Eu lia quadrinhos...

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Eu lia quadrinhos…

Artigo da pesquisadora da FE-USP Sabrina Paixão discute o papel das HQ na formação de leitores. Publicado originalmente na Plataforma do Letramento em 2016
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Por Sabrina da Paixão Brésio*

E você, lia? Provavelmente. Em algum momento já deve ter folheado um gibi da Turma da Mônica por aí, ou passado os olhos em tirinhas do jornal, enquanto os adultos liam as “notícias sérias” sobre o resto do mundo. Ou quem sabe você teve aquele tio, primo, irmão, vizinho que tinha sagrados volumes do Homem Aranha ou do Batman? Você pedia emprestado, ou se resignava a ler junto, sob o juramento de nunca amassar os cantinhos das páginas?

Crianças lendo quadrinhos em Nova York em 1943, durante a II Guerra Mundial. Fonte: Rio Comic Con, 2011
Crianças lendo quadrinhos em Nova York em 1943, durante a II Guerra Mundial. Fonte: Rio Comic Con, 2011

Talvez você assistisse a desenhos animados japoneses e quem sabe colecionasse mangás, explicando para todos que se lê de trás para frente mesmo. Aposto que já teve um livro didático e, entre as diversas atividades para responder, havia uma tirinha da Mafalda, ou do Calvin.

A questão é: de um jeito ou de outro, esses quadradinhos ilustrados com balões surgiam à frente de seus olhos. Mas foi há muito tempo, você pode dizer. Ah é? E por que, perguntaria eu, em uma conversa despretensiosa, como esta.

Por que deixou de ler quadrinhos? Quando eles deixaram de fazer parte de seu repertório de leitura? Calma, antes de responder, proponho outra pergunta: os quadrinhos realmente deixaram de fazer parte de seu cotidiano?

Hoje você é um/a adulto/a, com uma profissão, digamos, professor/a. Ou já tem filhos, ou convive com crianças e adolescentes. É provável que já tenha presenciado o fascínio que os quadrinhos despertam neles, seja como incentivo à leitura, como veículo de alfabetização, como ponte para a socialização. O cinema e a televisão estão inundados de filmes e séries que fazem referência a heróis e heroínas dos quadrinhos.

As HQ estão em evidência. Ampliou-se substancialmente o número de editoras que começaram a publicar quadrinhos, o número de eventos sobre o tema, a exposição nas lojas, o destaque nas livrarias on-line, os editais de fomento e financiamento coletivo. Até mesmo o número de eventos acadêmicos sobre o tema cresceu pelo país. E tudo porque, enfim, existem aqueles que não pararam de ler quadrinhos na infância. E há todos vocês, que estão começando a ler quadrinhos agora, ou retornando a eles agora. Seus alunos estão levando estes quadrinhos para a sala de aula, leem e conversam sobre heróis e heroínas na hora do intervalo (e possivelmente na aula também).

Lancei uma pesquisa on-line, por meio da qual pretendo obter um panorama mais diversificado de como as pessoas começaram a ler quadrinhos, quais as suas memórias com esse material e que caminhos haviam tomado: ainda leem quadrinhos, ou deixaram de ler? O que acham dos quadrinhos em sala deaula? Até o momento recebi 94 respostas, de diferentes partes do país, e os resultados parciais foram que 91 pessoas identificaram que a leitura de quadrinhos na infância contribui para sua formação pessoal e enquanto leitor/a; 85 pessoas ainda leem quadrinhos; e por fim, quando perguntados “Com relação ao ensino regular, o que pensa da presença de quadrinhos na escola?”, as respostas foram unânimes.

Todos afirmaram que a presença dos quadrinhos na escola é fundamental. As ressalvas são: desde que bem aplicados; desde que com qualidade; desde que o professor saiba lidar com essa linguagem, entre outras.

Capa da HQ É um pássaro, de Steve T. Seagle e Teddy Kristiansen, 2012
HQ É um pássaro, de Steve T. Seagle e Teddy Kristiansen, 2012

Passamos a bola para os educadores. Como trabalhar quadrinhos em sala de aula? Bem, minha resposta a isso sempre é a mesma: apropriando-se da linguagem, conhecendo-a, mas, principalmente, reconhecendo as histórias em quadrinhos como expressão de arte, nem inferior ou superior às demais. As HQs têm uma linguagem própria, com profundas percepções de utilização de espaço, tempo, dimensão, cor, texto, imagem.

Na formação docente, a presença dos quadrinhos é mínima, mas existe e está se expandindo. Para você que deseja empreender esta jornada por conta própria, há disponível uma variedade de obras teóricas e introdutórias de grande qualidade de pesquisadores nacionais e estrangeiros. (Quer uma lista? Envie-me um e-mail.**)

Mas antes de debruçar-se sobre leituras e leituras teóricas, deixo aqui um fio de Ariadne. Sente-se, feche os olhos e faça uma viagem para dentro: recorde-se de suas memórias pessoais com os quadrinhos, tente se lembrar de quando foi a primeira vez que folheou um, onde, quem estava com você, qual era a emoção que isso lhe causava. Que marcas deixaram em sua vida, em seu caminho.

Você pode se surpreender ao perceber como a presença da escola é persistente, e talvez você tenha sido alfabetizado com a ajuda de HQ. Não é incrível que agora você esteja lendo este texto muito por conta dos quadrinhos? No final, você percebe que eles sempre estiveram com você, e que na verdade é simples ofertá-los aos demais. É por aí que a jornada começa.

Nas trilhas do herói. Arte de Yunyan, 2016. Foto: arquivo da autora
Nas trilhas do herói. Arte de Yunyan, 2016. Foto: arquivo da autora
Sabrina Paixão.
Foto: arquivo da autora

* Mestre em Educação pela Universidade de São Paulo (USP) com a pesquisa Nas trilhas do herói − Histórias em quadrinhos e itinerários de formação (São Paulo: USP, 2016. Para baixar, clique aqui.). Atualmente, desenvolve a tese de doutoramento na linha de pesquisa Cultura, Filosofia e História da Educação, na mesna instituição.
Monitora do Núcleo de Experimentações em Quadrinhos do Lab_Arte da Faculdade de Educação da USP, pesquisadora do Grupo de Estudos sobre Itinerários de Formação em Educação e Cultura (Geifec) e membro da Associação de Pesquisadores em Arte Sequencial (Aspas), roteirista e cronista nas horas vagas. **E-mail: sapaixao.hq@gmail.com.


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