A educação pelo olhar guarani

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A educação pelo olhar guarani

Qual é a visão dos indígenas sobre a educação? A reportagem traz debates desenvolvidos no II Seminário de Etnologia Guarani (USP), em setembro de 2019
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Por Tamara Castro

Nós, indígenas, aprendemos ouvindo, observando. Hoje até há espaços para falar. Mas quem vai nos ouvir?”


Clara Barbosa de Almeida, guarani-kaiowá, mestra pela Universidade Federal da Integração Latino-Americana (PR)

Qual é a visão dos indígenas sobre a educação? Que reflexões e experiências os professores e as escolas indígenas têm a compartilhar com os demais educadores e instituições afins? Buscar o diálogo entre os conhecimentos tradicionais dos povos ameríndios e a escola, a fim de contribuir para uma educação no plural: esse é o objetivo do CENPEC Educação nesta reportagem que traz os debates ocorridos no II Seminário Internacional Etnologia Guarani: redes de conhecimento e colaborações.

Mesa de debates “Pesquisadores guarani na academia”: da direita para a esquerda, Emerson de Oliveira Souza (PPGAS/USP), Poty Poran T. Carlos (EEI Krukutu), e Sandra Benites (PPGAS/Museu Nacional), Valentim Pires (PPGET/UFGD) e Augusto Ventura (PPGAS/USP)
Pesquisadores guarani na academia: da direita para a esquerda, Emerson O. Souza, Poty Poran T. Carlos, Sandra Benites, Valentim Pires e Augusto Ventura.

O evento, realizado entre 24 a 27 de setembro de 2019, na Universidade de São Paulo (SP), reuniu conhecedores, rezadores e pesquisadores guarani de diversas localidades da América Latina.

Promovido pelo Centro de Estudos Ameríndios da Universidade de São Paulo (CEstA-USP) e apoiado pelo grupo de Etnologia e História Indígena da Universidade Federal da Grande Dourados (UFDG-MS), o seminário deu continuidade ao Simpósio CEstA nas Redes Guarani (2013), e ao I Seminário Internacional Etnologia Guarani (2016).

Nesta segunda edição, o foco foram os conhecimentos antropológicos produzidos pelos próprios guarani, promovendo o diálogo entre pesquisadores das universidades e estudiosos dos modos indígenas de saber para além do acadêmico-científico. O tema gerador do último dia do evento foi o olhar dos guarani sobre a educação em suas múltiplas formas: pesquisa, produção e disseminação dos conhecimentos tradicionais tanto na escola como na universidade.

Segundo uma das organizadoras do seminário, a antropóloga e jornalista Tatiane Klein, que é doutoranda em antropologia social e pesquisadora do CEstA-USP, ONG voltada à defesa dos povos indígenas no Brasil:

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Tatiane Klein. Foto: Reprodução

Para além de uma discussão específica da antropologia e etnologia, este seminário se abriu para refletir sobre a temática da educação indígena entre os povos guarani falantes.

Pesquisadores indígenas e não indígenas apresentaram reflexões e experiências voltadas à construção de um paradigma diferenciado de educação indígena, conforme garantem a Constituição Federal e toda a legislação brasileira relacionada aos povos originários. Conhecemos experiências educacionais tanto dos guarani-kaiowá, que vieram de Mato Grosso do Sul, dos guarani-nhandewa e dos mbya, que vivem em São Paulo.”

Por que a ênfase desse seminário na cultura guarani? Tatiane explica a concepção que baseia o encontro:

Tatiane Klein: Guarani na universidade
Guarani Roguata (caminhada). Foto: Reprodução

Quem são os guarani?

“O povo guarani era como um rio que corria lentamente em seu curso quando uma pedra gigante foi lançada dentro do córrego. A água espirrou para vários cantos. E os sobreviventes estão aqui hoje reunidos.” 
Anastácio Peralta, guarani-kaiowá.
Fonte: Campanha Guarani/ISA

Um entre os 305 povos indígenas habitantes do território brasileiro, os guarani são conhecidos por diversos nomes: chiripá, kainguá, baticola, apyteré, tembekuá… Mas eles se autodenominam avá, que significa “pessoa”. 

Constituído por vários grupos, distintos pelos modos de falar a língua, praticar rituais e se relacionar com o meio ambiente, o povo guarani é unido pela origem e proximidade histórica e cultural.

Os guarani se espraiam pelo Brasil, Bolívia, Paraguai e Argentina, formando uma população de 280 mil pessoas. Os grupos que vivem aqui no Brasil são os kaiowá, mbya e nhandewa (classificação foi adotada nos anos 1950 pelo antropólogo Egon Schaden). Os três grupos hoje totalizam uma população de mais de 60 mil pessoas, formando o maior povo ameríndio em nosso país.
Fontes: ISA; IBGE.


Direito à educação e à própria história

A educação escolar indígena foi uma das pautas no II Seminário de Etnologia Guarani. “Além de ser um evento voltado à pesquisa acadêmica, o encontro foi um momento de formação, tendo em vista que a maioria dos intelectuais ameríndios que estão em atividade ou se formando nas licenciaturas pelo Brasil afora atua também como professores nas escolas indígenas”, informa a organizadora Tatiane Klein.

Entre os pontos abordados, destacaram-se questões relacionadas aos currículos e às metodologias empregadas nas escolas, que muitas vezes não atendem às singularidades culturais dos guarani. Em um intenso debate, tanto os integrantes das mesas como os presentes na plateia compartilharam reflexões, experiências, críticas e indagações acerca dos diálogos e desencontros entre a escola e sua cultura tradicional.

“Um dos diferenciais desse seminário foi que, embora tivesse natureza acadêmica, foi possível, nos grupos de trabalho, apresentar outras experiências a fim de permitir participação maior dos indígenas, porque nem sempre eles estão envolvidos em pesquisas da forma como se entende na universidade”, revela Tatiane.

Tatiane Klein: educação escolar indígena em pauta

Um dos palestrantes, o guarani Emerson de Oliveira Souza, reflete sobre a importância de repensar o currículo escolar. Formado em ciências sociais pela Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP), escritor e mestrando em antropologia pela USP, Emerson é um dos poucos professores indígenas a dar aulas em um colégio regular na rede estadual de São Paulo. 

Emerson O. Souza
Emerson O. Souza. Foto: Reprodução.

Como professor de sociologia no ensino médio público, percebo que muitos estudantes desconhecem suas origens. Conversando com eles, alguns dizem: ‘Puxa, professor, eu acho que também sou indígena.’

Esse apagamento histórico e cultural é muito violento no Brasil. Por isso eu costumo compartilhar minha história de vida com os alunos.”

No mesmo sentido, Anastácio Peralta, professor guarani-kaiowá e coordenador de Assuntos Indígenas da Prefeitura de Dourados (MS), alerta para a necessidade de se pensar os conteúdos e as formas como se constrói conhecimento na escola:

Anastácio Peralta
Anastácio Peralta. Foto: Reprodução.

Temos que nos assumir mais como povo, como nação. Escrever, ensinar, educar com olhar mais brasileiro, mais indígena, mais negro. Somos nós que vamos dar esse tom.

Tem hora que me vejo colonizando meus alunos. É importante observar isso.”


Narrativas ameríndias, currículo oculto

Não dá para falar do outro sem se reconhecer, como costumam fazer os karaí [não indígena, na variante kaiowá da língua guarani]. Mas ouvir o outro, como o outro nos vê, mesmo que seja uma visão errada, também é importante.”

Eliel Benites (UFGD)

Reconhecer sua cultura e sua história nos conteúdos curriculares é uma questão central para os povos originários. A guarani-kaiowá Inaye Gomes Lopes, que é professora de uma escola indígena de ensino fundamental no Mato Grosso do Sul, afirma: “Há uma lacuna enorme na nossa formação. A gente sabe tudo sobre a Europa e nada sobre o que aconteceu na América antes dos karaí”.

 Inaye Gomes Lopes
Inaye G. Lopes. Foto: Reprodução.

A pesquisadora, conta que, desde o início de sua carreira como professora de História em uma escola indígena, ela compartilha com os estudantes narrativas que fazem parte da cultura guarani. Em uma das aulas, uma aluna questionou: “Professora, quando você vai começar a dar aula de história de verdade?”. Inaye pediu que a estudante explicasse melhor o queria dizer. “História de verdade, que os karaí estudam”, esclareceu a aluna.

O comentário fez a professora refletir sobre sua prática e, nas aulas seguintes, passou a trazer os períodos e eventos da história europeia: Antiguidade, Idade Média, Moderna… “Mas, junto a isso, sempre pergunto à turma: ‘E aqui na América, entre nós, o que será que estava acontecendo nessa época?’. Então, apresento as nossas histórias, como foram transmitidas por nossos ancestrais”, conta.

Esse currículo oculto, esses conhecimentos que não são ensinados nos livros, quem precisa trazer são os professores indígenas. A cultura da leitura e da escrita não faz parte da nossa identidade, mas é preciso se adaptar, dialogar. Já trocamos os óculos para enxergar melhor.”

Inaye G. Lopes


Sons e tons guarani na educação

Não só os conteúdos, mas também a forma como se constrói o conhecimento importa quando se discute uma educação que contemple e valorize de fato as singularidades culturais dos povos indígenas. Na cultura guarani, um dos elementos centrais é o respeito aos antepassados, à sabedoria dos mais velhos. “Como trazer a cultura ancestral para a escola? Como criar espaços mais arejados em que caibam os saberes tradicionais?”, questiona Luan Apyká, professor guarani-nhandewa.

Luan integrou a mesa “Caminhos dos saberes guarani” falando em nome da anciã Catarina Delfina dos Santos, professora e cacique da terra indígena Piaçaguera (também conhecida como Ywy Pyaú), em Peruíbe, litoral sul de São Paulo. Em sua fala, Luan homenageia as txedjaryi (anciãs) e os txeramoi (anciãos): “O conhecimento está em nossos anciãos”.

A valorização do conhecimento ancestral está presente na prática docente de Apyká. O fruto desse diálogo foi a cartilha Folha e raízes: resgatando a medicina tradicional tupi-guarani, trabalho colaborativo que envolveu outro professor indígena, Dhevan Pacheco, os alunos, as txedjaryi e os txeramoi.

O conhecido escritor e ambientalista Kaká Werá, de origem tapuia, afirma que a sabedoria guarani é cultivada há milhares de anos com base em quatros princípios: a mãe, o cuidado ancestral, o acolhimento e a cooperação.
Fonte: Bodisatva.

“As pessoas que detêm os saberes tradicionais indígenas estão espalhadas pelas comunidades. Muitas vezes as escolas, em vez de fomentar a busca desses conhecimentos, acabam substituindo-os e menosprezando seus detentores”, constata Tatiane Klein. Por isso, defende a antropóloga, é fundamental a formação diferenciada de professores indígenas no ensino superior: “Além de garantir o acesso à universidade e tornar esse espaço mais diverso, formam-se professores que levarão esses saberes à escola”.

Tatiane Klein: “Ação saberes indígenas na escola”
Luan Apyká
Luan Apyká. Foto: Reprodução.

Em relação à prática docente, Apyká afirma:

A aula indígena acontece no rio, embaixo da árvore. Quando falamos em educação indígena, é preciso ter claro o caminho que estamos tomando. É preciso ocupar e descolonizar o espaço escolar.”

Nesse sentido, a questão da língua é fundamental quando se pensam novas configurações culturais na educação. “Por que não ocupar os espaços falando as línguas indígenas?”, questiona Luan.

O professor destaca a necessidade da revitalização linguística: “Nossa língua transmite valores importantíssimos. Se não a falamos, muitos desses valores se perdem e a própria língua morre. A língua só é fortalecida por meio da prática”, reflete Apyká.


Educação como caminho

Sandra Benites
Sandra Benites. Foto: Reprodução.

Em guarani, Tenondé significa: o que está atrás é o que está na frente. Nosso conhecimento é guardado na memória e transmitido pelas nhandesy [sábias] e pelos nhanderu [sábios]. É saber vivido, não escrito. Caminhar faz parte da identidade guarani, da nossa forma de educar: sempre em construção, no caminhar.”

Na fala acima, a guarani-nhandewa Sandra Benites, mestre em antropologia social pela UFRJ, menciona um elemento central à sua cultura: o caminhar contínuo. Trata-se de uma prática que integra o  nhande rekó (modo de ser guarani): seu estilo de vida, suas crenças transmitidas oralmente geração a geração. Miticamente, esse caminhar é associado à utopia de uma terra sem mal (Yvy marã e’ỹ), onde não haveria fome, guerra ou doença. 

Adriana Testa, doutora em antropologia social pela USP, que atuou como provocadora do debate “Caminhos dos saberes guarani”, sublinha a relação entre o caminhar e o educar(-se): “Para os guarani, o caminhar está associado ao conhecer, visto como um processo nunca acabado”. 

Essa dinâmica se revela não só no uso dos territórios, como também na produção de saberes, colaborando “para a circulação maior de bens, de sementes, de ervas medicinais, e ainda proporciona às pessoas o desenvolvimento de certas capacidades que são consideradas importantes para assegurar o bem viver”, afirmam os indigenistas Roberto Antonio Liebgott e Iara Tatiana Bonin.

No entanto, a mobilidade do povo guarani muitas vezes se choca com o cotidiano pedagógico, mesmo nas escolas indígenas. Em sua vivência como professora, Sandra Benites percebeu que o sistema escolar não incorpora as singularidades da cultura guarani. Embora a legislação afirme que a educação indígena tem características diferenciadas, isso não é observado na prática. Há muita dificuldade de se entender e respeitar a necessidade de a criança guarani mudar de aldeia no meio do ano, por fugir do esquema de matrículas na rede, afirma a pesquisadora.


Espiral curricular

Mas, se existem desencontros, há também caminhos de diálogo. Poty Poran T. Carlos, que atualmente é professora da escola de educação indígena de ensino fundamental situada na terra Krukutu, no município de São Paulo, se entusiasma ao contar a experiência de participar de um curso de extensão na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) que tem como objetivo criar um projeto político pedagógico (PPP) para licenciaturas em educação indígena. 

Poty Poran T. Carlos
Poty Poran T. Carlos. Foto: Tatiane Klein/ISA.

Esse grupo é formado por professores indígenas e não indígenas, além de antropólogos e outras pessoas que pensam a educação indígena de forma diferenciada. A gente tem discutido o que valorizar e como dar as aulas.

Estamos criando vários conceitos diferentes: em vez de uma grade curricular, fechada em si mesma, pensamos em uma espiral curricular, sempre aberta, em construção. Essa imagem tem mais afinidade com o nosso jeito de ver o mundo.”

Para Poty, participar da criação desse PPP é um exercício muito interessante. “Espero que não fique apenas no sonho, que a gente consiga realmente avançar e alguma universidade abrace esse projeto”, aspira.


Guarani na academia: de objeto a sujeito de pesquisa

A escolha pela antropologia como campo de estudo foi uma forma de dar corpo a novas formas de ver o mundo e os povos indígenas, conta o cientista social guarani Emerson de Oliveira Souza: “Ao ingressar nas universidades, invertemos os papéis: passamos de objeto a sujeitos da pesquisa”.

“A presença indígena na academia é necessária. Há mais de 40 mil indígenas no estado de São Paulo, mas a maioria vive à margem nos espaços urbanos. É uma presença invisível. No entanto, grande parte do que foi construído aqui tem sangue indígena”, lembra o pesquisador.

Às margens da urbe
Segundo o Censo de 2010 (IBGE), a população indígena no estado de São Paulo, é de 41.794 habitantes, a maioria (37.915) vivendo nas periferias dos espaços urbanos.

Um dos traços mais visíveis da forte influência indígena em nosso país são os nomes de locais (topônimos). De acordo com o linguista Pedro Antonio Gomes de Melo, em “Um estudo lexical dos nomes de municípios alagoanos“, os topônimos “adquirem valores que transcendem o próprio ato de nomear. Uma vez que o léxico presente na língua de um dado grupo reflete o seu modo de ver a realidade e a forma como seus membros organizam o mundo que os rodeia”.

Segundo Melo, a toponímia indígena no Brasil provém de diversos troncos linguísticos, mas a maioria tem origem tupi, por ter sido a língua mais falada no litoral brasileiro no início da colonização, tanto por indígenas e mestiços, como pelos próprios colonizadores.

Alguns exemplos: Itanhaém (município do litoral sul paulista), do tupi, itá (pedra) + nhae (bacia), “bacia de pedra”; Piaçabuçu (município do litoral alagoano), do tupi-guarani, pe-haçab-uçu, “passagem geral do caminho”, Paraná (nome de estado e de rio), do guarani, pará-nã, “semelhante ao mar”, denominação dada aos grandes rios.  

A professora Poty Poran T. Carlos reflete sobre a aproximação entre as culturas acadêmica e indígenas: “Por que é preciso um título para reconhecer os saberes e a ciência indígena? Sempre se considerou esses conhecimentos como de menor importância. Agora nós temos esse espaço para refletir sobre nossos saberes e para que nossa produção de conhecimento seja reconhecida como científica, com o mesmo peso da produção acadêmica.”

A presença de estudantes e pesquisadores indígenas na universidade é uma conquista de grande valor simbólico das últimas décadas, mas ainda é preciso descolonizar os espaços na academia, pondera Emerson.

No mesmo sentido vai a fala de Valentim Pires, mestrando no programa de pós-graduação em Educação e territorialidades, na Faculdade Intercultural Indígena (Faind) da UFGD: “Muitos conhecimentos valiosos são adquiridos fora da escola e da universidade. Esses conhecimentos estão começando a entrar na academia, mas ainda precisam seguir as regras do Estado.”

O que nós ‘quer’ com a ciência? É uma ciência para a vida?”

Anastácio Peralta

Eliel Benites
Eliel Benites. Foto: Reprodução.

Eliel Benites, primeiro guarani-kaiowá a se tornar professor universitário, na UFGD, destaca a necessidade de se pensar outros modos de fazer ciência:

Essa sociedade consumista, degradadora, violenta é fruto desta ciência predominante hoje. O pensamento ocidental determina padrões de ideias e comportamentos. Mas as culturas tradicionais podem ser referência para outro tipo de conhecimento, criar outros modos políticos e teóricos, para
não reproduzir, em nome das culturas e dos povos tradicionais, o modelo colonial.”

Nessa mudança de paradigma, a diversidade na academia é imprescindível. “As universidades têm de estar abertas não só administrativa e estruturalmente a essas populações, mas epistemologicamente aos seus conhecimentos. Esse foi o exercício que nós buscamos neste seminário”, afirma a antropóloga Tatiane Klein. Ouça o que ela diz sobre a formação de professores pesquisadores indígenas:

Tatiane Klein: formação de professores pesquisadores indígenas

Caminhar com um pé na aldeia, outro na academia: essa foi a via criativa de Sandra Benites em sua pesquisa de mestrado. Nela a antropóloga guarani-nhandeva tece um diálogo entre relatos da avó parteira, histórias de Nhandesy Eté (figura feminina da cosmologia guarani) e ensaios de antropólogos não indígenas.

Sandra tornou-se mestre em antropologia social no Museu Nacional (UFRJ), onde apresentou a dissertação Viver na língua guarani-nhandewa: mulher falando (2018). Em sua pesquisa, Sandra trata do ser mulher em sua cultura, destacando o protagonismo feminino nas políticas do cotidiano indígena:

Devo às kunhangue, às mulheres, mesmo ocultas em sua própria história. Elas sempre estão lutando, incansavelmente, para manter sua sabedoria e a própria fala, aywu, nhe’ĕ, espírito, palavras, que no dia a dia são vividos, narrados, contados e sentidos, através da lembrança de Nhandesy.”

Sandra Benites, 2018

Sobre a trajetória na vida universitária: “Entrei na academia, fiz mestrado e farei o doutorado. Minha luta é sempre coletiva. Vamos continuar escrevendo, registrando e publicando nossa história. Quando nosso conhecimento vai para a universidade, ganha visibilidade. Mas a academia impõe limites. Não somos universitários. Somos pesquisadores para o resto da vida”, afirma Sandra.


Saiba mais sobre os povos guarani

Mekukradjá: Círculo de Saberes (Itaú Cultural): Sandra Benites – Culturas indígenas (2017)

Acesse os anais do I Seminário Internacional Etnologia Guarani: diálogos e contribuições

Mapa Continental “Guarani Retã” – Instituto de Investigaciones en Ciencias Sociales y Humanidades (ICSOH/Universidade de Salta, Argentina)

Livro Guarani Retã 2008: povos guarani na fronteira – Argentina, Brasil e Paraguai (Centro de Trabalho Indigenista, Unicef e outros)


Veja também

Carta pública do povo guarani: em luta contra o fim do mundo (manifesto em prol da demarcação das terras indígenas e contra o ataque aos povos originários, escrito pelos participantes do II Seminário Internacional de Etnologia Guarani)

Correio da Amazônia: Dia do Índio precisa desfazer rótulos, diz professor indígena

Conselho indigenista Missionário (CIMI): Indígenas constroem seu próprio curso de licenciatura em São Paulo; Os guarani: o contínuo caminhar de um povo

Geledés: Por que as mães guarani rejeitam a creche? (reportagem sobre a pesquisa  “Viver na língua guarani: mulher falando”, de Sandra Benites)


Educação e cultura indígena no Portal CENPEC Educação

Especial alfabetização e letramento indígena

Panton pia’: histórias ameríndias ao lado da história brasileira

Defesa dos territórios e futuro do planeta Terra