pesquisas, as aulas e as atividades em casa, os(as) alunos(as) têm perdido muito. Por isso temos o cuidado de resgatar e retomar conteúdos que eram dos anos anteriores e que eles acabaram vendo de uma forma rápida ou superficial, ou mesmo que não puderam entender muito bem.”

Erica Panachuk de Souza

A priorização das habilidades a serem trabalhadas este ano também foi feita pela Secretaria de Educação de São Paulo, e o material didático planejado tem seguido essas habilidades. As aulas do Centro de Mídia estão focadas no ensino dessas habilidades, mas as aulas presenciais seguem uma dupla função, como explica a coordenadora Ilda:

Com base nas avaliações diagnósticas, o(a) professor(a) tenta organizar a rotina de trabalho dele considerando as habilidades essenciais, com atividades que conversem com os conteúdos dado pelo Centro de Mídia para alunos(as) que estão conseguindo acompanhar; e a retomada ou recuperação continua, para aqueles outros alunos que apresentaram alguma defasagem.”

Ilda Ferreira

A professora Carla acredita que as aulas do Centro de Mídia têm funcionado bem – apenas para os(as) alfabetizados(as), que são poucos(as). “Os(As) não alfabetizados(as) não conseguem acompanhar. A professora fala ‘escreve’, e ele não consegue fazer a atividade. Em casa, quem tem que ler o meu roteiro de aula remota é o adulto responsável”, diz.

Por isso, a ideia é que os(as) professores(as) trabalhem exercícios em que os(as) estudantes tenham certa autonomia para realizá-los, para que os(as) professores(as) possam dar mais atenção àqueles(as) que têm mais dificuldade.

Carla tem feito exercícios de sistematização que complementem e tenham o mesmo tema da contextualização dada na aula do Centro de Mídia. Mas as aulas presenciais têm servido principalmente para fazer exercícios de apoio à alfabetização e fazer com que as crianças se sintam mais à vontade:

Eu tenho alunos alfabéticos, outros que estavam fora da escola, alguns que estão quase chegando no alfabético. São fases bem diferentes do processo de alfabetização, e por isso temos que dar um apoio bem individualizado. Eu chamo o(a) estudante para vir mais perto, garantindo os protocolos, fico antenada, procuro estimular que participem. Com a máscara, eles(as) ficaram mais retraídos(as) e, se eu não converso muito com eles(as), a turma passa uma aula inteira sem falar uma palavra, nem mesmo o alfabeto.”

Carla Oliveira Silva

Ilda lembra que os(as) educadores(as) sempre tiveram que lidar com saberes e ritmos de aprendizagem diferentes, mas que agora isso tem sido potencializado pela pandemia: “As aulas sempre tiveram essa organização, mas antes com menos sofrimento. Temos uma perda muito grande agora e o professor está em uma situação de ansiedade muito maior. Ele tem se cobrado mais”, diz.

Leia mais sobre o continuum e a priorização curricular


Gestão que apoia os(as) educadores(as)

Para apoiar os(as) educadores(as) nessa situação, Ilda diz que a coordenação pedagógica tem o papel de parceria e que é preciso enfatizar ao corpo docente – e até à própria gestão – que eles(as) não estão sozinhos(as) e que há problemas que fogem a governabilidade do(a) professor(a):

Quando se deparam com alunos não alfabéticos, no 3º ou 4º ano, por exemplo, as professoras ficam muito angustiadas, pois esse um ano e meio de aulas remotas agravaram as defasagens dos alunos. No entanto, o trabalho da escola tem sido o de minimizar as perdas, preparando aulas/materiais para alfabetizar esses alunos, investindo nas atividades de recuperação/reforço, conversando com os pais, sem perder de vista o que é limitador e o que é possível fazer. Precisamos saber o que está em nossas mãos e o que não está. O que posso mudar? Posso usar uma estratégia diferente? O que é possível fazer, e o que não é possível?”

Ilda Ferreira

Em Aripuanã (MT), para que os(as) educadores(as) não sofressem sobrecarga de trabalho com o planejamento de atividades remotas e presenciais, a Secretaria colocou profissionais que estão em desvio de função ou não podem estar em sala de aula (por apresentar comorbidades, por exemplo), para ajudá-los(as) nessa função.

Em Ilhabela, a secretaria municipal de educação ficou responsável por todos(as) os(as) alunos(as) que escolheram manter-se exclusivamente no ensino remoto, criando um grupo de trabalho que assiste esses(as) estudantes. As escolas devem manter o contato e o acompanhamento de frequência de seus(suas) alunos(as), mas as atividades não são planejadas pelo corpo docente das unidades.

Pelo Centro de Mídias, a secretaria estadual tem oferecido formações aos(às) profissionais da rede – que, aos olhos da coordenadora Ilda, são muito boas. Ela reforça, porém, que a gestão escolar precisa também fazer o seu papel de olhar o tempo todo para a realidade da sua unidade:

Temos que fazer alguns ajustes, focando nas diversas particularidades da nossa escola. Por exemplo, eu tenho que retomar ou desdobrar conteúdos que estão defasados com os meus professores, e indicar outros materiais e atividades para eles usarem na recuperação com os alunos. Ensinar é isso: um ir e vir o tempo todo, não caminhamos só para frente.”

Ilda Ferreira

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