Dimensões do letramento digital

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Dimensões do letramento digital

Richard Romancini
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Nossa sociedade está vendo nascer um novo modelo de analfabetismo: o digital. Ele é marcado pela impossibilidade de usar um computador para ler, escrever ou realizar tarefas simples” (Roger Chartier, em entrevista à revista Nova Escola, maio de 2013).

A afirmação é útil para introduzir a ideia de que o letramento digital envolve compreensões variadas e, até certo ponto, complementares da mesma condição. Chartier aponta, assim, para a etapa mais básica do letramento digital: a possibilidade e a capacidade de utilizar o computador. 

A possibilidade implica o próprio acesso aos equipamentos, algo que, embora hoje pareça mais facilitado, não é uma realidade em todos os lugares, até mesmo em uma mesma localidade no Brasil. Nesse sentido, a escola atuou e continua a atuar como uma instância importante para democratizar o uso do computador e também da internet. 

Dar acesso, porém, não basta. Em primeiro lugar, é preciso um aprendizado para o uso competente. Utilizar o mouse, entender a função das teclas “Ctrl” ou “Shift”, criar arquivos digitais, saber ligar e desligar o computador, entre outras ações, são tarefas menos triviais do que acreditamos ser, depois que as aprendemos. Uma boa analogia é com andar de bicicleta ou dirigir um carro: boa parte das ações é feita de maneira automática, sem muita reflexão. Mas não no início.

Há pouco encontrei o material do curso Introdução à educação digital, oferecido pelo Ministério da Educação (MEC) sobre educação digital e deparei com a figura abaixo (que ensina diferentes maneiras de utilizar o mouse). Tendo trabalhado com professores em formações on-line em educação a distância (EAD), louvei a iniciativa de oferecer formalmente conhecimentos básicos desse tipo, como uma etapa para nivelar as habilidades digitais dos educandos. Ninguém nasce sabendo, e pressupor que todos saibam algo pode ser um erro, ainda que o aprendizado mais simples muitas vezes ocorra de maneira informal ou numa prática em contexto (como parece ser o caso dos jovens hoje em dia). 

Fonte: Introdução à educação digital (MEC, 2008).

Porém, apesar da importância dessa dimensão do letramento digital, é possível concordar com Paul Gilster (apud BAWDEN, 2008, p. 18), ao dizer que esse letramento tem mais relação com “manejar ideias, não os comandos do teclado do computador”. Gilster foi um dos primeiros autores a usar o termo “letramento digital” (digital literacy, em inglês), num livro de 1997 com esse título. O pesquisador teve o mérito de apontar características mais elaboradas para a noção de letramento digital. É nesse sentido que Colin Lankshear e Michele Knobel (2006) fazem uma distinção entre uma definição conceitual do letramento digital e outra baseada em padrões operacionais. 

Essa última está relacionada ao conhecimento mais elementar, ao qual aludi no início deste texto, e pode até ser mensurada por testes do quanto alguém conhece determinadas informações (o que significa um bit, o que é disco rígido etc.), sabe executar certas tarefas e é capaz de desempenhar ações relacionadas com práticas e com dispositivos digitais. Muitos esforços, no Brasil e em outros países, foram feitos para articular a questão do acesso e dessa formação mais simples, em programas de alfabetização digital, com ou sem o envolvimento das escolas. Com a popularização da internet, o conhecimento das características da rede e seu uso passaram a integrar os programas. Ao mesmo tempo, ampliaram-se as habilidades básicas esperadas, por exemplo, saber usar um buscador da internet ou criar uma conta de e-mail. 

O conhecimento operacional, envolvendo competências técnicas (que alguns autores chamam de “letramento em TIC”), é útil; no entanto, relaciona-se mais com as habilidades básicas do que com um letramento crítico e potencialmente criativo. É nessa perspectiva que as definições conceituais do letramento digital são importantes. Como discute Bawden (2008), uma das perspectivas iniciais, surgida já no final da década de 1980, teve influência dos bibliotecários que associaram os termos “letramento digital” e “letramento informacional”. O foco, então, dirigiu-se para as capacidades de encontrar, organizar, avaliar e usar a informação (no âmbito digital), para elaborar sínteses e criações culturais. A proposta de Gilster também vai nessa direção. 

Em grande medida, essa discussão foi influenciada pelos estudos do letramento tradicional, ou analógico, porém, reconhecendo-se as especificidades da leitura e da escrita no mundo digital, como a hipertextualidade. Nesse debate, alguns autores salientavam que o letramento digital correspondia, em primeiro lugar, a habilidades para o bem viver na sociedade atual, não sendo necessariamente associado com a educação formal. No entanto, como essas competências de crítica e avaliação são tão centrais no mundo contemporâneo, muitos estudiosos defendem a relevância da formação escolar, como Umberto Eco, que afirmou em uma entrevista de 2014 que: “No futuro, a educação deverá ensinar a comparar sites da web”. 

Outro desenvolvimento conceitual, mais recente, fundamentado na teoria sociocultural da aprendizagem, é a noção de letramentos digitais (no plural), criada por Lankshear e Knobel (2006, 2008). Nessa ótica, os letramentos são vistos como práticas sociais contextualizadas, o que coloca várias questões interessantes de um ponto de vista educacional. Retomarei e descreverei em mais detalhes essa tendência em outra ocasião. 

Referências bibliográficas:
BAWDEN, David. “Origins and Concepts of Digital Literacy”. In: LANKSHEAR, Colin; KNOBEL, Michele (Ed.). Digital Literacies: Concepts, Policies and Practices. New York: Peter Lang, 2008, p. 17-32. 
LANKSHEAR, Colin; KNOBEL, Michele. “Digital Literacies: Policy, Pedagogy and Research Considerations for Education”. Digital Kompetanse: Nordic Journal of Digital Literacy, v. 1, n. 1, p. 12-24, 2006. Disponível em: <www.uio.no/studier/emner/matnat/ifi/INF4280/h08/Lankshear2006DigitalLiteracy.pdf>. 
LANKSHEAR, Colin; KNOBEL, Michele (Ed.). Digital Literacies: Concepts, Policies and Practices. New York: Peter Lang, 2008. p. 1-16. 


Richard Romancini

Jornalista, professor universitário e doutor em Ciências da Comunicação pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP). É pesquisador do Núcleo de Pesquisa do Mercado de Trabalho em Comunicações e Artes (Nupem-ECA/USP) e atua na área de Comunicação e Educação, no Núcleo de Comunicação e Educação da Universidade de São Paulo (NCE/USP).