Almanaque para alfabetização e letramento

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Almanaque para alfabetização e letramento

Material disponibilizado pela prefeitura de Belo Horizonte (MG) propõe atividades e repertório de textos para manter estudantes engajados(as) com a leitura e a escrita
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Por Stephanie Kim Abe

Em tempos de distanciamento social, como manter as crianças engajadas em processos de alfabetização? Como manter atividades que estimulassem as crianças a seguir escrevendo e lendo, mas em um espaço fora da escola, muitas vezes sem um familiar ou adulto por perto para ajudá-la? Que tipo de exercícios e leituras podem atingir essas crianças, em diferentes estágios de alfabetização?

Essas são algumas das perguntas mais difíceis que têm sido feitas durante a pandemia, e que tem preocupado milhares de educadores(as) e gestões escolares Brasil afora desde março do ano passado. 

Foi pensando em responder essas questões – ou pelo menos trazer um material de apoio a docentes e crianças do 1º ao 3º ano do Ensino Fundamental – que a prefeitura de Belo Horizonte (MG) lançou este mês o Almanaque para alfabetização e letramento. 

A autora do almanaque, Isabel Cristina Alves da Silva Frade,professora e pesquisadora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e integrante do Centro de Alfabetização Leitura e Escrita (Ceale), explica:

Isabel Frade - Almanaque de alfabetização e letramento
Foto: arquivo pessoal

Nossa primeira questão foi como podemos apresentar um repertório de textos em que as crianças possam ler com prazer, seja para brincar, para fazer algum brinquedo, pra fazer uma receita, pra se informar… Ou seja, pensamos muito mais nas funções da escrita que nas habilidades. Segundo, tentamos reunir, no mesmo material, um repertório em que as crianças pudessem ler variados textos com a mediação da família ou de forma autônoma. E, principalmente, que pudessem escrever e manifestar os sentimentos que estavam vivendo.”

Isabel Frade

Acesse o almanaque aqui


Criança protagonista do material

Assim, o almanaque foi composto por três partes: “Meus escritos e outras coisinhas mais”, “Abecedário com animais, brincadeiras, super-heróis e desafios” e “Papéis de carta”.

Almanaque para alfabetização e letramento
Almanaque para alfabetização e letramento

A primeira parte do almanaque é toda escrita em primeira pessoa e está recheada de situações em que as crianças podem falar sobre elas mesmas: do que gostam, como estão se sentindo, quais as histórias da família, coisas engraçadas etc. Há atividades relacionadas à pandemia, como a de desenhar a sua própria máscara, e de fazer um paralelo com super heróis.

A segunda foca na reflexão das palavras, da sonoridade e dos sentidos, em forma de abecedário. Cada letra começa com um personagem, que pode ser uma brincadeira, um animal ou um super-herói. 

Almanaque para alfabetização e letramento
Almanaque para alfabetização e letramento

Já a terceira parte traz uma série de folhas a serem destacadas,  visando motivar trocas de  correspondências  em forma de  cartas, pequenas mensagens  ou desenhos com outras pessoas, para que elas falem sobre elas e suas vidas.

Ao longo de todo o material, há ícones que indicam se aquela atividade pode ser feita sozinha pela criança, se precisa da ajuda de um adulto, se é uma atividade para ler sozinho, para desenhar etc.  O material pode ser utilizado em partes, não precisa ser realizado em ordem.

Há poucas instruções, muito leves, quase uma brincadeira. É como se a criança estivesse falando e fosse o sujeito do material, diferente de um livro didático.”

Isabel Frade

Adaptações ao contexto

O almanaque começou a ser pensado em setembro de 2020, quando a prefeitura de Belo Horizonte realizou um levantamento da situação socioeducativa da rede e constatou que inúmeras crianças não tinham tido acesso às atividades escolares até então. Ou seja, esse vínculo com a escola estava comprometido.

O impacto do fechamento das escolas e da falta de aulas presenciais foi bastante sentido entre toda a comunidade escolar, mas Isabel destaca as dificuldades para docentes e crianças em alfabetização:

Almanaque para alfabetização e letramento

Na escola, a criança faz um discurso, que é ouvido por outro colega, que pergunta ou olha para o professor, e por aí vai… Dessa forma, vai se construindo uma história partilhada entre todos, que vira conteúdo da alfabetização.
Além disso, é pela interação que as crianças expressam o que estão pensando sobre a escrita. Com o fechamento das escolas, foi perdida toda a perspectiva da aprendizagem com base na interação que o(a) professor(a) tinha para fazer uma alfabetização dialogada.”

Isabel Frade

Foi a partir daí que Isabel começou a pensar em como chegar até essas crianças em fase de alfabetização, buscando considerar as particularidades deste momento de pandemia que estávamos vivendo.

Isabel explica:

Percebemos que algumas pessoas tentavam fazer sequências didáticas, baseadas em algumas habilidades, e que se tornavam naquele momento muito duras. Após muito pensar, vimos que estávamos em uma situação diferente de uma situação tradicional escolar. Tínhamos que pensar primeiro nas crianças e nas famílias, e construir um material que fosse sensível ao momento que estamos vivendo e que as mantivessem vinculadas à escola, à cultura escrita e que se constituísse em algo a ser manuseado na forma impressa, modo mais acessível a todos(as).”

Isabel Frade

O projeto pedagógico e editorial foi apresentado a um grupo de trabalho e o material foi produzido em conjunto com educadores(as) da rede. Inclusive é uma das educadoras que assina a diagramação  de todo o almanaque. O grupo de ilustradores, que fazem parte da escola integrada, buscou garantir diversidade e representatividade.

O almanaque está sendo distribuído impresso na rede municipal da capital mineira, podendo chegar  a 34 mil crianças – o que, para Isabel, é uma medida que traz equidade, ao tirar a responsabilidade dos pais e familiares de imprimir o material. A utilização é feita por meio de adesão dos(as) docentes.

Outro importante ponto que a professora destaca é o fato de que o almanaque não é construído sobre a ideia de progressão. Ele pode ser usado por estudantes de 6 a 8 anos de idade, que estão em diferentes fases da alfabetização. Para ela, isso não significa que a cultura pedagógica de trabalhar progressivamente  deva ser deixada de lado em outras propostas produzidas pelos alfabetizadores:

Esse material não pretende substituir o que os(as) professores(as) têm feito ou podem fazer, nem que abandonem a ideia da progressão com base no diagnóstico dos(das) estudantes. Ele é um material de apoio que traz um repertório de inspiração para esse momento especial, porque considera que há mais de um tipo de leitor(a) e escritor(a), principalmente agora na pandemia. A entrada de várias crianças em diferentes estágios dentro do mesmo material pode fazer com que os(as) professores(as) vejam uma certa confluência no documento. Ele pode também ser uma alternativa mais lúdica e aproximada das funções da escrita a ser trabalhado no pós-pandemia.”

Isabel Frade

A educadora acredita que, neste momento de ensino híbrido, os diferentes estágios de desenvolvimento em que as crianças se encontram nessa etapa de ensino será um grande desafio para educadores(as) de todo o país. Além disso, será preciso readaptar os(as) estudantes aos tempos e atividades escolares, ao manuseio dos materiais usados na escola, ao tempo das atividades, à socialização na escola, e realizar um diagnóstico para que possam aferir como essas crianças estão voltando. 

Sobre a sobrecarga que algumas famílias estão tendo ao acompanhar as crianças e sobre famílias que não podem acompanhar os(as) estudantes, Isabel acrescenta:

Não queremos culpar ou sobrecarregar as famílias, que por motivos de trabalho e níveis de escolaridade, estão assoberbadas neste momento,  mas sim ter um ponto de partida para continuar a desenvolver esse trabalho.

Isabel Frade

Considerando depoimentos de professores(as) que estão se reencontrando com as crianças que ficaram mais de um ano sem intervenção da escola,  Isabel   acrescenta: “Tenho esperança que as crianças reagirão bem e que vão melhorar com algumas semanas de intervenção.” 


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