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    O que caracteriza um bom projeto educacional do ponto de vista social?

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    Quando pensamos o que caracteriza um bom projeto educacional do ponto de vista social, é importante lembrar: não existe solução única ou fórmula universal. Não há tecnologia, metodologia ou pacote pronto capaz de, isoladamente, responder à diversidade de contextos que compõem cada rede e cada escola. 

    Cada território carrega histórias, identidades, desafios e potências próprias, e qualquer projeto educacional que desconsidere isso, corre o risco de oferecer soluções simples para questões complexas.

    Em minha atuação no Cenpec, tenho aprendido que uma das principais características de um bom projeto educacional, do ponto de vista social, é a capacidade de promover uma escuta sensível e qualificada. Escutar gestores, professores, estudantes, equipes técnicas, famílias e comunidade não como formalidade, mas como reconhecimento real dos saberes que já existem e das análises que os próprios territórios produzem sobre si. 

    Isso implica reconhecer e valorizar o trabalho que já vem sendo realizado: os esforços cotidianos das redes em garantir educação de qualidade, as iniciativas construídas ao longo do tempo, as respostas inventadas frente aos desafios. A parceria se estabelece com o território que possui um percurso, conquistas, práticas e muito aprendizado acumulado.

    Um projeto educacional socialmente comprometido também coloca a equidade no centro: olha para as desigualdades, reconhece que os pontos de partida não são os mesmos e busca garantir que todas e todos tenham condições reais de aprender e participar. A diversidade deixa de ser vista como problema e passa a ser reconhecida como potência, porque é justamente ela que amplia perspectivas, produz inovação e enriquece os processos formativos.

    Outro elemento central é a flexibilidade no desenho da atuação. Projetos responsáveis não chegam prontos: eles se constroem ao longo do percurso, se ajustam ao contexto, acompanham o movimento das redes e respeitam o tempo das pessoas. Mais do que “aplicar modelos”, trata-se de co-construir caminhos e de reconhecer que os processos educativos são vivos.

    Também considero essencial em um bom projeto educacional o reconhecimento do território como protagonista da transformação. O papel das organizações parceiras não é fazer pelo município, mas fazer com o município: caminhar junto, apoiar tecnicamente, oferecer referências e ferramentas, ao mesmo tempo em que se fortalecem os espaços decisórios e as capacidades locais. Esse modo de atuação fomenta engajamento, participação, coletividade e corresponsabilidade.

    Formação em Barrocas (BA) do projeto Desenvolvimento Escolar / Cenpec. Formação em Barrocas (BA) do projeto Desenvolvimento Escolar / Cenpec.

    Há ainda um aspecto que considero fundamental: a disposição para estar aberta ao aprendizado. As equipes envolvidas nos projetos também aprendem e precisam se reconhecer como aprendentes. Os territórios nos ensinam, as pessoas nos desafiam, as experiências locais ampliam o nosso repertório. Quando reconhecemos isso com verdade, mudamos nossa forma de atuar e de nos relacionar, e podemos afirmar que um projeto educacional foi bem implementado.

    Quando os processos são construídos coletivamente e de forma dialogada, avançamos na direção de uma gestão democrática e inovadora da educação: decisões compartilhadas, transparência, valorização das vozes que historicamente foram pouco ouvidas e criação de soluções que nascem da prática e do diálogo.

    Por isso, qualquer parceria em educação precisa estar orientada para o fortalecimento institucional das secretarias e escolas, apoiando-as na elaboração, implementação e acompanhamento de políticas públicas educacionais sólidas, sustentáveis e conectadas à realidade local. Trata-se de criar condições para continuidade, aprofundamento e autonomia na condução das políticas.

    Em síntese, um bom projeto educacional do ponto de vista social se expressa na capacidade de:

    É esse o horizonte que inspira meu trabalho e o que o Cenpec busca, diariamente, construir em parceria com os municípios.


    *Texto de autoria de Priscila Beltrame Franco, coordenadora de programas e projetos do Cenpec.