O que é alfabetização científica e cartográfica?

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O que é alfabetização científica e cartográfica?

GURIDI, Veronica; CAZETTA, Valeria. Alfabetização científica e cartográfica no ensino de Ciências e Geografia: polissemia do termo, processos de enculturação e suas implicações para o ensino, 2019.
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Como o conceito de alfabetização se aplica ao campo da educação em ciências e em geografia?

O termo alfabetização científica tem sido associado, tanto na literatura educacional como nos documentos oficiais, à inclusão no mundo da ciência e da tecnologia, à educação para a cidadania e à formação de sujeitos autônomos e críticos, capazes de agir socialmente no que diz respeito a essas problemáticas. Em outros contextos, a alfabetização científica é definida como o processo que possibilita ao cidadão mergulhar na cultura científica.

As pesquisadoras Veronica Guridi e Valeria Cazetta discutem sobre os vários sentidos em torno dessa expressão no artigo “Alfabetização científica e cartográfica no ensino de ciências e geografia: polissemia do termo, processos de enculturação e suas implicações para o ensino”. Para isso, elas se apoiam em investigações recentes na área bem como nos estudos culturais em educação.

Segundo as autoras, o termo alfabetização científica foi importado da linguística e adaptado para a educação em ciências. Sua origem remete ao final do século XX e o início do século XXI, momento em que ocorreu considerável desenvolvimento científico e tecnológico, mas, paradoxalmente, houve um grande distanciamento por parte da maioria da população acerca dos conhecimentos científicos e tecnológicos.

Nesse contexto, a expressão analfabetismo científico nomeia situações em que os sujeitos não são capazes de decodificar o conhecimento da ciência e da tecnologia e aplicá-lo em situações do dia a dia.

A preocupação em popularizar o acesso à ciência implica mudanças no ensino de Ciências nas últimas décadas. Se, em outras épocas, a finalidade, no ensino fundamental, era formar futuros cientistas, atualmente o objetivo é educar cientificamente a população, fornecendo-lhe elementos para que se torne capaz de realizar uma leitura de mundo do ponto de vista da ciência e de agir sobre a realidade. Nessa perspectiva, a educação científica escolar deve enfatizar a função social da ciência.

Os termos alfabetização científica e letramento científico têm sido empregados como sinônimos na educação. Mas haveria distinção entre eles? Segundo vários especialistas, os dois processos são indissociáveis, já que enfatizar a função social da ciência é também mostrá-la como produção cultural situada em um tempo e espaço determinados, marcados por tensões entre diferentes grupos.

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As autoras definem a aprendizagem em Ciências como apropriação de múltiplas linguagens, tendo em vista que “aprender ciência é aprender a falar ciência, é fazer ciência através de suas linguagens”. Estas abarcam não apenas o aspecto verbal, mas também as práticas e os processos científicos − como argumentar, planejar, levantar hipóteses, investigar –, além das linguagens matemática e pictórica.

Em relação ao ensino da geografia, especialmente ao campo da cartografia, junto à aprendizagem dos signos e sistemas de linguagem (como orientação, espacial, escala etc.), há uma bagagem sociocultural preexistente à entrada dos sujeitos em instituições formais de ensino que remete a uma educação visual mais ampla.

GURIDI, Veronica; CAZETTA, Valeria. Alfabetização científica e cartográfica no ensino de Ciências e Geografia: polissemia do termo, processos de enculturação e suas implicações para o ensino. Revista de Estudos Culturais n. 1. Acesso em: ago. 2019.


Sobre as autoras:

Verônica Guridi: tem graduação em Matemática e Física na Universidad Nacional del Centro de Buenos Aires, mestrado em epistemologia e metodologia da ciência na Universidad Nacional de Mar del Plata (Argentina) e doutorado em ensino de ciências e matemática na Universidade de São Paulo (USP). Foi professora de ensino fundamental e médio. Atualmente leciona na Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP.

Valeria Cazetta: tem graduação em Geografia, mestrado e doutorado na mesma área. Realizou estágio pós-doutoral em Didática da Geografia e Cartografia, na Universidad Politécnica de Madrid (Espanha). Atualmente é
professora da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH-USP). Coordena o Grupo de Pesquisa em Culturas Visuais e Experimentações Geográficas.


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