Ana Moser: o esporte no desenvolvimento integral

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Ana Moser: o esporte no desenvolvimento integral

Medalhista olímpica fala dos benefícios do esporte e por que é importante integrá-lo às práticas educativas. Artigo publicado originalmente em 2016, na plataforma Educação&Participação
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Por Ana Moser

Falar de esporte, de educação, de corpo e movimento. Muitos jargões e lugares comuns são largamente conhecidos e repetidos – alguns deles são mitos, outros verdades; porém, a maior verdade de todas é: o impacto do esporte no desenvolvimento integral de todas as diferentes crianças e jovens depende tanto da forma como é conduzido quanto do ambiente onde é realizado.

Esporte na Pré-história: pedra dos nadadores; pintura rupestre localizada no Egito e estimada em 10 mil anos. Fonte: Wikipedia.
Esporte na Pré-história: pedra dos nadadores; pintura rupestre localizada no Egito e estimada em 10 mil anos. Fonte: Wikipedia.

Esses são os princípios básicos e o ponto de partida para estruturar uma ação de esportes para crianças e jovens. Porque o esporte é um fenômeno cultural amplo, que envolve manifestações distintas entre si, como uma disputa olímpica realizada por atletas da elite esportiva e uma aula de educação física numa escola de ensino fundamental.

O que está envolvido num jogo do campeonato brasileiro de futebol é totalmente diferente do que acontece numa pelada entre amigos no fim de semana. Assim como um corredor profissional numa São Silvestre, na chegada em plena Avenida Paulista, pode até cruzar com um casal pedalando na faixa de ciclistas, mas eles estarão fazendo coisas que guardam pouca relação entre si.

Experimentação com esporte na Vila Olímpica Jornalista Ary de Carvalho, Rio de Janeiro
Experimentação com esporte na Vila Olímpica Jornalista Ary de Carvalho, Rio de Janeiro. Foto: Cieds/Jovens Urbanos (CENPEC Educação).

As diferentes manifestações esportivas apresentam diferentes objetivos e impactos esperados. A competição de elite objetiva resultado e a mais alta performance possível. O esporte como lazer e condicionamento físico tem como impacto saúde, convivência e qualidade de vida – e a atividade esportiva para crianças e jovens, na escola ou a partir da escola, tem o desafio de atender a todos, garantindo o direito previsto na legislação brasileira.

Costumo dizer que existe o esporte de cada um, de acordo com o perfil, a expectativa e os objetivos pessoais – aspectos que também se transformam a cada fase da vida. Para alcançar objetivos e resultados tão diferentes, temos que lançar mão da mesma variedade em termos de estratégias.

Ao longo da vida, as pessoas têm diferentes oportunidades e vivências do corpo em movimento, com o desenvolvimento de habilidades e capacidades físicas, cognitivas e socioafetivas, ou não. Porque só se beneficia quem pratica. A Organização Mundial de Saúde (OMS) indica cinco horas por semana de atividade motora para crianças e adolescentes: uma hora por dia, que pode ser dividida durante a rotina diária. Jogar, brincar, realizar rotinas motoras simples e complexas, são muitas as possibilidades.

Essa é a carga de atividade semanal ideal para que se desenvolvam as bases motoras e atitudinais que contribuirão para que essas crianças e jovens se mantenham ativos, seja pelo desenvolvimento do hábito e do estilo de vida, seja pela formação motora qualificada, que lhes proporcionarão ferramentas para aproveitar todas as oportunidades e para se adaptar a cada ambiente e fase da vida. Para os adultos, a indicação é de 120 a 150 minutos semanais. Segundo o Instituto Ipsos, 72% da população brasileira é sedentária, e, entre as pessoas de 16 a 24 anos, a porcentagem é de 62%.


Prática esportiva e seus múltiplos benefícios

É fato que precisamos avançar em termos de oportunidades para a prática motora, pois os benefícios são muitos. Pesquisas internacionais mostram que os impactos são sentidos a cada fase da vida: 90% menos probabilidade de obesidade infantil; desempenho escolar até 40% maior; menor relação com fumo, drogas, gravidez e sexo de risco; 15% mais probabilidade de ir para a faculdade; menos despesas com saúde; e, em média, pessoas ativas vivem cinco anos a mais.

Criança pisando no bambolê.
Esporte e brincadeira. Foto: IEE.

Como vemos a seguir, o esporte desenvolve diferentes capitais humanos: físico, intelectual, emocional, social, individual e financeiro:

  • Físico: habilidades e destreza motora, condicionamento cardiorrespiratório, força, saúde dos ossos e das articulações, sistema imunológico, sono, alimentação, prevenção de doenças;
  • Intelectual: desempenho escolar, compromisso com a escola, velocidade de raciocínio, memória, flexibilidade mental, concentração/atenção/controle do impulso, controle do Distúrbio de Deficit de Atenção (DDA) na infância, administração do declínio cognitivo com a idade;
  • Emocional: melhorias em diversão/alegria/satisfação, autoestima, autoimagem, motivação, humor, prevenção de estresse, depressão, ansiedade.
  • Social: normas sociais, rede de relacionamentos, compromisso social, confiança/trabalho em equipe/colaboração, igualdade de gêneros e diversidades, igualdade para pessoas com deficiência, contraponto ao crime, inclusão e aceitação, unir as diferenças, segurança e apoio;
  • Individual: aprender a aprender, experiências sociais e de vida, espírito esportivo, gestão do tempo, estabelecimento de metas, iniciativa e liderança, respeito e solidariedade, entusiasmo, disciplina, controle, persistência, coragem;
  • Financeiro:  melhor renda, produtividade, desempenho no trabalho, ânimo, compromisso, redução de assistência médica e faltas.

Sobre a autora

Ana Moser
Foto: reprodução

Ana Beatriz Moser é considerada uma das maiores atacantes da história do voleibol brasileiro. Integrou a seleção que trouxe a primeira medalha olímpica para o voleibol feminino do País.

Além disso, tem medalhas nas categorias de base da seleção brasileira, disputou três edições dos Jogos Olímpicos – e foi medalhista em Campeonato Mundial, Copa do Mundo, Copa dos Campeões e Jogos Pan-Americanos.

Em 1998, Ana Moser desenvolveu um projeto de formação de atletas baseado no ensino de voleibol em escolas públicas e privadas do Brasil. Este projeto a inspirou a criar, em 2001, o Instituto Esporte & Educação (IEE).


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