Cinema: janelas abertas à educação

-

Cinema: janelas abertas à educação

Entrevista com a educomunicadora Claudia Mogadouro sobre a relação entre cinema e educação
Imprimir

Desde que a primeira obra cinematográfica de que se tem notícia veio a público, em 1895, no Salão Grand Café, em Paris, causando comoção nos cerca de 30 presentes, o mundo nunca mais foi o mesmo. A chamada sétima arte cria narrativas, registra momentos históricos, promove reflexões, forma e divide opiniões. Ao longo de mais de um século, o cinema conquistou cada vez mais fãs e criou uma indústria que movimenta bilhões, além de marcar corações e mentes com suas histórias.

Com o advento das novas tecnologias de informação e comunicação, a linguagem audiovisual se tornou ainda mais presente na vida de crianças, jovens e adultos das mais diversas origens. Para a educação, o cinema possibilita construir inúmeras interpretações, vivências, ideias, diálogos e aprendizagens enriquecedoras, transformando o ambiente e a cultura escolar. Mas como a escola pode trabalhar essa manifestação cultural? “É interessante o cinema dialogar com o currículo, desde que não se exclua a dimensão da arte”, defende a especialista Claudia Mogadouro.

Para refletir sobre as possibilidades de diálogo entre cinema e educação, conversamos com essa educomunicadora e historiadora, com mestrado e doutorado na área de educomunicação pela Escola de Comunicação e Artes (ECA-USP). Claudia é professora em cursos de pós-graduação na mesma instituição, formadora audiovisual de professores da rede municipal de São Paulo e pesquisadora do Núcleo de Comunicação e Educação da USP. Claudia também é criadora e coordenadora do Grupo Cinema Paradiso, e integrante do Coletivo Janela Aberta – Cinema & Educação. Leia a entrevista a seguir.


Portal CENPEC: Pode contar um pouco sua trajetória com o cinema e a educação? 

Claudia Mogadouro: Eu me formei em História e tinha intenção de ser professora, mas a vida me levou para um emprego burocrático e não conseguia equilibrar as obrigações de forma a ter algum crescimento intelectual em minha vida. Sentia que a vida cotidiana de uma pessoa “normal” (mulher, trabalhadora, mãe, moradora de São Paulo) era um convite à alienação, isto é, o mais provável é que você viva no piloto automático e praticamente não tenha tempo para um crescimento intelectual e para a reflexão. Então, resolvi criar um grupo que amenizasse essa frustração. Em 1995, amigos e amigas que também sentiam vontade de mais atividades culturais em suas vidas nos juntamos e formamos um grupo informal de debates de filmes. Meses depois, batizamos o grupo de Cinema Paradiso, que existe até hoje e se mantém aberto, renovando seus participantes. 

Nosso objetivo sempre foi refletir, trocar ideias e perceber opiniões diferentes das nossas. Se pensarmos na pedagogia de Paulo Freire, o filme é o “tema gerador” para esse encontro de amigos. 

Bate-papo com Laís Bondanzky em celebração dos 18 anos do grupo Cinema Paradiso, no Cinesesc (São Paulo), em 2013
Celebração dos 18 anos do Grupo Cinema Paradiso, no Cinesesc (São Paulo), em 2013, com a exibição de documentário e bate-papo com Laís Bodanzky e Luiz Bolognesi. Reprodução

A dinâmica do grupo é bem descomplicada: escolhemos um filme em cartaz nos cinemas, cada um em seu horário mais viável, e nos reunimos para discutir a obra. Cada um diz o que sentiu com o filme, que “viagens” ele lhe possibilitou. Como cada um tem um repertório bem diferente do outro, os olhares sobre a mesma obra se complementam, convergem ou divergem. Nunca se buscou consenso. Nosso objetivo sempre foi refletir, trocar ideias e perceber opiniões diferentes das nossas. Se pensarmos na pedagogia de Paulo Freire, o filme é o “tema gerador” para esse encontro de amigos.

Eu descobri que já aplicávamos princípios desse campo do saber [educomunicação] no Grupo Cinema Paradiso, porque é um espaço horizontal (não hierárquico), democrático, que produz o conhecimento por meio do diálogo e de uma linguagem artística.

O exercício de reflexão nesses encontros me encorajou a dar continuidade à vida acadêmica. No ano de 2000, fiz uma especialização na ECA em gestão de processos comunicacionais. Nesta época, começou-se a falar em educomunicação e eu descobri que já aplicávamos princípios desse campo do saber no Grupo Cinema Paradiso, porque é um espaço horizontal (não hierárquico), democrático, que produz o conhecimento por meio do diálogo e de uma linguagem artística. Quando tornei-me especialista, em 2001, tomei coragem e saí do emprego, passando a me dedicar em tempo integral à vida acadêmica (sempre na ECA-USP). Em 2002, ingressei no mestrado, realizando uma pesquisa com telenovela e educação.

Sessão de cinema com mediação de debates. Sala em formato de arena, com plateia e pessoas no palco
Mediação de debates, atividade do coletivo Janela Aberta. Reprodução

Essa pesquisa evidenciou a necessidade de formação audiovisual de professores, que foi o foco da minha pesquisa de doutorado, na perspectiva da educomunicação, concluída em 2011. Minha trajetória acadêmica tem um vínculo claro com o grupo de discussão de filmes, que até hoje é minha principal fonte de nutrição cultural. Também fui professora universitária em pedagogia, consultora pedagógica do projeto Tela Brasil (coordenado pelos cineastas Laís Bodanzky e Luiz Bolognesi) e, desde 2014, minha principal atividade tem sido a formação audiovisual dos professores da rede municipal de São Paulo, ministrando cursos de cinema em todas as diretorias regionais de ensino nesta megacidade. Em parceria com o Cineduc (a entidade mais antiga de Cinema e Educação do Brasil, situada no Rio de Janeiro) criei o Coletivo Janela Aberta – Cinema & Educação, com objetivo de organizar as formações de professores e potencializar essa área de atuação, que ainda tem muito que caminhar.

Há quanto tempo se diz que a escola é arcaica e que os meios de comunicação educam mais do que a escola?

Portal CENPEC: Quais mudanças a educomunicação propõe e promove na educação formal? Pode falar um pouco do conceito de ecossistema comunicativo?

Claudia Mogadouro: A educomunicação traz uma perspectiva voltada para uma educação transformadora. Os campos da comunicação e da educação são muito diferentes entre si, mas o diálogo entre eles é fundamental, porque ambos são formadores dos indivíduos. Há quanto tempo se diz que a escola é arcaica e que os meios de comunicação educam mais do que a escola? Em várias situações, vemos a oposição cultura escolar versus cultura midiática. Eu me lembro desse debate quando cursava a graduação nos anos 1980. Enquanto se enxergar esses dois campos como rivais, a educação só tem a perder, porque a mídia é muito mais presente na vida das pessoas. Eu não estou dizendo que uma substitui a outra, muito pelo contrário, elas têm lógicas completamente diferentes. Mas os dois campos têm que conversar.

É preciso romper o autoritarismo que sempre esteve presente na cultura escolar, desde que os jesuítas chegaram ao Brasil.

Ainda não existem disciplinas na formação inicial de educadores que discuta a cultura midiática. E na formação de comunicadores também é mínimo o debate sobre a educação e sobre as responsabilidades sociais das áreas da comunicação. A educomunicação ocupa esse espaço muito necessário. Ainda há quem pense que esse campo é um “adereço” da escola, para tornar as aulas mais divertidas. Longe disso. Essa perspectiva educacional vem marcando presença em projetos para transformar por dentro a educação. Eu diria até revolucionar, quebrar paradigmas.

É preciso romper o autoritarismo que sempre esteve presente na cultura escolar, desde que os jesuítas chegaram ao Brasil. É preciso de verdade dar voz aos estudantes, sem diminuir a responsabilidade do professor, que precisa ser um ótimo mediador, saber sintetizar o conhecimento acumulado pela humanidade e relacionar com o conhecimento que se produz hoje em tantos canais de comunicação existentes.

O termo “ecossistema comunicativo” foi emprestado da biologia para se discutir a importância de um equilíbrio nos fluxos de comunicação do ambiente escolar e no envolvimento de todos os agentes que estão presentes no processo educativo. Um pequeno exemplo: um professor pode ser altamente criativo, defensor de projetos totalmente dialógicos, mas, se a escola onde ele atua for um ambiente autoritário, seu esforço será quase inócuo. O poema “Tecendo a manhã”, de João Cabral de Mello Neto, trata desse tema: “um galo sozinho não tece uma manhã”. A ambiência democrática é fundamental para que os projetos educomunicativos ganhem vida.

Qual a utilidade da literatura? Ou da música? A arte educa para a sensibilidade, não precisa ter sentido utilitário.

Portal CENPEC: Como o audiovisual, especialmente o cinema, pode contribuir para a educação?

Cena do filme "Tempos modernos", de Charles Chaplin. Operário em engrenagem gigante
Charles Chaplin em Tempos modernos (1936).
Reprodução

Claudia Mogadouro: Tenho discutido com professores algumas possibilidades do cinema no processo educativo. Vou começar pela questão mais importante, no meu ponto de vista: a escola tem que olhar para o cinema como obra de arte. Como nenhuma outra instituição, a escola tem o papel de transmitir a cultura construída pela humanidade, da qual o cinema faz parte, assim como a literatura, a música, as artes visuais, o teatro. Mas ainda se pensa o cinema como “ferramenta”, como “material útil para ilustrar conteúdos”. Qual a utilidade da literatura? Ou da música? A arte educa para a sensibilidade, não precisa ter sentido utilitário. Uma vez que se considera importante conhecer as obras de Beethoven, Tom Jobim, Miró e Lima Barreto, tem de se conhecer também Chaplin, Truffaut, Walter Salles, Laís Bodanzky, porque a arte é humanizadora. Construiremos uma sociedade mais bela, mais igualitária e humanista se pudermos conhecer e aprender a desfrutar as obras de arte.

Conhecer as opções narrativas, os recursos técnicos para se contar a história deste ou daquele jeito possibilita o desenvolvimento de uma leitura crítica de toda a cultura audiovisual que nos cerca.

A segunda possibilidade é se estudar a linguagem cinematográfica, que hoje podemos ampliar para linguagem audiovisual, lembrando que o cinema é a matriz da linguagem televisiva, da publicidade, da internet. Crianças, adolescentes, adultos, todos têm acesso a um imenso conteúdo audiovisual, mas poucos sabem analisar esse conteúdo e tomar posição sobre ele. Trata-se de um consumo quase automático. Conhecer as opções narrativas, os recursos técnicos para se contar a história deste ou daquele jeito possibilita o desenvolvimento de uma leitura crítica de toda a cultura audiovisual que nos cerca.

Dois jovens viajando em uma motocicleta
Cena de Diários de motocicleta (2004).
Reprodução

E a terceira possibilidade, que é a forma mais presente nas escolas, é estabelecer um diálogo do cinema com os outros componentes curriculares. Mas é preciso tomar cuidado para não reduzir o cinema a uma ilustração do tema da aula. Vou dar mais um exemplo: não vejo problema em se exibir Diários de motocicleta em uma aula de geografia em que se vai discutir relevo da América Latina, mas é interessante não descaracterizar o filme como obra de arte que ele é. Ainda que se faça o diálogo com o currículo, é preciso falar da direção, da trilha sonora, do roteiro, é preciso contemplá-la como obra de arte. E se essa professora de geografia conseguir se articular com o professor de história, de língua portuguesa, aí a experiência se enriquece muito. É importante trabalhar o filme em sua dimensão artística.

Educadores que querem exibir filmes como produção de conhecimento, com clara intencionalidade educativa, têm que enfrentar muitas resistências […] porque o cinema é visto como brincadeira.

Também há usos do cinema na escola que eu considero negativos. O cinema traz uma dicotomia: ao mesmo tempo que é um produto artístico, é também um produto mercadológico, resultado da grande indústria do entretenimento. Essa ambiguidade causa uma certa confusão. É muito comum que educadores – pensando o cinema apenas como entretenimento – o usem para descontração. Como muitas escolas ainda não conseguiram deixar de ser chatas, alguns educadores pensam no cinema para aliviar a sisudez, para deixar a escola mais divertida, criando as “sessões pipoca”. Educadores que querem exibir filmes como produção de conhecimento, com clara intencionalidade educativa, têm que enfrentar muitas resistências de gestores, de pais e às vezes até de alunos, porque o cinema é visto como brincadeira.

E utilizar o audiovisual para “tapar buraco”, no caso da falta de professores, é a pior das opções. Possivelmente, o uso do “remendo” para cobrir as lacunas do sistema educacional é a principal razão do cinema ainda não ter legitimidade na cultura escolar, como as outras linguagens artísticas.

O primeiro passo é envolver-se com a experiência, […] o controle da escola e a excessiva valorização da escrita não pode inibir e até bloquear a experiência estética.

Uma mulher e dois homens correndo em uma passarela
Cena de Jules e Jim, de François Truffaut (1962).
Reprodução

Outro uso comum, que considero equivocado, é inserir no currículo o cinema sem compreender seu potencial transformador, tentando “controlá-lo” na perspectiva da escola conservadora. Então, antes de exibir um filme o professor ou a professora deixam claro que se trata de uma atividade séria, pedem que os estudantes anotem suas observações, porque, em seguida, farão uma redação. Isso, no meu modo de pensar, é matar a possibilidade da fruição.

O cinema é altamente polissêmico, permite muitas abordagens, interpretações diferentes e até opostas. O primeiro passo é envolver-se com a experiência, que até pode se transformar em produção de texto depois (se o estudante gostar de escrever), mas o controle da escola e a excessiva valorização da escrita não pode inibir e até bloquear a experiência estética.

Portal CENPEC: No seu artigo “O cinema reinventando a escola – Um diálogo da educomunicação com o filme A invenção de Hugo Cabret“, você apresenta as seguintes perguntas: “Até que ponto o entretenimento é formador? Como é possível aprender se divertindo?”. Pode discorrer um pouco sobre essa dicotomia?

Rubem Alves sempre lembrava em suas crônicas as origens comuns das palavras saber e sabor. O conhecimento tem que ser saboroso, senão, não é digerido.

Pessoas à mesa saboreando pratos à luz de vela
Banquete em A festa de Babette (1987). Reprodução

Claudia Mogadouro: É importante discernir o que é aprender se divertindo e o que é promover ações divertidas para amenizar o lado desinteressante da cultura escolar. A escola tem que procurar ser sempre interessante, despertar a curiosidade dos estudantes, mostrar que a produção do conhecimento é prazerosa. Precisa também promover boas experiências culturais e o cinema é uma delas. Costumo perguntar por que há sessões pipoca quando se exibe um filme e normalmente nada se faz com essa experiência? É apenas um momento de deleite: cinema e pipoca. E por que não há pipoca na aula de ciências ou de geografia?

Ao distinguir “aula séria” e “cinema”, a própria escola está se rotulando como chata. Entendo, por um lado, que o desafio da escola é tornar lúdicas todas as suas ações. Lembro que Rubem Alves sempre lembrava em suas crônicas as origens comuns das palavras saber e sabor. O conhecimento tem que ser saboroso, senão, não é digerido. Por outro lado, para estar presente na escola, o cinema deve produzir conhecimento. Isso não quer dizer didatizar o filme ou promover lições de casa sobre a mensagem do filme. Até porque nunca existe “a” mensagem, são sempre muitas mensagens, já que a arte é altamente subjetiva e polissêmica. Se não houver uma forma criativa e apaixonante de o cinema estar presente na escola, ele pode até ser detestado pelos estudantes. 

Portal CENPEC: No mesmo artigo, você conta a trajetória histórica dos cineclubes, que se popularizaram nas décadas de 1950 e 60, ligados à ideia do cinema como formador cultural, e depois caíram em declínio após o golpe militar. Hoje, quais seriam os espaços e as possíveis contribuições para políticas culturais como essa, que promova a arte cinematográfica para além do entretenimento?

Pessoas em plenária de cineclubes
Plenária da federação de cineclubes. Acervo UFES/Tião Xará

Claudia Mogadouro: O cineclube, que é a exibição de um filme seguida de debate, surgiu na França e teve muita importância em mostrar que o cinema não era apenas entretenimento, mas poderia promover também o exercício de reflexão e da produção de conhecimento. Após a Segunda Guerra mundial, esse tipo de espaço tornou-se uma febre naquele país, que “exportou” essa febre muitos outros lugares.

No Brasil, especialmente a partir da segunda metade dos anos 1950, os cineclubes proliferaram em muitas cidades grandes e médias. Em sua maioria, eles existiam fora das instituições de ensino, mas era muito comum também que grêmios e centros acadêmicos promovessem sessões de cineclube. Além do debate após a sessão, os cineclubes se diferenciam dos cinemas comerciais por exibirem filmes clássicos e alternativos.

Atualmente, por muitas razões, os filmes são vistos mais no ambiente doméstico, as próprias salas de cinema diminuíram muito, além de ser uma opção cara. Mas, para minha alegria, tenho visto as escolas retomarem essa iniciativa, porque hoje muitas têm equipamentos e salas de projeção. Vejo também uma possibilidade da quebra da hierarquia escolar, porque os professores podem organizar cineclubes junto com os estudantes, além da comunidade escolar, em geral. Também estou vendo surgirem cineclubes de educadores, que buscam, por meio da discussão de filmes, um aprimoramento profissional e uma luz sobre dilemas contemporâneos. 

Portal CENPEC: Você defende que a escola e outros espaços educativos sejam um contraponto ao “bombardeio midiático” do cinema comercial. De que forma isso pode ser feito? Quais princípios e ações podem nortear esse trabalho? 

É preciso achar o caminho do meio e descobrir produções que conversem com o repertório dos alunos, mas que também tragam novidades. Os curta-metragens são excelentes opções…

Claudia Mogadouro: Os professores devem resistir à tentação de exibir o que “os alunos gostam”. Quem tem essa lógica é o mercado. Exibição de filmes na escola é completamente diferente da sessão da tarde. Por outro lado, também não é para ser um sofrimento. A escola tem que fazer sentido pra quem está estudando, por isso, é preciso conhecer o repertório dos estudantes para não chegar com algo totalmente estranho, que não faça sentido pra eles, ou que provoque uma experiência muito ruim. Isso vale para todos os conteúdos trabalhados na escola. Basta ler Paulo Freire para se entender a importância de as práticas e os conhecimentos escolares dialogarem com o repertório cultural e os saberes prévios dos estudantes.

O leque de opções para se escolher um filme é enorme. Não há porque se repetir as grandes produções, que já têm tanto espaço na mídia. A escola tem outro papel. É preciso achar o caminho do meio e descobrir produções que conversem com o repertório dos alunos, mas que também tragam novidades. Os curta-metragens são excelentes opções para se exibir produções diferentes da estética que eles estão acostumados, porque o estranhamento, que a obra de arte pode e deve provocar,  terá curta duração e deixará tempo para um bom debate.

Portal CENPEC: Quais são os principais desafios das escolas para explorar a linguagem audiovisual em seu processo educativo? É importante inserir o cinema no currículo escolar? 

Claudia Mogadouro: Ilustrar um conteúdo não é de todo ilegítimo, mas, na maior parte das vezes, considera-se o “texto” do cinema como material de apoio, assim como os livros didáticos (que são úteis mas precisam ser problematizados, não vistos cegamente como “verdade”). É interessante o cinema dialogar com o currículo, desde que não se exclua a dimensão da arte, sempre lembrando que é uma produção simbólica (independente de ser ficcional ou não), que foi produzida em um determinado contexto histórico, por determinados produtores que tinham (têm) interesses mercadológicos. O cinema pode ser usado como fonte de informação, mas não simplificado.

Outra possibilidade, pouco compreendida ainda, é o cinema como linguagem. Nesse sentido, é importante pensar as opções que os realizadores fizeram para escolher a fotografia, a luz, o cenário, o roteiro, o figurino, a dramaturgia. Esse conhecimento da linguagem (que os professores têm carência, pois raramente viram essa abordagem em sua formação inicial) auxilia muito no desenvolvimento da leitura crítica do audiovisual e da produção midiática como um todo.

Ilustração de mulher (feiticeira Karabá) africana e criança (Kiriku) em confronto
Kiriku e a feiticeira (1998). Reprodução

Uma terceira possibilidade é a o cinema como Arte (com A maiúsculo), como produção da cultura construída na humanidade. Se a literatura, a música, as artes visuais fazem parte do currículo que a escola deve transmitir, porque a cultura cinematográfica não é contemplada?

A Arte, sabemos, é altamente subjetiva, portanto, não é fácil de ser mensurada nem tem muito sentido dar nota para a compreensão de uma obra de arte. Da mesma forma, não tem muito sentido cobrar atividades, por exemplo, baseadas na experiência de se ver O garoto, de Chaplin, ou Kiriku, de Michell Ocelot. As experiências de fruição da arte devem ser respeitadas como tal, mas ainda vemos uma tentativa de controle por parte da cultura escolar, como se houvesse necessidade de se provar a “utilidade” de uma obra de arte.


Veja também:

No escurinho do cinema (minicontos de Jorge Miguel Marinho)

Um cineclube na comunidade (oficina)

Na Ponta do Lápis (edição traz entrevista com Amaranta César sobre documentário)

Tecnologias para o direito de comunicação e expressão (reportagem)