Conta pra mim: programa pode não atingir mais pobres

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Conta pra mim: programa pode não atingir mais pobres

Com propaganda que mostra classe média alta e orientações que demandam melhores condições materiais, programa de literacia parece focar camadas mais abastadas, avalia reportagem
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“Que família no Brasil tem lareira em casa e ainda acende a lareira no Natal?”. A indagação da presidente do Conselho de Administração do CENPEC Educação, Anna Helena Altenfelder, reflete uma preocupação com o programa Conta pra mim, lançado pelo Ministério da Educação (MEC) em dezembro do ano passado: a possibilidade de realmente alcançar famílias mais pobres.

Diálogo com famílias pobres

Esse foi o foco de uma reportagem sobre o programa publicada na última sexta-feira (17) pelo jornal Folha de S. Paulo. O texto, de Angela Pinho, destaca o objetivo do Conta pra mim – estimular pais a lerem para seus filhos, o que o MEC chama de literacia familiar –, mas ressalta análises de especialistas que temem que seja voltado a uma população bastante específica, de estratos socioeconômicos mais favorecidos.

O Conta pra mim se insere em quadro problemático da alfabetização de crianças, de acordo com a reportagem, já que dados da mais recente Avaliação Nacional da Alfabetização (ANA), recolhidos em 2016, mostram que 55% e 34% dos alunos do 3º ano do ensino fundamental tinham níveis insuficientes em leitura e escrita, respectivamente. O quadro, continua o texto, é ainda pior em escolas da zona rural.

No entanto, até o momento, a resposta do MEC mediante o programa foi a criação de um urso gigante chamado Tito e a presença em estandes montados em shopping centers de capitais do País. Além disso, apesar da expectativa de participação de pais do Bolsa Família a serem orientados por tutores, há orientações que demandam condições materiais no geral mais caras, como uso de audiobooks durante deslocamentos de carro, blocos ou peças com as letras do alfabeto para bebês e alfabetos magnéticos.

A própria propaganda veiculada na televisão, que traz uma família em uma casa com lareira, árvore de Natal, muitos presentes e lustres, reforçaria essa característica. Assista.

Anna Helena Altenfelder pondera que a responsabilidade pela alfabetização não seja transferida da escola para a família. Ademais, observa que a propaganda não condiz com a realidade da maior parte das famílias brasileiras.

Anna Helena Altenfelder

A propaganda gera preocupação porque parece tratar de um tipo específico de família.”

Anna Helena Altenfelder

Saberes locais e diferentes linguagens

Para Claudemir Belintane, da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP), o Conta pra mim vai na contramão de pesquisas mais atuais, que buscam estratégias de aproximação entre a linguagem escolar e a das famílias de baixa escolarização.

Os conteúdos dos programas de vídeo e do manual são expressos em uma linguagem técnica de difícil assimilação para as famílias que não têm estudos (…). Um bom programa de vídeo teria que levar em conta as diferenças culturais, os saberes locais, usar a linguagem deles para abrir um universo de contato.”

Claudemir Belintane

O texto conta ainda com comentários de Priscila Cruz, do movimento Todos pela Educação, para quem o governo ainda não explicou como seu programa de alfabetização chegará à sala de aula e que avalia que a literacia familiar é pouco ambiciosa para os desafios brasileiros.

Confira a reportagem completa na Folha de S. Paulo (há restrição a número de acessos)


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