Defesa dos territórios e futuro do planeta Terra

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Defesa dos territórios e futuro do planeta Terra

Artigo de Fabio José Cardias-Gomes (UFMA) participante do Terceiro Congresso Internacional dos Povos Indígenas da América Latina (Cipial)
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Fabio José Cardias-Gomes1

O Brasil, último país a acabar com a escravidão, tem uma perversidade intrínseca na sua herança, que torna a nossa classe dominante enferma de desigualdade, de descaso.”

Darcy Ribeiro

Tento, abaixo, em poucas linhas, tecer, costurar, dar laços e nós sobre a minha experiência de participar, como professor-pesquisador-ouvinte, do Terceiro Congresso Internacional dos Povos Indígenas da América Latina (Cipial), ocorrido em Brasília, com o tema: Trajetórias, narrativas e epistemologias plurais: desafios comuns, entre os dias 3 e 5 de julho de 2019, na Universidade de Brasília, campus Darcy Ribeiro.

Há pressa sim, e muita, muita pressa na proteção de suas terras, territórios ou territoriedades, incluindo alimentação e água fresca, nascentes.

Fabio Cardias (UFMA) no 3º Cipial, Brasília, 2019.
Foto: arquivo pessoal do autor

A primeira edição foi realizada em Oaxaca, México, 2013, e a segunda, em Santa Rosa, na Argentina, 2016. A quarta será no Peru, em local e data a se decidir, mas para onde com certeza partirei, em 2021.

Sim, porque é uma experiência ímpar, assim como a cada ida às aldeias perto de casa são vivências únicas, sempre de muito aprendizado, da língua, da cultura, da complexidade do modo diferente de vida do outro.

E, pouco a pouco, sem a pressa acadêmica, com respeito e um exercício de humildade à iniciação indigenista, ao que se torna possível acessar o mundo indígena como alienígena, com formação básica ocidental, eurocêntrica, buscando a própria alma ancestral cabocla, paraense.

Os indígenas são as últimas fronteiras de reservas que estão sob os olhos famintos de destruição do projeto de humanidade que deu errado

Mas, há pressa sim, e muita, muita pressa na proteção de suas terras, territórios ou territoriedades, incluindo alimentação e água fresca, nascentes. Já extinguimos, a nossa espécie, sobre a Terra, mais de 70% de outras, inclusive outros homo sapiens. Há pressa demais em reverter, parar ou se conscientizar de que nosso projeto civilizatório é uma mentira absurda, baseada em um consumismo desenfreado, que destrói a natureza.

Marcha das mulheres indígenas em Brasília
Marcha das mulheres indígenas em Brasília, 13 de agosto de 2019. Foto: Andressa Zumpano/CPT-MA

Como bem apontou a liderança Krenak, Ailton, os territórios indígenas são as últimas fronteiras de reservas que estão sob os olhos famintos de destruição do projeto de humanidade que deu errado. É hora de pararmos, nos juntarmos para buscar soluções, imediatamente! Não há romantismo não, está acontecendo, olha ali, olha aqui, no Maranhão, no Pará. É muita destruição, pesca e caça dizimatória, hidrelétricas matando os rios, calor e secura. Vão-se corpos e almas juntos quando se inunda um território sagrado!

Não mais corremos perigos, vivemos perigos e pagamos o preço pela insanidade de termos adotado uma postura de inimizade, bélica, prepotente frente à natureza…

Se a perda da lucidez, nossa visão iluminista louca obscureceu a nós mesmos, são os povos-terras indígenas que mantêm viva a floresta, a selva, o cerrado, pulmões da Terra, da Pachamama, da Mãe Terra, respirando, um ser considerado vivo pela sabedoria maior destes povos. Sim, há complexidades e contradições, mesmo entre eles, como alguns serem a favor de garimpos, agronegócio e madeireiras, havendo mesmo conflitos violentos, mortais, intraetnias, mas na velha estratégia de cooptação de jovens, com falsas promessas e uma minoria com visão distorcida da felicidade ocidental.

Sônia Guajajara e Fabio Cardias no Cipial
Sônia Guajajara e Fabio Cardias no Cipial. Foto: arquivo pessoal do autor

Não mais corremos perigos, vivemos perigos e pagamos o preço pela insanidade de termos adotado uma postura de inimizade, bélica, prepotente frente à natureza, de onde não só viemos, mas pertencemos e negamos, loucura coletiva mal-dita civilizatória, bem como apontam pensadores como Carl Jung, Daniel Munduruku, Edgar Morin, Kaká Werá, Marcos Ferreira-Santos, Sônia Guajajara, Olívio Jecupé, Darcy Ribeiro, Ailton Krenak, Viveiros de Castro, David Kopenawa, Tamara Castro2, Alexey Kylasov, Julieta Paredes, e muitos outros e outras kupen3 (alienígenas, o Homo-Mulier branco/a, os tais ocidentais) e mehii4 (indígenas, ameríndios, os da própria carne).

Vozes amplificadas e lúcidas […] nos refrescaram a esperança, nos deram um respiro d´alma e sopraram em nossas narinas e ouvidos os saberes milenares dos antepassados: a necessidade maior de união, mutirão, ciranda, canto e dança conjunta!

Diante das canetadas assassinas das necropolíticas, continuação dos processos históricos imperialistas e colonizadores do passado-presente, ou das “democraduras”, dos autoritarismos e a continuação dos projetos lucrativos aos poucos donos do capital, a elite do lucro, seleta classe dominante econômica, que decide quem lhes representa politicamente, e retira quem os decepciona.

uniram-se e dialogaram conhecimentos e produções acadêmicos-científicos e saberes ancestrais-canções.

Para estes, os povos indígenas deveriam ser eliminados, como fazia a cavalaria estadunidense, a ditadura militar na invasão da Amazônia, ou o que ouvimos assustados, apavorados, de colegas professores que eles atrapalham a economia local. Pasmo, bege, impactado, sim, estou, estamos! Do outro lado, vozes amplificadas e lúcidas, como a de Ketty Marcelo Lopez (Peru), Sônia Guajajara (Maranhão), Ailton Krenak (Minas) e Branila Baniwa (Amazonas), que nos refrescaram a esperança, nos deram um respiro d’alma e sopraram em nossas narinas e ouvidos os saberes milenares dos antepassados: a necessidade maior de união, mutirão, ciranda, canto e dança conjunta!

Durante o Congresso, uniram-se e dialogaram conhecimentos e produções acadêmicos-científicos e saberes ancestrais-canções. O encontro compôs-se por um Comitê Científico competente, uma Coordenação Geral caprichosa e uma Comissão Organizadora Local, com a participação de estudantes, acadêmicos indígenas, laboratórios, faculdades, instituições indígenas e indigenistas e encorajados voluntários e voluntárias na equipe de monitores. Ocorreram simpósios temáticos, oficinas, rodas de conversa, palestras, sessão de pôsteres, laçamento de livros, conferências, apresentações musicais, fóruns, grupo de trabalhos, minicursos e feira de sementes.

O bom nesses eventos são encontros com pessoas que compartilham medos, angústias e ansiedades, mas também esperança, coragem e fé.

 Fabio Cardias e Alvaro Tukano
Fabio Cardias e Alvaro Tukano4. Foto: arquivo pessoal do autor

O campus Darcy Ribeiro foi organizado em espaços: Mapuche, Guarani, Tupinambá, Maya, Munduruku, Kayapó, Yanomami, Ashaninka, Quéchua e Fulni-ô. Os temas foram os mais variados, dos ameríndios latinos em urbanização, os de longo contato, de médio contado, de recente contato e isolados-autônomos em fuga, em risco de extermínio eminente, como os nossos Awá-Guajás da Amazônia maranhense, os quais são guardados pelos Guardiões Guajajaras, sob ameaças de fazendeiros, madeireiros e garimpeiros, que por eles já teriam posto a floresta ilhada abaixo.

As temáticas foram as mais variadas, complexas, diversas, contraditórias. O bom nesses eventos são encontros com pessoas que compartilham medos, angústias e ansiedades, mas também esperança, coragem e fé. Bem como os antepassados, os ancestrais, os sábios ameríndios latinos e da Norte América, os pajés e curandeiros, os que sabem ler com profundidade a Mãe Natureza, bem como nesta passagem de Daniel Munduruku:

Daniel Munduruku
Daniel Munduruku. Foto: reprodução

Enquanto houver um único pajé sacudindo seu maracá, haverá sempre a certeza de que o mundo estará salvo da destruição. Assim nos falava nosso velho avô como se fôssemos-eu e meus irmãos, primos e amigos-capazes de entender a força de suas palavras. Só bem mais tarde, homem adulto, conhecedor de muitas outras culturas, comecei a compreender a enormidade daquele conhecimento saído da boca de um velho que nunca tinha sequer visitado a cidade ao longo de seus mais de 80 anos.”

MUNDURUKU, 2019, p. 33

Finalmente, espero reencontrar os amigos, os parentes latinos ameríndios ou não, com os quais aprendi muito em três dias de evento, renovando as ideias, os temas, as boas perguntas, como Rute Pacheco e Fernanda da Funai de Brasília, Leni Pidjôrã da Unifespa do Sul do Pará, Inocêncio Ramos do povo Nasa, da Colômbia, o casal Cláudia Pereira Antunes e Marcelo Gobatto da UFRGS, organizadores, palestrantes, monitores, todos somando na coragem de esperançar um mundo melhor habitável e um amor em exercício pelo planeta-mãe que nos gerou, nos acolhe e nos habita. Que seja de dentro pra fora a mudança urgente, é pra agora e aqui!

Num país como o Brasil, manter a esperança viva é em si um ato revolucionário.”

Paulo Freire


Notas do autor:
1 Professor de Psicologia na UFMA-Imperatriz/Maranhão – Portal da Amazônia Oriental e Cerrado, psicólogo indigenista/das relações étnico-raciais em constante formação, aprendizado continuado com outros militantes engajados como o colega Guilherme Amorim e, especialmente, nos Territórios Indígenas, rituais e cotidiano dos Povos Timbiras e Teneteháras (Guajajaras), e com os espantos das histórias de outros povos que foram exterminados com a subida do gado, da transamazônica e das hidrelétricas na região do rio Tocantins, este, sufocando na agonia de duas hidrelétricas.
2 Pesquisadora e poeta de quem recebi o convite para escrever esse texto e comunga ideias comigo.
3 Da língua Jê [família linguística pertencente ao tronco Macro-Jê, composto pelas seguintes línguas: Akwén, Apinayé, Kaingang, Kayapó, Panará Suyá, Timbira e Xokleng], a qual calmamente vou aprendendo com os parentes.
4 Idem acima.
5 Alvaro Tukano é militante histórico do movimento indígena, diretor do Memorial dos Povos Indígenas, em Brasília (DF).


Referência:

MUNDURUKU, Daniel. Das coisas que aprendi, ensaios sobre o bem-viver. Lorena (SP): DM, 2019


Fabio José Cardias-Gomes
Fabio José Cardias-Gomes

Professor-Pesquisador Adjunto de Psicologia na Universidade Federal do Maranhão (UFMA/Imperatriz). Doutor em Educação pela Universidade de São Paulo (USP). Lidera o grupo de pesquisa Saúde, Psicologia e Imaginário (SAPSI). Coordena o Programa de Extensão-Cultural KOKORA: Psiquê e Corpo. Tem como escopo o desenvolvimento da personalidade, com interesse nas linhas fronteiriças como: filosofia/epistemologia das psicologias profundas e mitologias comparadas sul-americanas, personalidade, motivação e emoção no esporte/exercício, psicologia dos povos tradicionais, populares e e/i-migrantes (diálogos étnicos/interculturais). Membro do Conselho Internacional da World Ethnosport (ethnosport.org/), da qual é embaixador na América do Sul.


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