Como a escola pode atenuar as desigualdades e melhorar a aprendizagem Como a escola pode atenuar as desigualdades e melhorar o desempenho dos(as) estudantes

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Como a escola pode atenuar as desigualdades e melhorar a aprendizagem

À luz da obra do filósofo Juan Casassus, saiba como é a escola que favorece a aprendizagem e como diferentes projetos do Cenpec procuram apoiar gestão e educadores(as) para garanti-la
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Por Stephanie Kim Abe

“Todos podemos aprender”. Uma frase dessa escrita na parede da escola pode fazer uma grande diferença no desempenho escolar das(dos) estudantes. Ela é um dos elementos que o filósofo Juan Casassus visualiza em uma escola que favorece uma melhor aprendizagem dos(as) alunos(as). 

Claro que por si só essa frase não é promotora de mudança. Ela deve ser, na verdade, um retrato de uma escola que respeita o(a) estudante, valoriza as suas diferenças e acolhe as suas dificuldades e seus erros, cujos(as) educadores(as) entendem o papel que desempenham e a influência que a sua prática tem na evolução da aprendizagem das(dos) alunas(os), e que praticam processos avaliativos de caráter formativo. 

É essa combinação de “clima emocional existente na aula”, percepção e responsabilização docente e gestão de práticas pedagógicas que geram um impacto positivo mais notável no desempenho estudantil – e isso é comprovado por Casassus por meio da análise de avaliações de rendimento em Linguagem e Matemática: 

A soma dos pontos que resultam destes três processos articulados adequadamente, implica um avanço de 159 pontos (mais de três desvios-padrão)”

(CASASSUS, 2007, p. 149)

Achados baseados em evidências

É no fato de basear os seus achados em evidências que se encontra a força da obra A escola e a desigualdade (2007) de Juan Casassus. Nela, o especialista do Escritório Regional de Educação para América Latina e Caribe da Unesco descreve parte dos resultados do Primeiro Estudo Comparativo em Linguagem, Matemática e Fatores Associados para Alunos de Terceira e Quarta Séries do Ensino Fundamental (Peic), conduzido por ele entre 1995 e 2000 em 14 países da América Latina (Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Costa Rica, Cuba, Equador, Honduras, México, Paraguai, Peru, República Dominicana e Venezuela). 

Bastante abrangente, o estudo buscou entender quais os fatores que mais influenciam no sucesso escolar dos(as) aluno(as), sejam eles internos à escola ou externos. Para isso, Casassus e sua equipe fizeram uma análise comparativa dos currículos escolares dos países participantes, aplicaram avaliações de rendimento de Linguagem e Matemática e questionários e analisaram esses resultados a partir da criação de um modelo que permitiu relacionar os diferentes fatores e atores do processo educativo com o desempenho educacional. Foram mais de 54 mil estudantes da terceira e quarta séries do ensino fundamental participantes, além de mais de 41 mil pais ou responsáveis, 3,6 mil professores(as) e 3 mil diretores(as).

Como explica Érica Catalani, coordenadora de projetos no Cenpec:

Foto: arquivo pessoal

Na obra, o autor faz uma retomada histórica das políticas públicas e mostra que, a partir da década de 90, as políticas que começam a se preocupar com a desigualdade na educação pecaram justamente porque não se basearam em evidências. Elas, muitas vezes, se baseavam em programas propostos para outros continentes, que não tinham a mesma realidade ou histórico dos países da América Latina.”

Érica Catalani

Fernando Isao Kawahara, técnico de programas e projetos do Cenpec, também destaca a importância do estudo conseguir quantificar aspectos que normalmente são difíceis de mensurar. Por isso, a obra é objeto de estudo nas formações do Programa Parceria pela Valorização da Educação (PVE), uma iniciativa do Instituto Votorantim com parceria técnica do Cenpec e outras instituições:

Foto: arquivo pessoal

As formadoras do Programa acharam o livro muito adequado, porque dá contornos numéricos para os resultados do estudo e nos dá um certo parâmetro, que nos ajuda a pensar sobre o dia a dia dos professores, dos gestores, das equipes técnicas. É lógico que o aspecto quantitativo não é o mais importante, mas quando trabalhamos com equipes de gestão, é preciso pensar de forma abrangente e lidar com o aspecto numérico da atuação. O quantitativo acaba dando dicas importantes para atingir a qualidade que queremos alcançar.”

Fernando Isao Kawahara

O que influencia na aprendizagem

Desde a década de 60, com o Relatório Coleman (1966), sabe-se que o nível socioeconômico dos(as) estudantes tem o maior impacto nos resultados de avaliações de rendimento. Esse é considerado um fator externo à escola que influência no aprendizado do alunado, assim como o “capital cultural” das famílias (conceito de Bourdieu).

Mas o estudo de Casassus confronta essa linha de pensamento e traz duas conclusões muito importantes que passam um recado direto quanto ao papel da escola no enfrentamento às desigualdades: a instituição de ensino pode sim atenuar o impacto negativo do contexto sociocultural dos(as) alunos(as) sobre a educação, produzindo equidade, e são os processos internos dela que tem maior influência no resultado de desempenho estudantil.

Por exemplo, a análise de Casassus verificou que para cada um novo item de material didático disponível aumentam-se 2 pontos na nota da prova de Linguagem. Ou seja, se há mais materiais disponíveis para os(as) estudantes e os(as) professores(as) trabalharem, maiores as possibilidades de aprendizagem e de recursos para as práticas pedagógicas.

Ele também verificou a importância da formação e atuação dos(as) docentes em sala de aula. A cada ano adicional na formação inicial docente, os(as) alunos(as) aumentam 2,44 pontos em Linguagem e 2,06 em Matemática. Já em termos salariais, o estudo conclui que o que importa é o “grau de satisfação do docente”. Quando eles(as) estão satisfeitos(as), há um aumento de cerca de 8 a 10 pontos no rendimento estudantil.

O ganhar bem que o professor precisa deve ser suficiente para que ele não dependa de outros trabalhos, não tenha que se dividir. Vimos isso acontecer no PVE com um técnico que fazia um trabalho ótimo com o grupo de jovens do Programa. Ele prestou um outro concurso público e hoje tem que dedicar o seu tempo a dois trabalhos, o que tem gerado um certo problema. Fosse o salário dele suficiente para viver apenas da docência, o seu trabalho seria muito melhor.”

Fernando Isao Kawahara

Descubra aqui qual a escolaridade dos(as) docentes da sua rede de ensino


A importância dos processos internos

Para Casassus, é principalmente nas interações entre os diferentes atores envolvidos no processo de aprendizagem que estão os efeitos positivos e negativos no sucesso estudantil. Isso significa, por exemplo, que os insumos de uma escola e a aplicação de investimentos não geram tantos resultados quanto a forma como eles são utilizados por estudantes, educadores(as), familiares e gestão escolar.

Um dos principais é o que ele chama de “clima emocional” na escola, que precisa ser favorável à aprendizagem. Para Érica, isso significa olhar para as questões emocionais individuais de estudantes e da comunidade escolar no geral, mas principalmente instituir processos de escuta e gestão democrática, como conselhos escolares e assembleias.

Uma escola onde as crianças se sintam bem, sintam-se acolhidas, sintam-se capazes de aprender, tenham sua aprendizagem e seus conhecimentos respeitados.”

Érica Catalani

Outros processos internos que ele destaca são a capacidade dos(as) educadores(as) se responsabilizarem pelos(as) resultados dos estudantes, as avaliações realizadas de forma sistemática e a valorização da diversidade dos(as) estudantes nas turmas.

Como explica Érica:

Os altos desempenhos são sempre relacionados às equipes que entendem que eles são também de responsabilidade da escola, que todo aluno é capaz de aprender, e que não atribuem o baixo resultado à uma situação própria do estudante, como a sua condição familiar. O desempenho maior está relacionado à uma prática pedagógica que não contempla nenhuma forma de segregação, que respeita a diversidade, e que adota uma postura de avaliação para a aprendizagem e não de caráter classificatório.”

Érica Catalani

O efeito combinado da avaliação sistemática e do aproveitamento da diversidade dos alunos na turma se traduz em aumentos nas notas de cerca de 16 pontos que, somados aos aumentos obtidos pelo clima da aula, podem alcançar até 108 a 131 pontos em Linguagem e Matemática, respectivamente, sendo estas as variações mais importantes encontradas no Estudo.”

(CASASSUS, 2007, p. 127)

Incidência sobre os projetos do Cenpec

A preocupação com o acompanhamento do processo de aprendizagem dos(as) estudantes está presente em muitos projetos do Cenpec.

Érica, que é coordenadora do Programa Apoio Pedagógico Complementar, diz que:

É fundamental investigar quais são os mecanismos produtores de desigualdades na escola e compreender sua incidência na aprendizagem dos estudantes. Instigamos educadores(as) a ajustar esse olhar investigativo para sua prática.”

Érica Catalani

Saiba mais sobre o Painel de desigualdades educacionais no Brasil

No PVE, além de trabalhar diretamente a formação de técnicos(as) de secretarias municipais, coordenadores(as) pedagógicos(as) e diretores(as) escolares com a obra de Casassus, esse processo de acompanhamento da aprendizagem é foco das formações para que se possa tanto qualificar a atuação dos(as) professores(as) como para pensar políticas públicas que orientem as práticas pedagógicas.

Para isso, trabalhamos com dados confiáveis sobre o desenvolvimento da aprendizagem dos alunos e a formação continuada dos coordenadores pedagógicos e professores, para que possam trabalhar em sala de aula a partir da realidade.”

Fernando Isao Kawahara

Para Ana Cecília Arruda, coordenadora de programas e projetos do Cenpec, o Prêmio Respostas para o Amanhã demonstra bem como a percepção do(a) professor(a) de que a sua prática está contribuindo para o sucesso escolar do(a) aluno(a) influencia muito não só no desempenho da turma, mas na própria prática docente.

O Prêmio – iniciativa brasileira do Solve for Tomorrow, programa global da Samsung, que, no Brasil, tem coordenação geral do Cenpec – incentiva educadores(as) da rede pública a construir um projeto junto com um grupo de alunos(as) para resolver um problema real, utilizando a abordagem STEM (sigla em inglês para Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática).

Em uma pesquisa de avaliação de percepção realizada pela Diretoria de Pesquisa e Avaliação do Cenpec em dezembro de 2020 com participantes das cinco edições, identificou-se que a participação no evento trouxe, para educadores(as) e estudantes:

  • reconhecimento e valorização acadêmica pessoal e profissional;
  • crença em si mesma(o);- postura nova em relação ao conhecimento e 
  • melhoria da aprendizagem por meio de um ensino baseado na articulação teoria e prática.

Ana Cecília explica que, no Cenpec, o processo de premiação, que seria visto como de seleção e exclusão, é usado como uma estratégia formativa. Por ser aberto para todas as escolas públicas brasileiras, o Prêmio Respostas para o Amanhã valoriza e incentiva a diversidade e permite que qualquer professor(a) interessado(a) se inscreva e aprimore suas práticas.

Foto: arquivo pessoal

Esses processos de premiação acabam contaminando o ambiente escolar. Quem é premiado é o professor e a sua equipe, mas há um reconhecimento por parte de toda a comunidade escolar. O professor se sente valorizado e mais motivado – inclusive para promover processos de aprendizagem de qualidade – e o aluno vê significado no conhecimento que adquire. Tivemos relatos de escolas que aumentaram o número de matrículas no ano seguinte em que ganharam o Prêmio. São reverberações do Prêmio no clima escolar que favorecem a aprendizagem.”

Ana Cecília Arruda

Referência bibliográfica
CASASSUS, Juan. A escola e a desigualdade. Brasília: Líber Libro/UNESCO, 2007.


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