Paulo Freire presente!

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Paulo Freire presente!

Abertura da série especial #100AnosPauloFreire em homenagem ao centenário de nascimento do patrono da educação brasileira
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Por Stephanie Kim Abe

Educador. Filósofo. Escritor. Gestor. Patrono da educação brasileira. Há muitas facetas de Paulo Freire, assim como a sua obra é extensa e muito rica. Por isso, ao longo de 2021, o Especial #100AnosPauloFreire, do Portal Cenpec, publicará mensalmente matérias sobre o educador, em homenagem e reconhecimento ao seu importante papel no pensamento e nas práticas educacionais brasileiras.

“Para nós, é importante afirmar as verdades e esclarecer mitos, porque nós vivemos um tempo no qual todo o seu trabalho é alvo de ataques, por pessoas que não compreendem verdadeiramente a sua obra, nem a importância que ela teve e tem para a educação”, diz Anna Helena Altenfelder, presidente do Conselho de Administração do Cenpec Educação.

Para Anna Helena, as críticas partem de setores e personalidades da sociedade que são marcadas pelo autoritarismo, e que defendem uma sociedade menos democrática e republicana. É o caso, por exemplo, daqueles que dizem que o método freiriano doutrina os alunos para uma ideologia de esquerda. 

Foto: arquivo Cenpec

Essa fala é bastante equivocada, porque Paulo Freire sempre afirmou que educação tem que ser plural, que não cabe ao professor ser o pregador – embora isso não signifique abrir mão de uma opinião, e sim o diálogo com os diferentes pontos de vista. Ele influenciou toda uma geração de educadores brasileiros, com ideias, vamos dizer assim, do ponto de vista filosófico, bastante interessantes, e nos ensinou questões atuais contemporâneas e fundamentais para a educação.”

Anna Helena Altenfleder

Vida e obra

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Paulo Freire em Angicos (RN), 1963 / foto: reprodução

Nascido em Recife em 1921, o educador ficou conhecido pelo seu inovador método de alfabetização, que desenvolveu nos anos 1960 a partir da experiência em Angicos, no Rio Grande do Norte. Na ocasião, ele concluiu, em um processo de 40 horas, não só o ensino da leitura e da escrita a adultos, mas também a formação dos mesmos para o exercício da cidadania.

Paulo Freire chegou a coordenar o Programa Nacional de Alfabetização do Ministério da Educação, em 1963. Mas por causa de sua pedagogia libertadora e da sua militância política, ficou exilado do golpe militar de 1964 a 1980. Durante esse período, o educador publicou o seu primeiro livro no Brasil, Educação como Prática da Liberdade, escreveu outras tantas obras – entre elas a célebre Pedagogia do Oprimido -, e trabalhou em países da América Latina, Europa e África.

Saiba mais sobre a alfabetização em Anjicos no nosso especial multimídia Das primeiras letras aos multiletramentos: caminhos na história brasileira

Quando Luiza Erundina assumiu a prefeitura da cidade de São Paulo, em 1989, nomeou Paulo Freire secretário de Educação, cargo que exerceu até 1991. No cargo, ele criou o Movimento de Alfabetização de Jovens e Adultos (MOVA), em parceria com movimentos sociais populares, com o objetivo desenvolver um processo de alfabetização que possibilitasse aos educandos uma leitura e uma consciência crítica da realidade.

Reunião com equipe na SME de São Paulo durante gestão de Luiza Erundina. Foto: reprodução

A ideia de que a educação tem fundamental importância para a transformação da sociedade, mas que ao mesmo tempo ela sozinha não transforma a sociedade, revela o próprio pensamento freiriano. Um pensamento que foge de polarizações e trabalha com a ideia do diálogo, da integração, do encontro de saberes, da dinâmica.”

Anna Helena Altenfelder
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Trabalhando com o coordenador do Programa de Alfabetização de Guiné-Bissau, em 1976. Foto: acervo Instituto Paulo Freire

A vida e a obra de Freire também estão relacionadas à descolonização em países africanos de língua portuguesa, no final da década de 1970. Sua presença em Guiné-Bissau, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e Moçambique aconteceu por intermédio do Conselho Mundial de Igrejas (CMI). O trabalho do educador colaborou para se pensar o papel da educação numa perspectiva libertadora nesses países. Essa experiência está registrada em dois de seus livros: Cartas a Guiné-Bissau: registros de uma experiência em processo (1978) e Pedagogia da Esperança: um reencontro com a Pedagogia do Oprimido (1993).

Em 2012, foi oficialmente considerado patrono da educação brasileira (Lei 12.612). Além disso, Paulo Freire já foi homenageado com 29 títulos de doutor honoris causa de universidades da Europa e América e com prêmios internacionais, como o de Educação para a Paz, da UNESCO, concedido em 1986.


Paulo Freire nas escolas

Apesar de reconhecer que as ideias freirianas fazem parte dos discursos e das narrativas de educadores e educadoras brasileiros(as), Anna Helena acredita que há um desafio grande para concretizá-las na prática, no chão da escola.

Quando olhamos para as nossas imensas desigualdades educacionais, que são marcadas por questões regionais, de raça, de gênero, de nível socioeconômico, não podemos dizer que incorporamos as ideias de Paulo Freire nas escolas e nos sistemas de ensino, porque seria contraditório com ele mesmo. O educador nos convida a olhar para a diversidade, para a cultura e para o conhecimento desses alunos, ultrapassando preconceitos, para desenvolver políticas e estratégias para superar as desigualdades, à nível de sala de aula, escola, secretaria, Ministério. Acho que Paulo Freire ainda tem muito a nos ensinar.”

Anna Helena Altenfelder

Paulo Freire no trabalho do Cenpec

Anna Helena conta que as ideias e a filosofia de Paulo Freire influenciaram tanto a sua vida pessoal – desde a sua formação, em Pedagogia, no começo dos anos 80 – como o próprio Cenpec.

Historicamente, nós sempre tivemos em nossos quadros muitos profissionais que trabalharam ativamente na formulação das políticas na gestão de Paulo Freire como secretário municipal de educação de São Paulo (1989-1991). E isso foi muito importante para a constituição dos saberes e do modo de fazer do Cenpec.”

Anna Helena Altenfelder

Para a presidente, há muitos pontos fundamentais do pensamento freiriano que norteiam a formação de profissionais da educação que o Cenpec realiza. Alguns deles são a coerência, o encontro de saberes e a ampliação de leitura de mundo.

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Nosso patrono é gigante, obra instalada na praça XV, no Rio de Janeiro, por alunos da Escola de Belas Artes da UFRJ. Foto: Wilson Cardoso Jr./UFRJ

De nada adianta defender uma educação que dá protagonismo para os alunos, se o professor no dia a dia ironiza, tem uma postura autoritária, não os escuta. Esse é um cuidado e uma preocupação muito grande que nós sempre tivemos: formar os professores de acordo com os mesmos princípios, inspirados no Paulo Freire, que são importante que eles tenham com os alunos. Então a formação desses profissionais fundamentalmente deve respeitar o conhecimento que trazem, a sua realidade, o seu contexto, as suas dúvidas e os seus saberes.”

Anna Helena Altenfelder

A educadora ainda ressalta a importância da leitura do contexto, de entender que a história da sociedade é dinâmica e como os diferentes acontecimentos sociais vão nos modificando. 

Paulo Freire ensinava muito que não há futuro a priori, que o ser humano é histórico e inacabado. Ele falava: ‘o mundo não é, está sendo’. Nós temos essa visão de mundo dinâmico, e por isso a necessidade de formação permanente.”

Anna Helena Altenfelder

Paulo Freire no Portal Cenpec

A importância do educador para o Cenpec também se reflete no conteúdo do Portal. Há tanto reportagens que falam diretamente sobre o educador e o seu legado, como matérias que versam sobre a importância do diálogo e de reconhecer e valorizar os saberes dos(as) outros(as), relacionados a diferentes realidades das escolas brasileiras. 

Para facilitar a procura por esses ricos materiais, selecionamos algumas das matérias que trazem conteúdos sobre Paulo Freire. São entrevistas de personalidades famosas, indicações de filme e artigos, e participações de profissionais do Cenpec em reportagens de outros veículos de mídia tratando da importância e do legado do patrono da educação brasileira. Veja abaixo:

Paulo Freire, legítimo patrono da educação brasileira
Reportagem que resgata e reverencia as contribuições do grande pedagogo ao Brasil e ao mundo após homenagem em desfile da escola de samba Águias de Ouro, vencedora do Carnaval de São Paulo em 2020.

A importância de Paulo Freire para a educação
Em participação no Jornal da Cultura, Anna Helena Altenfelder destaca a importância de Freire para o ensino-aprendizagem: “para que efetivamente o aluno aprenda, é preciso que os educadores considerem sua cultura, seu contexto, seus interesses e, a partir disso, estabeleçam um diálogo”, reflete.

6 textos que comprovam a importância de Paulo Freire na educação
Indicação de artigos e reportagens com especialistas que abordam a vida, o legado do patrono da educação brasileira, as críticas e recentes polêmicas em torno de sua obra.

Erundina: “Não se pensa em políticas de educação, apenas em coibir certas práticas”
Entrevista da deputada federal à Carta Capital em defesa de Paulo Freire. Na época em que foi prefeita de São Paulo (1989-1993), Luiza Erundina o nomeou secretário de Educação.

A luta política contra Paulo Freire, o educador “subversivo”
Artigo do jornal El País recua até 1964 para mostrar como o método revolucionário de alfabetização do educador afetava o processo eleitoral e ameaçava a dominação conservadora.

Paulo Freire e o desafio da educação
Especial do Dia dos Professores do programa Bom para Todos, da TVT, que trouxe convidados para falar sobre os desafios do magistério e o legado de Paulo Freire para a educação brasileira.

O reconhecimento distorcido de Paulo Freire
Em entrevista ao Observatório do Terceiro Setor, Alexandre Isaac, assessor de relações institucionais do Cenpec, reforça a importância da prática freireana e o porquê de sua deslegitimação constante.

A forma freiriana de aprender
Entrevista do ex-ministro Renato Janine Ribeiro à Rádio USP, comentando a importância do legado de Paulo Freire: “É óbvio que você vai dar muito mais sentido aquilo que você convive, que você conhece, do que aquilo que é totalmente distante de você”, afirma.


Veja também

Paulo Freire Contemporâneo (2006): documentário dirigido por Moacir Gadotti trata das primeiras experiências de alfabetização e de educação popular desenvolvidas pelo educador.