Infâncias na escola: brincar, socializar, fazer arte, reconciliar valores Infâncias na escola: lugar para brincar, socializar, fazer arte, reconciliar valores

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Infâncias na escola: brincar, socializar, fazer arte, reconciliar valores

Participe da Semana da Infância e Cultura da Paz e saiba quais práticas escolares podem ser prioritárias para atenuar as privações e os impactos causados pela pandemia nas crianças.
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Por Stephanie Kim Abe

O Dia das Crianças (dia 12/10) foi celebrado ontem, mas ainda é possível comemorá-lo. Até o dia 17 de outubro, ocorre a Semana da Infância e Cultura da Paz (SPAZ) por todo o país, com atividades gratuitas. Promovida pela Aliança pela Infância, o evento busca mobilizar organizações, escolas, comunidades, ativistas, famílias sobre a importância do brincar e da infância na perspectiva da cultura de paz e da não violência. 

Para participar, é só executar alguma ação vinculada ao tema Somos Sol e Natureza, registrar a atividade em textos, fotos ou vídeos e marcar a Aliança pela Infância nas redes sociais, com as hashtags #spaz2021 e #SomosSoleNatureza.

Ana Rosa Picanço Moreira, professora adjunta da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Juiz (UFJF) e membro do núcleo da Aliança pela Infância de Juiz de Fora (MG), explica que, mais importante do que pensar as atividades e propostas educativas, é preciso dar prioridade para valores:

Foto: arquivo pessoal

Essa Semana é um momento que trazemos para refletir sobre a importância da relação entre adultos e crianças e de vivenciar a cultura de paz cotidianamente, por meio do respeito, da empatia, da tolerância, da escuta atenta. Isso significa olhar para as crianças como seres de direitos e ter atitudes respeitosas para com elas que potencializam as infâncias”.

Ana Rosa Picanço Moreira


Contato com a natureza

O tema Somos Sol e Natureza do evento dá centralidade ao papel do contato com o ambiente natural no desenvolvimento das crianças e dos bebês. A professora Ana explica:

Temos uma tendência a segmentar os espaços, levantar muros, colocar grama artificial e nos afastar do mundo natural, das folhas, da terra, da água. E quanto mais a gente tem as crianças tendo contato com esses elementos, mais elas vão respeitar a natureza e, enquanto pessoas, também se entender como parte da natureza.”

Ana Rosa Picanço Moreira

A especialista lembra que, nesse período de pandemia, as crianças ficaram mais confinadas dentro de casa, fechadas em espaços muitas vezes pequenos, isoladas do convívio com os pares. Nesse sentido, ela acredita que as escolas podem e devem olhar para as suas áreas externas e explorar todas as suas potencialidades:

Pátios e outras áreas externas têm sido muito negligenciadas, usadas esporadicamente. Precisamos investir muito nelas, e pensa-las como ambientes de desenvolvimento infantil e de aprendizado. Não no sentido de trazer a sala de aula para o lado de fora, mas de explorar a riqueza desse ambiente: a ventilação, a luminosidade, a vegetação. Pensando formas diferenciadas de brincadeiras e interações, toda essa natureza pode contribuir para o desenvolvimento das crianças”.

Ana Rosa Picanço Moreira

Conheça o documentário que discute o resgate da natureza para infâncias urbanas


Conhecer o corpo e interagir com os pares

Joyce M. Rosset, mestre em Educação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e especialista em educação infantil, também vê com preocupação os impactos do período de distanciamento social nas crianças. Ela conta que tem ouvido muitos relatos de professores(as) para os quais dá formações sobre como as crianças têm voltado às escolas com uma questão corporal mais veemente:

Foto: arquivo pessoal

Ao ficar em casa, sair pouco, elas tiveram poucas oportunidades para exercitar os seus corpos. Por isso acho importante que as escolas trabalhem atividades como saltar, correr, pular, ultrapassar pequenos percursos com desafios mais finos… Enfim, atividades que deem oportunidade para as crianças se movimentarem e recuperarem o que ficou para trás.”

Joyce M. Rosset

Essas propostas não são nada novas, já que fazem parte do cotidiano da educação infantil, principalmente pelo seu foco no desenvolvimento integral das crianças e dos bebês. Muito se fala em como as crianças deixaram de aprender na pandemia com o ensino remoto, mas é importante frisar que esse aprendizado vai além da dimensão cognitiva. “Devemos pensar as crianças em sua totalidade, ou seja, na sua inteireza. Dimensão cognitiva, motora, social, emocional, simbólica”, explica Joyce.

Para a professora, um dos aspectos mais afetados com as escolas fechadas foi justamente o social:

Na nossa sociedade, o número de crianças por família tem diminuído. Às vezes, a escola é o lugar de referência para fazer as interações e ter encontros. A gente sabe que nem todos os bairros ou comunidades têm um espaço para o brincar coletivo, e a escola e a creche acabam sendo esses espaços privilegiados. São nelas que as crianças têm oportunidade de se encontrar, ao mesmo tempo, com semelhantes e diferentes. E essa diversidade de crianças de diferentes contextos, classes sociais e histórias enriquece muito o repertório subjetivo das crianças. Ao terem essa interação comprometida, certamente tivemos prejuízos no seu desenvolvimento integral.”

Joyce M. Rosset


Brincar e fazer arte

Se as crianças aprendem o mundo com o corpo, uma das formas muito exploradas na educação infantil de trazer toda essa potência e que é estimulada por Joyce é a arte. Nesse sentido, a especialista acredita que as(os) educadoras(es) devem ter mais contato com essa linguagem, para que possam ter um outro olhar e sensibilidade para a experiência das crianças:

Em geral, no Brasil, professoras não convivem com a arte, menos ainda com a arte contemporânea. Quando a gente trabalha essa questão com as educadoras, elas conquistam não só repertório para trabalhar como uma compreensão maior da experimentação artística para as crianças pequenas – que tem a ver com a arte como um grande instrumental para elas expressarem sentimentos e emoções, se colocarem no mundo, elaborarem narrativas.”

Joyce M. Rosset

Além disso, ela acredita que a arte e a brincadeira estão ligadas e acabam sendo algumas das linguagens lúdicas que mostram o interesse da criança pelo mundo. “Por isso esse ambiente de brincadeiras precisa ser favorecido, permitido, valorizado o tempo todo. Se a gente corta isso, é como se a gente tirasse uma parte da essência da infância”, reforça.

Oficinas de arte no Portal Cenpec

No Portal Cenpec, é possível encontrar uma série nova de 12 oficinas de arte, baseadas nos Encontros de Estudos em Arte-educação e Experiências Híbridas na Formação de Educadores da Infância. Elas foram publicadas originalmente no site Território de Formação em Arte, do Impaes — Instituto Minidi Pedroso de Arte e Educação Social, em parceria com o Cenpec.

Veja algumas abaixo:


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