Recriando histórias com as crianças

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Recriando histórias com as crianças

Autora da oficina: Madalena Monteiro, narradora de histórias e formadora de professores. Publicado originalmente na Plataforma do Letramento (CENPEC Educação)
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O que é?

Criação de novas histórias com base em narrativas da tradição oral de diversos povos

Material
  • Livros de contos clássicos (sugestões do acervo do Programa Nacional Biblioteca da Escola (PNBE) e do Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa. Veja anexo).
  • Podem-se usar tecidos e/ou fantasias, perucas, acessórios de teatro para se fantasiar e montar cenários.
Finalidade
  • Alimentar o interesse em ouvir histórias, comentando-as, opinando sobre elas e compartilhando interpretações com outras pessoas.
  • Fazer uso da imaginação e do conhecimento que tem sobre a história lida para criar novas versões.
  • Vivenciar a experiência da autoria de uma história.
Expectativa

Promover o interesse pela leitura e produção de textos orais e escritos.

Público-alvo

Crianças ainda não alfabetizadas e em fase de alfabetização

Espaço

Em casa, na escola, sala de leitura ou outro espaço

Duração

1h a 1h30 aproximadamente

Início de conversa

Os contos da tradição oral são um “tesouro inestimável” – como afirma Ana Maria Machado – que possibilita o contato com uma obra literária de qualidade narrativa inquestionável. A leitura e o narração dessas histórias transmitidas de geração a geração é uma maneira gostosa e envolvente de proporcionar às crianças um mergulho no mundo da ficção e da fantasia.

A imaginação é uma poderosa ferramenta, muitas vezes acionada em nós, até inconscientemente. Podemos usá-la com a clara intenção de contribuir para que as crianças vivenciem experiências de criar e contar histórias.

Para além do reconto, a criação com base em uma narrativa modelo alia a segurança de conhecer a narrativa em movimento, apresentada na história fonte, ao fascínio de se atirar às incertezas das novas ideias que se movimentam no imaginário de quem está criando. Assim, oferece uma vivência próxima à do escritor, que controla o que cria, mas não o faz tão bem se não se deixar levar pela imaginação.

É certo que a vivência do reconto contribui para que as crianças construam conhecimento sobre a produção textual. Já a criação a partir de um modelo garante a vivência da autoria, fundamental para que o aluno deslanche em seus textos nas séries mais avançadas.

A sequência de atividades proposta a seguir passa pela leitura e se envereda pelos caminhos da criação literária, partindo do pressuposto de que todo ser humano, dotado de imaginação e capaz de fazer uso da memória e da linguagem, tem potencial para criar.


Na prática

Escolhendo os contos

O primeiro passo é selecionar quais contos gostaria de usar para esse trabalho de criação. Sugerimos contos bem conhecido: “João e Maria”, “Chapeuzinho Vermelho”, “Os três porquinhos” e “Branca de Neve”. Porém, é possível adaptar as atividades de acordo com o conto escolhido e com o repertório que os alunos já formaram.

Oferecendo os contos às crianças

Você pode fazer a leitura em voz alta de algum dos contos escolhidos ou de vários contos ao longo de alguns dias. Sempre ao final da leitura, é importante conversar sobre a experiência de escuta do conto: perguntando se gostaram ou não da história, quais partes querem destacar.

É interessante fazer comentários que ajudem a relacionar essa história com outras já conhecidas ou com fatos ocorridos em suas vidas. e pergunta se gostaram ou não do conto, quais partes querem destacar, enfim, entabular uma conversa próxima da que costumam realizar os leitores proficientes ao comentarem os livros que leem.

Brincando com os contos

São infindáveis as possibilidades de brincadeiras que se podem propor a partir dos contos, com o intuito de suscitar nos alunos a inspiração para criar. A brincadeira pode ser vivenciada oralmente, por meio de desenho, com dramatização, ou ainda com os alunos recontando coletivamente a história recriada e o professor a escrevendo para que não se perca.

E se algo não agrada na história?
Pergunte qual ou quais as partes da história de que a(s) criança(s) menos gosta(m) e por quê. Justificar ajuda a aproximar o pensamento da pergunta: o que eu gostaria que tivesse acontecido nessa parte?

Em seguida, você pode propor um jogo: vamos recontar essa história de um jeito que fique mais com a nossa cara? Há várias formas de fazer isso: pedindo para a criança recontar ela mesma a história com modificações; inventando junto com ela a história alterada; propondo um concurso de recontos, cada pessoa contando sua versão ou formando duplas/trios para recriar a narrativa…

E se aparecesse outro personagem?
O acréscimo de um personagem que não está inserido na história é um exercício um pouco mais elaborado, porque pressupõe conhecer um pouco sobre o personagem para criar sua ação dentro da trama narrativa.

Como estamos trabalhando com crianças, é mais fácil sugerir um personagem que todos conheçam e que seja marcante. Com o conto “João e Maria”, por exemplo, pode-se propor que recontem a história acrescentando um dos anões do conto “Branca de Neve”, ou, no conto “Chapeuzinho Vermelho”, pode-se propor o aparecimento de algum dos porquinhos.

E se você estivesse na história?
A criança é motivada a pensar que participou de alguma parte da história. Você pode dar algumas pistas: Quem você era? Onde estava? O que fez? Depois de um tempo de trabalho individual (que pode ser somente pensado, desenhado ou escrito), em roda, cada um partilha o que pensou e comenta as criações um dos outros.

E se o final não fosse assim?
Uma das brincadeiras mais comuns com narrativas é a criação de um novo final. Para isso, é interessante combinar a partir de que ponto a história deverá ser modificada para acrescentar certo grau de dificuldade a esse exercício de criação.

No conto “Os três porquinhos”, por exemplo, pode-se propor que reinventem a história a partir do momento em que o lobo correu para a casa do terceiro porquinho, ou, no conto “Branca de Neve”, a partir do momento em que os anões encontram a princesa morta.

E se a história se passasse num outro lugar?
Esse é outro exercício de criação que exige um pouco mais da imaginação e da capacidade de encadear ideias, já que mudar o ambiente da história, muitas vezes, pressupõe mudar também algumas ações e características dos personagens.

Pode-se brincar de mudar todo o cenário do conto ou apenas um detalhe. Imaginemos que, na história da “Branca de Neve”, os anões fossem pedreiros, operários de uma construção muito grande. Como a protagonista chegaria até eles depois de sair da floresta? Como seria a “casinha” deles na cidade? Por que eles haveriam de morar todos juntos numa cidade, sem esposa e nem mãe? Como a rainha má chegaria até lá? E o príncipe, de onde teria vindo?

Para continuar a brincar

Essas foram algumas ideias para que vocês se aventurem com as crianças pelas veredas da criação de histórias a partir de um modelo. Vocês já devem estar imaginando aí uma porção de outras possibilidades: