Pela formação de professores alfabetizadores!

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Pela formação de professores alfabetizadores!

Claudia Lemos Vóvio
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Sim, estou defendendo uma bandeira! Encontro-me entre aqueles que reivindicam que a formação do professor alfabetizador merece não só mais atenção nos cursos de formação inicial, como também um percurso formativo específico e articulado aos estudos da linguagem, às contribuições da linguística e da linguística aplicada ao ensino da modalidade escrita da língua.

Desde que a formação docente em nível superior se tornou obrigatória, há um amplo debate sobre a função e a identidade dos cursos de Pedagogia. Imaginem que as Diretrizes Curriculares Nacionais para Formação de Professores de Educação Básica (BRASIL, 2002) em vigência estabelecem 16 funções para esse curso! Essa característica por si só parece refletir os desafios da educação escolar num cenário não muito promissor, como o brasileiro – basta ver os resultados de avaliações estandardizadas, como a Avaliação Nacional da Alfabetização (ANA) e a Prova Brasil.

Vocês já pararam para pensar em quanto tempo é necessário e quais são as disciplinas que se prestam à formação do professor que deve ensinar a ler e a escrever?

Quanto tempo e estudo seriam necessários para formar esse profissional que deve cuidar prioritariamente da Educação Infantil e do Ensino Fundamental, podendo atuar em outras frentes da educação escolar, da educação em ambientes não formais, da pesquisa etc.? Com 3.200 horas obrigatórias de curso e 300 horas de estágio, pergunto: que profissionais esse curso forma? Quais as possibilidades de se construir uma identidade centrada na docência? Qual ênfase é efetivamente dadas aos projetos político-pedagógicos nas mais diferentes instituições de Ensino Superior, públicas e privadas? Como superar a (falsa) dicotomia entre teoria e prática, tão debatida quando se propõe a revisão de currículos das licenciaturas no Ensino Superior?

Entre várias, uma questão que se relaciona à minha reivindicação é: como o curso de Pedagogia vem respondendo (ou não) às atuais demandas e contornos que o ciclo de alfabetização ganhou nesses últimos 30 anos? Essa questão ganha relevância quando se observam as desigualdades instituídas na escolarização de crianças, jovens e adultos, e a pouca equidade na distribuição de oportunidades de acesso e usufruto de produções culturais escritas no país.

Vocês já pararam para pensar em quanto tempo é necessário e quais são as disciplinas que se prestam à formação do professor que deve ensinar a ler e a escrever? Aquele que, segundo o Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa (Pnaic), é responsável por aprendizagens relativas à apropriação do sistema de escrita, por outras que permitem produzir e compreender textos orais e escritos com autonomia e, ainda, por aquelas que dizem respeito à análise linguística articulada às práticas de uso da linguagem (BRASIL, 2012).


Fica fácil compreender as angústias dos graduandos que terminam as 75 horas da disciplina Alfabetização e Letramento, ao dizerem, por exemplo, “não sei se conseguirei alfabetizar uma turma de crianças”…

Há pouco li um artigo instigante sobre a formação do alfabetizador, de Luciana Piccoli, professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Piccoli (2015) investigou a formação inicial, com base na análise curricular dos cursos de Pedagogia das universidades federais da região Sul do Brasil e em depoimentos de estudantes que se descobriram alfabetizadoras durante a graduação. Em suas conclusões, ela problematiza, de um lado, o pouco tempo dedicado à formação do professor alfabetizador nos cursos de Pedagogia e, de outro, a quantidade e qualidade das disciplinas ofertadas que visam a essa especificidade. Segundo os estudos de Piccoli (2015), em média 6,61% da carga horária dos cursos investigados por ela são dedicados a disciplinas diretamente ligadas ao ensino da língua materna, a ensinar a ler e a escrever.

No curso no qual leciono, temos apenas duas disciplinas obrigatórias voltadas à alfabetização e ao ensino de língua portuguesa nos anos iniciais, e uma oferta anual de disciplinas eletivas, com um leque que abrange desde tópicos de aquisição da linguagem à literatura infantojuvenil. A área de linguagem, informalmente instituída, é composta de três docentes. Percebam a grande distância entre a reivindicação inicial deste artigo e a realidade dos cursos de formação!

Magda Becker Soares, há pelo menos 20 anos, tem nos alertado para as especificidades da alfabetização e para a necessidade de formar professores, não como polivalentes ou generalistas, mas como especialistas das áreas do conhecimento que devem ser abordadas nos anos iniciais. Para a autora, não é possível “ser alfabetizador e ensinar a língua e, ao mesmo tempo, ser professor de ciências, de história, de matemática” (SOARES, 2010, p. 9).

Nos termos do que hoje designamos alfabetização e letramento nos anos iniciais, concordo com Soares (2010, p. 10), ao reafirmar que, na formação inicial, é necessário desenvolver o domínio sobre a língua portuguesa, e, ainda, ter formação em sociolinguística, psicolinguística e fonologia, bem como conhecer e acessar a produção literária infantojuvenil, teorias sobre a leitura e seu ensino e abordagens para tratar da produção de textos na escola. A lista é vasta, mas quando observamos as disciplinas elencadas por Piccoli (2015) e aquelas nas quais atuo, fica fácil compreender as angústias dos graduandos que terminam as 75 horas da disciplina Alfabetização e Letramento, ao dizerem, por exemplo, “não sei se conseguirei alfabetizar uma turma de crianças”; “aprendi como é difícil ensinar a ler e a escrever”, “não sabia das atribuições do professor alfabetizador”, “tenho que estudar muito sobre alfabetização e letramento para dar aulas”, “gostaria de refazer sua disciplina”, entre outros.

Pesquisadores como Piccoli (2015), Gatti (2014) e Soares (2010) e o cotidiano de muitos docentes universitários têm alertado para os atuais problemas do curso de Pedagogia e, consequentemente, para a necessidade da formação contínua a fim de suprir as necessidades profissionais e romper com a fragmentação e as ambiguidades da formação inicial. Como afirma Gatti (2014, p. 257), “os cursos não estão formando os professores para enfrentar a sala de aula”. Assim como Piccoli, acredito que as disciplinas voltadas à formação dos professores que se responsabilizam pelo processo de alfabetização e letramento não são suficientes para que dominem os objetos de ensino a fim de torná-los objetos ensináveis, isto é, acessíveis aos alunos, passíveis de apropriação e integração aos diferentes âmbitos de convivência social.

Os processos de alfabetização e de letramento exigem estratégias didáticas flexíveis, que respondam às necessidades de aprendizagem dos alunos, às capacidades e aos conhecimentos desenvolvidos por eles e, de modo amplo, aos propósitos do campo educacional.

São necessárias disciplinas que articulem a apresentação do que ensinar na alfabetização e, de modo articulado, tratem de perspectivas práticas, pedagógicas e relacionadas às subjetividades e identidades sociais dos alunos. E, ainda, que permitam ao graduando compreender que os processos de alfabetização e de letramento exigem estratégias didáticas flexíveis, que respondam às necessidades de aprendizagem dos alunos, às capacidades e aos conhecimentos desenvolvidos por eles e, de modo amplo, aos propósitos do campo educacional.

Finalmente, mas não por fim, dentro desse conjunto de reivindicações, sustento a atenção à formação linguística do alfabetizador. Não há dúvidas que, de modo geral, os conhecimentos da didática e da psicologia do desenvolvimento e da aprendizagem trazem muitas contribuições para o planejamento e a execução de aulas, mas o que hoje designamos como alfabetização articulada a processos mais amplos de uso da linguagem escrita exige a tematização de outros conhecimentos que forneçam aos futuros alfabetizadores, acima de tudo, uma base intelectual, prática e ética para agir em sala de aula, além de referências e modelos de ação profícuos, que resultem no sucesso escolar de todos os alunos.

Referências bibliográficas:
BRASIL. Ministério da Educação (MEC). Resolução CNE/CP n. 1, de 18 de fevereiro de 2002. Institui Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação de Professores da Educação Básica, em nível superior, curso de licenciatura, de graduação plena. Disponível em: Portal MEC. Acesso em: 28 mar. 2016.
______. Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa. Currículo na alfabetização: concepções e princípios. Brasília: Ministério da Educação; Secretaria da Educação Básica, 2012.
GATTI, B. O que se percebe é que a questão da docência é sempre relegada como se fosse algo menor [Entrevista]. Cadernos Cenpec, v. 4, n. 2, p. 248-275, dez. 2014.
PICCOLI, L. Como formar um professor alfabetizador no curso de Pedagogia? Discussões sobre a formação inicial nas universidades federais da região Sul do Brasil. Revista Brasileira de Alfabetização, v. 1, n. 1, p. 132-154, jan./jul. 2015.
SOARES, M. B. Simplificar sem falsificar [Entrevista]. Guia da alfabetização: os caminhos para ensinar a língua escrita. Segmento, n. 1, p. 6-11, 2010.


Claudia Lemos Vóvio

Especialista em Linguística Aplicada pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp-SP), tem larga experiência na área de educação, com ênfase em: educação de jovens e adultos; alfabetização; letramento; formação de educadores e currículo. Professora adjunta da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), colaboradora do Programa de Educação de Jovens e Adultos (EJA) da ONG Ação Educativa e coautora do livro Viver, aprender: educação de jovens e adultos (vencedor do Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro (CBL), em 2006, na categoria Material Didático).