Embate entre métodos de alfabetização

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Embate entre métodos de alfabetização

Declaração de Bolsonaro sobre cartilha leva BBC News a produzir especial sobre o embate entre métodos de alfabetização, com participação de Anna Helena Altenfelder, do CENPEC Educação
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“Os livros hoje em dia, como regra, são um montão de amontoado de muita coisa escrita. Tem que suavizar aquilo. Em falar em suavizar, estudei na cartilha Caminho suave. Você nunca esquece”.

A declaração dada pelo presidente, Jair Bolsonaro, no último dia 3/1, levou a BBC News a relembrar a cartilha Caminho suave, citada por ele, para falar sobre a polêmica levantada em 2019 sobre os métodos de alfabetização.


Códigos e relações

A reportagem, assinada por Ligia Guimarães, recupera a informação do porquê a cartilha, bastante popular entre as décadas de 1940 e 1990, foi chamada de “aprendizagem por imagem” e ainda desperta memórias afetivas de muitos adultos como método eficiente para ensinar a ler.

“As vendas só aumentam. Muitos avós e pais nos procuram, pois seus filhos e netos não têm tido êxito com a alfabetização atual, então buscam a cartilha como uma solução”, diz Maíra Lot Micales, da editora Edipro, que atualmente detém os direitos de publicação.

Especialista em alfabetização e letramento, Magda Soares, no entanto, avalia que se as cartilhas funcionaram para alfabetizar muitas crianças, com o tempo, se tornaram obsoletas por focar apenas os códigos, em vez de relações sociais com a leitura que serão fundamentais na vida adulta da criança.

O problema é que as crianças aprendiam a codificar e decodificar, e não a descobrir o mundo da literatura, dos jornais. Era como aprender uma tecnologia e não saber que uso fazer dela (…). Os textos não cumpriam uma outra função da alfabetização, que é introduzir a criança na cultura do escrito.”

Magda Soares, autora de “Alfabetização – a questão dos métodos”

Embate entre métodos

A reportagem da BBC parte daí para abordar a “guerra” entre os métodos de alfabetização, divididos entre: sintéticos (que partem de pequenas estruturas para as maiores – primeiramente, letras; e depois sílabas e palavras); e analíticos (que partem da leitura da palavra e frases para, então dividi-las em sílabas e letras).

O texto lembra que os métodos tradicionais passaram a ser questionados a partir da década de 1980 exatamente por conta da crescente demanda de crianças com problemas de alfabetização – e que, na própria Caminho suave, a autora Branca Alves de Lima unia princípios do método sintético com o analítico, que surgia na época em que escreveu a cartilha.

“Antigamente se acreditava que, uma vez que a criança dominava do código, ela automaticamente lia e escrevia todos os gêneros de texto que circulam na sociedade: contos de fada, poemas, regras de jogo, receitas de bolo, textos científicos”, comenta, na reportagem, Anna Helena Altenfelder, presidente do Conselho de Administração do CENPEC Educação.

Segundo Altenfelder, os estudos atualmente mostram que, na verdade, é necessário um aprendizado mais complexo. “Dependendo da quantidade e da qualidade das experiências que ela (a criança) tem antes de chegar à escola, tudo isso vai dando conhecimento dos usos e das funções sociais da escrita”, comenta a educadora.

Para ela, a questão, portanto, não é de método – mas do papel do professor em contato com aquela criança, professor este que precisa ser mais bem formado, fortalecido e valorizado.

Anna Helena Altenfelder.

O presidente Bolsonaro foi alfabetizado pela Caminho suave e deu certo. Eu fui alfabetizada pelo método Montessori e deu certo. Não é questão de método. Um bom professor que se apropria do método que domina melhor consegue alfabetizar as crianças.”

Anna Helena Altenfelder

Leia a reportagem na íntegra no site da BBC News


#CENPECexplica: Alfabetização em foco

O CENPEC Educação tem produzido uma série de entrevistas com especialistas em letramento e alfabetização sobre o embate entre os métodos, trazido pela Política Nacional de Alfabetização (PNA) inaugurada pelo Ministério da Educação (MEC) em 2019. Acompanhe.

Clecio Bunzen: Letramento e/ou literacia? Distinções e aproximações

Sônia Madi: Alfabetizar letrando é o caminho do meio

Isabel Frade: Disputa ou diálogo entre métodos de alfabetização?

Carlota Boto: Entre o político e o pedagógico

Antonio Batista: Múltiplos saberes em torno da alfabetização

Magda Soares e Maria Alice Junqueira (CENPEC Educação) comentam cartilha da Política Nacional de Alfabetização

Liane Araújo (UFBA): Fala e escrita em diálogo na alfabetização