Protagonismo juvenil e colaboração nas redes

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Protagonismo juvenil e colaboração nas redes

Por: Maria Izabel Leão (julho/2014). Matéria publicada originalmente na Plataforma do Letramento
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Com a popularização das redes sociais e da internet, muitos jovens estão se mostrando protagonistas no meio digital, utilizando as novas tecnologias de informação e comunicação (TIC) para não apenas se apropriar da cultura letrada, como também para criar e divulgar no ambiente on-line suas produções – poemas, contos, crônicas, resenhas, desenhos, fotos etc. Dessa forma, buscam expressar e compartilhar sentimentos, ideias e opiniões.

Crônicas no ar
Uma dessas iniciativas é o Cronicanto. Seus criadores são jovens cronistas que se conheceram na cidade de Natal (RN), em 2012, durante a semifinal da Olimpíada de Língua Portuguesa, organizada pelo Programa Escrevendo o Futuro (CENPEC/Itaú Social/MEC). Vindos de diferentes localidades, de norte a sul do país, os jovens que se tornariam os criadores desse ambiente construíram laços de amizade e os fortificaram ainda mais no ambiente virtual, o que os levou à ideia de criar um espaço em que pudessem expor seus textos a outras pessoas.

Blog Cronicanto

No blog, cada cronista produz o seu texto e o envia para ser publicado, de acordo com o planejamento elaborado pelo grupo. Quem orquestra as publicações é a coordenadora, cronista e editora do ambiente, Aline Andrade, de 17 anos, moradora de Cruzeiro do Sul (AC). Aline conta que o blog já tem 24 autores, entre eles 5 homens. Muitos dos participantes revelam ter dificuldades em se expressar oralmente e encontraram no espaço virtual a oportunidade de comunicar o que pensam, como sentem e veem o mundo.

A jovem editora diz que é isso o que incentiva o grupo a continuar escrevendo. As complexidades da língua portuguesa não são obstáculos para esses jovens.

A gente pede ajuda aos professores. Além de aprender com nossas dúvidas, fortalecemos a amizade. A professora que me orientou na Olimpíada sempre revisa meus textos, e hoje somos grandes amigas” (Aline Andrade, editora do Cronicanto).

Caso não encontrem nenhum professor disponível, os blogueiros não se intimidam: pesquisam na internet, consultam uns aos outros, promovendo a colaboração no grupo, como lembra a coordenadora do ambiente virtual. “Praticamos muita cooperação e colaboração entre nós.” Como ela ressalta, essas práticas têm ajudado a aprimorar o português de todos os integrantes, não só na escrita como também na fala.

Jovens cronistas na semifinal da Olimpíada de Língua Portuguesa (Natal-RN, 2012).

E por que a opção por crônicas?

A crônica mostra um olhar diferente sobre o dia a dia, sobre o que a maioria das pessoas deixa passar despercebido. O cronista tem um olhar diferente sobre as coisas do cotidiano. É um gênero prazeroso de ler, promove uma leitura gostosa. A internet move o adolescente por meio da curiosidade, facilita manifestarmos nossos anseios e conseguirmos nos expressar” (Aline Andrade).

A prática corrente de escrever, burilar o texto, aprimorar o português e publicar tem criado no grupo uma cultura de colaboração e letramento. Para a divulgação do blog, os jovens criaram uma página no Facebook e também postam mensagens no Twitter. Cada cronista ajuda a divulgar o projeto em seus perfis pessoais. Como relatam os integrantes, a relação no grupo é de igualdade.

Crônica postada no blog.

Os papéis de cada participante têm a mesma importância, logo ninguém se sente inferior a ninguém. Participo do blog desde o seu surgimento, e tem sido motivo de orgulho para mim no meio escolar e entre a família”, (Atos Paulo, jovem cronista de Goiânia-GO).

Victória Ordónez, de Araxá (MG), afirma que o objetivo do Cronicanto é levar ao leitor descontração por meio dos textos baseados na realidade vista pelos olhos de jovens de todo o Brasil. Para ela, os jovens em geral têm muito gosto pela leitura e pela escrita, o que falta é incentivo e animação.

Já Isabela Cogo, de Ipiranga (PR), acredita que o trabalho coletivo no blog ajuda todos a entender o que é colaboração e autonomia.

Vemos o mundo com outros olhos, aceitamos as opiniões dos outros cronistas, o que ajuda a formar nossa identidade com mais maturidade, já que sabemos aceitar vários pontos de vista. Sem contar que o blog nos mantém unidos. Formamos um grande grupo de amigos reunidos em torno de um gosto comum, escrever” (Isabela Cogo, blog Cronicanto).

Para a cronista paranaense, o que a incentiva a participar do Cronicanto é o reconhecimento das pessoas, o apoio da família. “Hoje temos um total de 43 mil acessos desde que criamos o blog, há dois anos. Quando as pessoas elogiam, ficamos felizes e orgulhosos.”

Esse reconhecimento é atestado em outros ambientes virtuais: o blog é a segunda página mais curtida na Escola Digital, plataforma de busca que reúne objetos e recursos digitais voltados a apoiar o ensino-aprendizagem dentro e fora da sala de aula.

Escritoras em rede
Outra turma que deixa suas pegadas na internet são as meninas da Capitolina, uma revista on-line independente para garotas adolescentes. A iniciativa partiu de jovens que sentiram falta de ter suas experiências representadas na mídia voltada para esse público. Segundo suas criadoras, o objetivo é estabelecer um diálogo honesto com as leitoras, sendo acessível e atraente de forma inclusiva, sem restrições de classe social, etnia, orientação sexual, aparência física, ou qualquer outra forma de interesse. A editora geral, Clara Browne, diz que a revista abarca os mais diversos assuntos para que as mais variadas garotas consigam se encontrar na publicação.

Ilustração de Ana Maria Sena para a Capitolina.

Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescer como são” (Clara Browne, revista Capitolina).

O nome da revista foi escolhido com cuidado. Depois de uma boa discussão entre as participantes, decidiu-se por Capitolina, parte do nome da célebre personagem do livro Dom Casmurro, de Machado de Assis, publicado em 1899. Segundo as autoras do site, Capitu é um exemplo de força e coragem. Além disso, Capitolina é o nome da loba que alimentou os gêmeos Remo e Rômulo, fundadores da cidade de Roma, na Itália, segundo a lenda. 

As autoras da revista têm acima de 19 anos, vêm de várias partes do Brasil, o que reitera a preocupação em manter a diversidade do grupo. As matérias, divididas em mensais e semanais, abordam um pouco de tudo: artes, cinema, TV, culinária, música, vestibular, profissão, moda, beleza, quadrinhos, relacionamentos, tecnologia, games. O que elas querem é mostrar para as leitoras e os leitores as belezas existentes na vida de cada um.

É imprescindível que as garotas vejam suas realidades como algo que deve ser apropriado, em vez de negado. Queremos mostrar que as dificuldades pelas quais todas passamos são válidas e que é possível resolvê-las sem a necessidade de recorrer a um mundo fictício. E que, apesar dos problemas, o mundo em que vivemos é, sim, um lugar fantástico” (Clara Browne).

A editora geral explica que a cada mês as matérias principais tratam de um tema escolhido por todas as integrantes. A revista conta ainda com colunas diárias, que abordam as mais diversas áreas de interesse. O conteúdo é escrito e ilustrado por colaboradoras, que fazem quadrinhos, ilustrações e ensaios fotográficos.

Integrantes da revista na cidade do Rio de Janeiro.

Em relação às dúvidas de língua portuguesa, Clara conta que as meninas da revista em geral escrevem bem, mas os textos sempre passam pela equipe de revisão antes de ser publicados no site. As escritoras e revisoras mantêm contato direto, de forma que os problemas no texto possam ser facilmente resolvidos.

Em seu texto “Quando a memória volta a passar pelo coração”, Clara conta como a palavra “recordar” se tornou seu vocábulo preferido. “Eu só a uso se a memória realmente volta a ser sentida”, afirma. Nesse texto, ela pede a colaboração de todos que fizeram uma viagem e esta ficou registrada no coração. “Achei que seria legal deixar no blog todas as formas de registro, que vão além da fotografia, como objetos, cartões-postais, cartas, vídeos, escritos… as inúmeras formas de documentar uma viagem mostrando os próprios diários de viagem.”

Clara diz que participar dessa iniciativa como editora geral é uma experiência incrível, pois a tem ajudado a desenvolver senso de organização, ter lucidez nas ideias para escrever, pôr a mão na massa, lidar com os comentários bons e bobos.

Aprendi a lidar com tudo e todos. Curto muito fazer isso. E nada como fazer algo com muito amor. Por isso a Capitolina está firme e forte, porque todas nós nos envolvemos com muito prazer” (Clara Browne).