Matemática nos anos iniciais: uma conversa sobre a recomposição de aprendizagens

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Matemática nos anos iniciais: uma conversa sobre a recomposição de aprendizagens

Como promover a aprendizagem da Matemática de forma significativa e com qualidade para todas(os) as(os) estudantes? Confira artigo da especialista Sandra Amorim.

Sandra Amorim*

  • Gosto de matemática. É só seguir o modelo que a professora explicou.”
  • “Eu sou bom mesmo é em resolver ‘continhas’. Quando é para resolver problemas eu não sou muito bom, mas se a professora me explica o que tenho que fazer, eu resolvo.”
  • “Quando não sei resolver os exercícios, eu aguardo a correção no quadro para copiar as respostas. Daí fica a lição pronta no caderno “
  • “É chato ter que decorar a tabuada. Eu vou bem nas tabuadas até a do 5, mas as outras são difíceis de gravar.”
  • “Sempre preciso de ajuda para resolver o dever de Matemática. Minha mãe me ajuda, mas ela também não era boa nessa matéria e talvez eu ‘puxei’ isso dela.” 
  • É legal quando a professora deixa resolver o problema com desenho. Eu não sei bem as contas no papel, mas resolvo “de cabeça.” 
  • Em casa eu sou o primeiro a resolver contas de cabeça e sempre acerto. Na escola, a lição de Matemática é bem difícil. Eu tenho que prestar muita atenção para resolver as continhas como a professora ensina.”

Antes da pandemia de Covid-19, essas eram respostas comuns de estudantes dos anos iniciais do ensino fundamental quando perguntados sobre suas principais dificuldades ou do que mais gostavam nas aulas de Matemática.

Poderíamos acrescentar muitas outras respostas. No entanto, a intenção aqui não é listar frases, mas sim trazer inquietações às(aos) educadoras(es) a respeito do que essas declarações revelam, sugerem, enunciam. As respostas indicam que as(os) estudantes estão familiarizadas(os) com propostas que envolvem uma Matemática de repetições de regras e modelos, que exige memorização e é desvinculada de situações cotidianas ou mais próximas do contexto delas(es).

É importante observar que, bem antes da pandemia, nosso país já apresentava índices insatisfatórios com relação à aprendizagem da Matemática, não apenas nos anos iniciais do fundamental, mas também nos anos finas e ensino médio. Infelizmente, esse fato se ampliou e foi reforçado com a pandemia. Relacionando as respostas das(os) estudantes aos índices históricos do ensino de Matemática do país, fica evidente que muito ainda temos para caminhar, ajustar, aprender, significar e evoluir com relação a construção e/ou ampliação de conhecimentos matemáticos. 

De 2020 a 2021, vivenciamos anos muito difíceis para a humanidade e também para a educação.  Por um lado, a preocupação em zelar pela vida, pelo bem estar de cada indivíduo e por outro, em como garantir às(aos) estudantes conhecimentos essenciais para progredir nos estudos. Com a chegada da vacina, a primeira preocupação foi suavizada, mas não esquecida ou deixada para um segundo plano. Era o começo de um recomeço. 

A questão central era a de como garantir às(aos) estudantes aprendizagens essenciais para progredir e avançar nos estudos. Pensando nisso, as redes de ensino se organizaram para traçar caminhos e estratégias na intenção de minorar as defasagens, em todos os aspectos, garantindo o direito a uma educação de qualidade para todas(os). 

Mas como promover a aprendizagem de conteúdos e conceitos às(aos) estudantes garantindo a aprendizagem, o percurso escolar e o desenvolvimento de conhecimentos específicos das áreas?  Agora esse é o nosso grande desafio!

A aprendizagem significativa ocorre quando a criança é instigada para um conhecimento novo, mas que tenha relação com o que ela já sabe, com o que ela conhece e vivencia. Quando a aprendizagem acontece nesse limiar, a criança se engaja mais.” 

Érica Catalani (Cenpec)


Recompondo as aprendizagens de Matemática

Após o período pandêmico, constatou-se a necessidade de reorganização e reordenação a respeito do que era proposto em cada ano escolar. Não significa desconsiderar o que foi realizado, mas sim ter um olhar mais atento e qualificado a respeito do que foi construído, para avançar e proporcionar às(aos) estudantes aprendizagens basilares, potentes e significativas. Mas não basta só olhar, é preciso agir.

Entendemos que a recomposição de aprendizagens trata-se de um conjunto de ações necessárias ao enfrentamento das lacunas de aprendizagem provocadas pelo fechamento das escolas durante a pandemia. Não é um projeto ou uma proposta de ensino apenas. A recomposição da aprendizagem significa pensar em ações que envolvam as secretarias e que sejam bem compreendidas pelos responsáveis pela implementação, acompanhamento e avaliação. O principal foco da recomposição de aprendizagens é garantir a construção de conhecimentos essenciais para desenvolver competências e habilidades conforme o ano escolar em que as(os) estudantes estão matriculadas(os).

A recomposição prevê acolhimento, priorização curricular, avaliação diagnóstica e contínua, adaptação das práticas pedagógicas para estratégias diferenciadas, formação docente, acesso a materiais didáticos adequados, enfim, um olhar sistêmico.

Essa amplitude pode causar grande impacto aos(as) docentes, principalmente no que tange à área de Matemática nos anos iniciais. As(Os) professoras(es) devem ter olhar atento para o que as(os) estudantes sabem, as habilidades inegociáveis do ano em que estão matriculadas e o que fazer para ajudá-las(os) a atingir e alcançar nas aprendizagens. É necessário analisar as habilidades que foram ou não consolidadas. Ao identificar aquelas que não foram consolidadas, o foco é traçar estratégias para recompor as aprendizagens.


Vamos pensar como isso se efetiva com uma turma do 3º ano? 


Estudo de caso: na semana de planejamento escolar, uma professora teve como tarefa investigar quais as habilidades que sua turma do 3º ano ainda não desenvolveu plenamente. Para isso, a unidade escolar orientou a aplicação de avaliação diagnóstica que é voltada à investigação dos saberes de cada estudante, promovendo um olhar bem ajustado para as necessidades de aprendizagem e para a articulação com habilidades prioritárias, capazes de gerar avanços na aprendizagem. Após a aplicação da avaliação diagnóstica, a professora percebeu que a questão com menor número de acertos foi a descrita a seguir: 

Ana Luíza comprou 10 cartelas de bala com 9 balas em cada uma. Quantas balas Ana Luíza comprou no total?

a) 9
b) 10
c) 19
d) 90

✍️ Habilidade avaliada: (EF03MA07) – Resolver e elaborar problemas de multiplicação (por 2, 3, 4, 5 e 10) com os significados de adição de parcelas iguais e elementos apresentados em disposição retangular, utilizando diferentes estratégias de cálculo e registros. 

✍️ Descritor: Utilizar números naturais, envolvendo diferentes significados da multiplicação ou da divisão, na resolução de problemas.

🧩 É importante destacar que:

  • as habilidades expressam as aprendizagens essenciais que devem ser asseguradas aos estudantes nos diferentes contextos escolares.
  • os descritores são elementos que descrevem as habilidades trabalhadas nas avaliações.

Para resolver esse item, as(os) estudantes devem fazer uma leitura atenta da situação-problema apresentada e compreender que a solução se encontra na multiplicação da quantidade de cartelas de bala que Ana Luíza comprou pela quantidade de balas de cada pacote (10 x 9).  

Quem assinalou o item D (90) identificou corretamente a quantidade total de balas que Ana Luíza comprou, evidenciando que a aprendizagem foi desenvolvida. Quem assinalou o item C (19) adicionou 10 ao 9, resultando em 19, mostrando que sabem adicionar números naturais de até duas ordens, sem reserva, mas, com isso, demonstraram desconhecimento da ideia de adição repetitiva envolvida na multiplicação e necessária à resolução da situação apresentada. Já em relação às alternativas A (9) ou B (10), uma suposição é que as(os) estudantes que apontaram esses resultados como resposta ao problema reconhecem os números no enunciado, no entanto, não se atentam para o que deve ser realizado para resolver a situação.

Ao observar e levantar hipóteses a respeito dos equívocos cometidos, a professora está coletando informações sobre os saberes das(os) estudantes.

Essas informações são essenciais para recompor as aprendizagens. São elas pontos de partida para identificar saberes, aqueles que precisam ser enfatizados e construídos e que caminhos podem ser traçados para ampliar as aprendizagens. 

Com base nos resultados da avaliação, como caminhar para recompor aprendizagens?

1. Talvez um dos grandes problemas das(os) estudantes em Matemática esteja na incompreensão do texto das questões. Uma orientação é realizar com as(os) estudantes atividades voltadas à leitura nas aulas de Matemática.

Para isso, uma sugestão é escrever o problema no quadro, realizar a leitura e fazer alguns questionamentos oralmente, como: 

  • Alguém consegue me contar o que diz o problema? 
  • Tem alguma palavra que vocês não conhecem? 
  • Qual a pergunta do problema? 
  • Do que se trata o problema? 
  • Quais as informações numéricas que aparecem no texto do problema? 
  • Que alternativa não pode ser considerada como correta? Por qual motivo?

 Ao realizar esse tipo de intervenção, as(os) docentes possibilitam às(ao) estudantes refletir sobre a situação, formular hipóteses, compreender do que se trata o problema, quais informações são essenciais para resolver a situação, exercitar a argumentação, ouvir diferentes formas de pensar e de resolver o problema e validar ou não suas respostas. 

é preciso superar o entendimento de que leitura, escrita e oralidade são ‘coisas de língua portuguesa’. Entendo ser esses eixos responsabilidades de todas as áreas do conhecimento.”

Saiba mais no artigo de Sílvia Longato “Matemática e língua portuguesa: um início de conversa

Trabalhar a leitura nas aulas de Matemática deve ser uma prática das(os) docentes, visto propiciar às(aos) estudantes o desenvolvimento de habilidades não apenas específicas da área, mas aquelas que convergem para a formação de um sujeito integral. 

Ao explorar as estratégias de leitura, é importante organizar alguns itens para avaliar as aprendizagens das(os) estudantes. Você pode confeccionar um instrumento que ajude a identificar as aprendizagens e se estão avançando.   

⏩ Para saber mais sobre leitura nas aulas de Matemática, indicamos o texto do Mathema: Para aprender a ler problemas em Matemática.

⏩ No material Avalia e Aprende”, do Instituto Reúna, você encontra subsídios para desenvolver instrumentos diagnósticos.

2. Ao refletir sobre os conhecimentos específicos da área de Matemática envolvidos na questão (multiplicação de números naturais), é importante que as(os) docentes não se limitem ao trabalho com as tabuadas, em especial, o que envolve apenas decorar.

Saber as tabuadas decoradas ajuda na resolução de cálculos, no entanto, não deve ser a única estratégia apresentada aos estudantes. Ao proporcionar às(aos) estudantes a construção das tabuadas, as(os) docentes estão oferecendo escolhas, isto é, decorar será uma opção e não uma condição para resolver determinados problemas

Uma maneira de significar o trabalho com as tabuadas é construindo com elas as regularidades, como: 

  • Divida as(os) estudantes em duplas e entregue a elas(es) uma calculadora simples (que faça as quatro operações). 
  • Solicite a elas(es) que realizem os seguintes cálculos na calculadora e registrem os resultados, por exemplo: Qual o resultado de 1 x 10? e de 2 x 10? e de 3 x 10? O que vocês observam nos resultados? O que será que vai acontecer se realizarmos 4 x 10? e 5 x 10? e 6 x 10?. 
  • À(Ao) docente cabe escutar as constatações das(os) estudantes e ajudá-las(os) a perceber as regularidades. Um questionamento que pode ser feito: Será que essa mesma regularidade se mantém se os números multiplicados por 10 forem na ordem das dezenas? Vamos testar? Qual o resultado de 11 x 10? e 12 x 10? e 13 x 10?

Um problema quando se trabalha a multiplicação por 10 é dizer às(aos) estudantes que basta incluir um zero no final do número. Para compreender melhor a afirmação indicamos que você assista ao vídeo da Mathema Na multiplicação por dez, é correto dizer “apenas adicione um 0 (zero) ao fim do número?.

Muito do que realizamos em sala de aula ter origem nas vivências das(os) docentes enquanto estudantes. Por isso, indicamos a leitura do texto da Nova Escola: Um novo jeito de ensinar a tabuada. O texto pode ajudar a compreender um pouco mais sobre o trabalho com tabuadas, validar práticas já adotadas e reorganizar algumas ações desenvolvidas com as(os)  estudantes em sala de aula. Observe que é um material de estudo das(os professoras(es), mas que contribui muito para o que é realizado em sala de aula.

Não diferente do trabalho de avaliação realizado no item anterior (estratégias de leitura), é essencial que as(os) docentes registrem as aprendizagens das(os) estudantes sobre os conhecimentos específicos (multiplicação). Com base nos registros das aprendizagens, será possível identificar aquelas(es) estudantes que precisam de mais atenção, as(os) que já atingiram as expectativas e aquelas(es) que podem ser expostas(os) a atividades mais complexas

Uma forma de avaliar também a qualidade das aprendizagens das(os) estudantes é por meio de rubricas. A rubrica consiste em identificar se as expectativas de aprendizagem foram atingidas, além de facilitar a visualização dessas informações. 

⏩ Para saber mais sobre processos avaliativos a favor da aprendizagem, indicamos a leitura do material Avalia e Aprende”, do Instituto Reúna.

⏩ Outro material que pode contribuir muito com a prática docente é o “Material de Apoio ao professor para recomposição das aprendizagens dos estudantes, desenvolvido pelo Movimento pela Base, em parceria com Nova Escola e Instituto Reúna, em especial as páginas indicadas para os estudantes do 3º ano do ensino fundamental. 

Para finalizar, consideramos fundamental ressaltar que a recomposição de aprendizagens, em qualquer área de conhecimento, é uma estratégia para ajudar as(os) estudantes a desenvolverem habilidades e competências e a avançarem em seus saberes.


Sobre a autora

Foto: acervo pessoal

Sandra Amorim é graduada em Matemática pela Universidade de Mogi das Cruzes (UMC), mestre em Ensino de Matemática e especialista em Educação Matemática, pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e especialista em Álgebra para elaboração de planos de aula da Revista Nova Escola em parceria com a Fundação Lemann e o Google (2017-2018). Leciona no Centro Universitário Piaget (UniPiaget), campus Suzano (SP), e atua como formadora de professoras(es) na área de ensino de Matemática. Por 16 anos, foi professora da rede estadual de ensino de São Paulo, ministrando aulas nos anos finais do ensino fundamental, médio e na Educação de Jovens e Adultos (EJA).    


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