O adolescente em privação de liberdade e a arte-educação

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O adolescente em privação de liberdade e a arte-educação

Entrevista com Daniela Schoeps sobre livro A voz dos meninos (CENPEC, 2014). Matéria publicada orignalmente na Plataforma do Letramento em 2014
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Maria Izabel Leão

Desde 2008, o CENPEC, em parceria com a Fundação Centro de Atendimento Socioeducativo ao Adolescente (Fundação Casa) realiza o projeto Educação com Arte: Oficinas Culturais, que tem como proposta político-pedagógica assegurar aos adolescentes o direito à educação e à cultura, previstos no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).

As oficinas trabalham aspectos de autoria, identidade, valorização do potencial criativo e elevação da autoestima dos adolescentes, contribuindo para o desenvolvimento de uma consciência crítica, a incorporação de novos valores e o rompimento da cultura da violência.

Segundo Maria Amabile Mansutti, diretora de tecnologias educacionais do CENPEC, vivenciar a arte abre portas para que os jovens percebam a poesia, o sonho, a força comunicativa dos objetos a sua volta: cores, formas, sonoridades, gestos que conferem novo significado às coisas vividas.

As oficinas procuram ressignificar a identidade dos adolescentes internos, suas potencialidades e o reconhecimento de si mesmos como autores.”

Maria Amabile Mansutti

Com base no projeto, foi realizado um estudo com os adolescentes internos, organizado por Daniela Schoeps, então coordenadora técnica do projeto pelo CENPEC, que contou com a colaboração de Fernando Lefevre, professor da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP), e Ana Maria Cavalcanti Lefevre, pesquisadora do Instituto de Pesquisa do Sujeito Coletivo.

A pesquisa resultou no livro A voz dos meninos, publicado em junho de 2014, que procura mostrar a visão de mundo, os desejos e as incertezas vividos por esses adolescentes em privação de liberdade.

Daniela Schoeps

Para falar sobre o estudo e a publicação, conversamos com Daniela Schoeps, socióloga, doutora em Saúde Coletiva pela USP e então coordenadora do Projeto Educação com Arte. 

CENPEC: Como a pesquisa resultou na publicação A voz dos meninos? 

Daniela Schoeps: O livro surgiu da ideia de fazer um estudo mais qualitativo com menores em privação de liberdade. Dar voz a esses meninos é um desafio muito grande. Produzir a escuta é um processo difícil, e com adolescente é mais ainda. Na Fundação Casa, há outras dificuldades que os meninos não têm aqui fora. Eles têm um discurso pronto para o juiz, e sempre há um agente que os acompanha, pois não podem ficar sozinhos. Para driblar esses problemas, convidamos os professores Fernando e Ana Lefevre, que trabalham com pesquisas qualitativas e são muito bons em técnicas de questionário.
Para entender como produzir os discursos, criamos as histórias em quadrinhos, que eram lidas junto com os entrevistados. O questionário está embutido na história. As perguntas têm três focos principais: como cada menino vê a atividade de arte e cultura, a imagem que tem de si mesmo e a projeção do mundo lá fora. O desafio era: como perguntar isso para esses jovens? Gravamos as entrevistas e as transcrevemos. A representação social é uma teoria das Ciências Sociais, na qual trazemos a contextualização simbólica do discurso.

Sequência de HQ criada para a publicação
Cena de HQ criada para a publicação. Foto: reprodução

CENPEC: Fale um pouco sobre a metodologia utilizada no estudo. 

DS: O processo foi realizado e analisado pela metodologia do Discurso do Sujeito Coletivo (DSC) e pelo software Qualiquantisoft. Essa metodologia permite resgatar opiniões coletivas pelo agrupamento em categorias, isto é, em modos socialmente compartilhados de conhecer e representar o mundo e a vida. A entrevista foi elaborada na forma de história em quadrinhos, abordando a percepção dos adolescentes sobre arte, cultura, autoimagem e projeção de futuro. O material produziu vários metadiscursos recorrentes a temas como: família, escola, trabalho, identidade, delito/redenção e religião, drogas. 
O estudo foi realizado com 195 adolescentes do sexo masculino em cumprimento de medida socioeducativa, e eles responderam ao questionário entre março e agosto de 2013. A amostra do estudo foi calculada em relação ao número de adolescentes privados de liberdade em 20 centros de internação e internação provisória das Divisões Regionais Metropolitanas (DRM) Franco da Rocha, Brás e Raposo Tavares, atendidos pelo projeto Educação com Arte.
Embora o projeto realize oficina em uma unidade feminina [à época], as meninas não foram entrevistadas nessa pesquisa porque seria necessário elaborar outro questionário em formato de história em quadrinhos, já que a identificação com a história é uma necessidade metodológica. Esperamos ouvir em breve a voz das meninas e verificar se é possível falar de um discurso comum de meninos e meninas privados de liberdade.

CENPEC: : Quais são os objetivos do Projeto Educação com Arte? 

DS: Os objetivos das oficinas de arte e cultura envolvem experimentação, fruição e ampliação do repertório dos meninos internos. Não se trata de um curso profissionalizante. 

CENPEC: Como são as oficinas de arte e cultura? 

DS: As oficinas são baseadas em dois encontros de 1h30 por semana, no total 3 horas semanais. Abordam cinco linguagens: artes visuais (grafite, desenho, artes plásticas, pintura em tela), artes do corpo (capoeira, danças), artes cênicas (teatro), artes da palavra (história em quadrinhos, rima, rap) e artes do som (percussão, cavaquinho). Não podemos ter como meta “salvar” esses menores, porque quando eles ganham a liberdade vão para outro contexto social. A arte e a cultura proporcionam a experimentação, a fruição e a descoberta de algo que eles não conheciam antes. Com a arte, eles descobrem a potência dentro de si. 

CENPEC: Quem foram os atores que analisaram os discursos dos meninos? 

DS: Utilizamos a técnica do discurso coletivo como análise. Quantificamos as categorias de resposta e depois travamos discussões sobre o que foi tratado na pesquisa, pois nenhum trabalho nosso sai sem avaliação. Então, surgiu uma questão: Quem vai discutir esse assunto? Um acadêmico da área de arte? Um especialista em adolescente? Não queríamos um olhar unilateral sobre as respostas. Optamos por manter as respostas nas categorias analíticas respeitando as vozes deles, e convidamos diversos atores para tecer os comentários. Esses atores são funcionários que trabalham com os meninos na Fundação Casa, na gerência da Fundação, os arte-educadores, pessoas que trabalham com os adolescentes, pessoas da área de arte e cultura, juiz, promotor. 

CENPEC: Que resultados foram observados na relação dos jovens com a arte, a cultura e a educação proporcionada pelas oficinas? 
DS: Eles veem uma potência muito grande na arte, e, nas respostas, observamos como essa potência surge. Há um menino que responde que as oficinas servem para ele cumprir as medidas socioeducativas, o que é real. É importante que o questionário mostre que isso também existe e precisa ser cumprido. Alguns declaram que a oficina é boa para distrair a mente, porque é um momento em que ele não está pensando no crime e tem a possibilidade de se expressar e fazer o que quer. Outro afirma que a oficina serve para ele fazer algo que ficará na estante da casa da mãe. Por aí podemos observar o menino exercendo o protagonismo, descobrindo a potência no produto, percebendo que poderá levar o que está fazendo para o mundo fora da internação. Há aquele que diz que no teatro ele pode se expressar sendo qualquer coisa; e o menino que afirma nunca ter imaginado que conseguiria produzir um traço como aquele que ele mesmo fez. As respostas em geral mostram a potência da arte, muito importante para o adolescente. 

Oficina de artes visuais
Momento de oficina de artes visuais. Foto: acervo CENPEC

CENPEC: Qual é a visão que esse jovem tem sobre si mesmo e qual a visão da sociedade sobre ele? 

DS: A visão da sociedade sobre esse jovem não cabe neste estudo. Não podemos negar que é um menino que cometeu um ato infracional. O menino tem consciência disso também, pois está cumprindo uma pena, mas ele ainda se vê positivamente. É o exemplo do menino que se vê deprimido e triste, mas se perguntarmos diretamente ele fala que gosta de ajudar a mãe, que é muito amigo, companheiro, características positivas que ele vê em si próprio. É um menino que vai além do ato infracional. Na pesquisa, há um menino que fala em arrependimento. Isso é normal, porque eles estão privados de liberdade, é uma prisão. 

CENPEC: É possível afirmar que esses jovens têm perspectivas e sonhos? 

DS: Para mim, os jovens não conseguem ter perspectivas e sonhos num lugar de reclusão. A arte e a cultura despertam um interesse maior pelas coisas, mas na minha opinião o que falta é uma melhora nas medidas socioeducativas. Por exemplo, o simples fato de ser uma medida socioeducativa atrás das grades já é contraditório. O menino que comete um ato infracional não pensa no dia de amanhã, somente no hoje. Quando ele está na Fundação, tem a chance de fazer um curso profissionalizante que pode até dar uma perspectiva de futuro, mais do que quando estava fora. Mas quando eles voltam para o “mundão”, como eles chamam o mundo fora das grades, essas oportunidades são muito difíceis. É difícil a inserção na escola, no mercado de trabalho, na própria família. É necessário um acompanhamento muito mais intenso.

CENPEC: Como o contato com diferentes linguagens e modalidades artísticas pode estabelecer uma ponte entre esses jovens e a cultura letrada? 

DS: O Projeto existe há seis anos e não tem como objetivo o letramento. No entanto, percebemos que o letramento é uma consequência. Vemos na oficina de rima, por exemplo, que o menino não consegue escrever, mas, como ele quer rimar, fazer um rap, então começa a se interessar pela língua. Com a história em quadrinhos, o menino se identifica com facilidade. O desenho permite entender melhor a escrita. Na oficina de teatro, o letramento se dá quando eles escrevem a peça que vão interpretar. Indiretamente, as oficinas despertam o interesse dos meninos em participar de práticas letradas. O conteúdo das oficinas dialoga com a realidade dos meninos. Elas geram um gosto diferente pelas coisas que antes eram tão difíceis de entender e aceitar. Assim, conseguimos acessar o jovem em suas carências.


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