Visitando museus

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Visitando museus

Autora da oficina: América dos Anjos Costa Marinho, pedagoga, licenciada em Letras pela Universidade de São Paulo (USP) e formadora de leitores. Conteúdo publicado originalmente na Plataforma do Letramento
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O que é?

Proposta de diálogo entre museu e escola para ampliar o repertório cultural e artístico dos estudantes

Material
  • Computadores com acesso à internet.
  • Projetor multimídia.
  • Imagens para projeção ou cartazes impressos com reproduções de obras de arte.
Finalidade
  • Ampliar a percepção em artes visuais.
  • Preparar-se para a visita a um museu ou outro espaço artístico.
  • Participar ativamente dela, familiarizando-se com a leitura de obras expostas.
  • Construir relações entre as obras de arte apreciadas e as demais áreas do conhecimento. 
  • Compreender as obras de arte como formas de expressão de um povo, uma cultura, uma época, um indivíduo, numa perspectiva de existência mais humanamente universal.
  • Expressar e discutir oralmente, bem como registrar por escrito impressões, emoções, ideias a respeito das obras de arte observadas: tudo o que observar e também seus sentimentos e emoções.
  • Pesquisar sobre artistas, obras e movimentos artísticos como forma de ampliar o repertório cultural.
Expectativa

Promover o acesso a espaços significativos de encontro com a produção artística. Abrir janelas a um mundo recriado pela expressão artística.

Público

Adolescentes e jovens

Espaço

Museu e sala de aula, de leitura, computação

Duração

2 a 3 encontros de aproximadamente 50 min + visita a museu

Início de conversa

Educar em artes visuais é, de início, possibilitar ao educando muitas oportunidades de entrar em contato com diferentes estilos e expressões artísticas — não só as que estão mais próximas de seu tempo e espaço, mas também outras mais distantes e não tão familiares.

Trata-se de motivar o educando a refletir sobre essas experiências, fornecendo informações que ampliem seu repertório e permitam uma postura mais sensível e crítica diante da produção artística.

Para isso, é preciso que ele tenha acesso a muitos espaços significativos de encontro com essa produção, e, dentre eles, um dos mais ricos é o museu. Essa proposta busca integrar museu e escola para, de forma prazerosa, abrir janelas a um mundo recriado pela expressão artística.

A constante transformação
Não se pode falar de linguagem artística sem pensar nas condições de produção, circulação e recepção de uma obra de arte — quem a produz, com que finalidade, de que recursos o artista lançou mão para atingir seu objetivo, quem é o interlocutor, com que bagagem esse apreciador a recebe e que expectativas tem.

Os espectadores não recebem a obra de arte pronta: a cada nova leitura, ela se transforma, se amplia, se renova. Isso significa que, a cada experiência estética, o sujeito identifica e redescobre uma série de valores, o que resulta numa nova obra.

A preparação do olhar
A arte é para todos, embora muitas pessoas tenham a impressão de que não entendem, não sabem apreciar as manifestações artísticas ou de que não gostam delas.

"Composição VII", de Wassily Kandinsky. Crédito: Wikipédia/Reprodução
Wassily Kandinsky, Composição VII, 1913

Em princípio, todos nós somos capazes de entender e de gostar de arte. Isso depende de habilidades que podemos desenvolver.

A primeira delas é a observação. Observar significa olhar com interesse dirigido, examinar minuciosamente, focalizar a atenção, concentrar o pensamento e os sentidos, com vontade de ver, de apreender, de perceber e descobrir os detalhes significativos. É como usar uma lente de aumento sobre algum objeto. Mas o fator que realmente dirige a observação é nosso interesse especial, nosso ponto de vista, nossa sensibilidade interessada.

Você pode educar o olhar de seus alunos por meio de alguns exercícios, para que eles possam aproveitar melhor as visitas a museus ou a outros espaços culturais.

Aproveite a sua própria experiência e as anotações que fez ao realizar a atividade isoladamente, conforme sugerido. Você pode pesquisar na internet mais informações sobre o impressionismo.

Seguem algumas sugestões:
• 
Wikipédia
• 
Enciclopédia Itaú Cultural
• 
Museu D´Orsay
• Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) – materiais educativos da exposição Impressionismo: Paris e a modernidade (4 de agosto a 7 de outubro de 2012): Caderno de mediaçãoPráticas e reflexões com educadores
• Vídeos: Os impressionistas (The Impressionists, Inglaterra, 2006); episódios da série de programas de Tim Marlow (historiador da arte inglês): MonetRenoir

Na prática

Sugestão de encaminhamento

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Francisco de Goya, Saturno devorando um filho, 1819-1823

De olhos bem abertos

Para esta atividade, é interessante que a escola ou a instituição educativa disponha de uma sala de informática ou um espaço em que os alunos tenham acesso a alguns computadores (mesmo que eles tenham de usá-los em duplas ou trios). Se não for possível, ela pode ser realizada coletivamente, em uma sala na qual se possa projetar a imagem de um computador em uma tela ou parede. É importante que a projeção tenha boa qualidade, isto é, que a imagem fique nítida.

Antes de iniciar essa atividade com os educandos, realize sozinho o mesmo exercício. Por meio da imagem, compreenda para onde a obra o leva, como é tocado pela imagem. Observe esse percurso e anote os questionamentos e impressões que você teve a princípio diante da obra de arte.

Volte a observar e busque novas leituras, novas possibilidades. Baseado em sua própria experiência, elabore um roteiro de leitura. Você pode se propor perguntas e criar palavras-chave para conduzir diferentes percursos de olhar. Outro questionamento importante é: que assuntos de outras áreas e/ou linguagens podem ser explorados com base na obra escolhida?

Atenção: não existe uma fórmula a ser seguida, mas, sim, inúmeras entradas e formas para “descobrir” a obra de arte. Não importa se começamos interpretando diretamente ou levantando aspectos formais e fazendo uma descrição etc. A melhor entrada é sempre a da curiosidade do grupo. Fique atento(a) às “pistas” que a obra e a curiosidade – a sua e a de seus alunos – oferecem.

Ampliando a experiência

Diversas estratégias para o trabalho com as obras possibilitam a ampliação da experiência. Podem-se propor leituras comparativas: relacione a obra com a produção de outros artistas (não se limite aos artistas visuais). Um texto literário, um poema, um filme, uma música também podem ser incluídos na leitura, para ampliar ainda mais o repertório de todos os envolvidos. A interdisciplinaridade pode estabelecer relações enriquecedoras.

É muito importante estimular a expressão de diferentes pontos de vista. Como já dito, não existe uma única interpretação correta. O diálogo e a compreensão de que não existem respostas definitivas para os questionamentos da arte auxiliam no exercício de construir uma sociedade mais democrática, que estimula a diversidade.

É essencial realizar as suas próprias pesquisas, para se tornar um(a) professor(a) investigador(a). Nesse caminho, você pode se apropriar do conteúdo para gerar suas propostas de trabalho com os educandos.

Além de visitas a bibliotecas físicas, a web é uma fonte rica para pesquisa e é de fácil acesso. Seguem alguns links que podem facilitar sua pesquisa sobre bibliotecas públicas pelo Brasil, e não se esqueça dos sites de busca da internet:
• Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas (SNBP): dados das bibliotecas públicas no Brasil
• Sistema Municipal de Bibliotecas:Prefeitura de São Paulo
 Portal Domínio Público: biblioteca digital desenvolvida em software livre

Preparação

A título de sugestão, segue uma primeira possibilidade de leitura de obras. São muitos os artistas dos mais variados movimentos da história da arte. Por se tratar de um universo muito vasto, infelizmente não será possível oferecer exemplos de todos os movimentos. 

A escolha das obras a serem trabalhadas com os alunos dependerá do tema e daquelas que estarão expostas no museu a ser visitado. Selecione algumas imagens do artista impressionista Claude Monet, como esta a seguir. 

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Claude Monet, Crepúsculo em Saint-Georges-Majeur, 1908
Possível roteiro de perguntas

Para aproveitar tudo o que uma imagem pode oferecer, explique que os olhos precisam percorrer o objeto de estudo com atenção. É preciso dar tempo para a obra se “hospedar” no cérebro e depois descrever todos os elementos percebidos, elaborando uma espécie de inventário. Você pode conduzir o olhar de seus alunos fazendo perguntas como:

Dê bastante tempo para a observação. Provavelmente eles serão invadidos por um turbilhão de percepções e ideias. Diga que fiquem atentos a todas elas e recomende que registrem as suas impressões por escrito: tudo o que observarem e também seus sentimentos e emoções, bem como as ideias, tema e conceitos que a obra apresenta.

Explique que o registro escrito é uma das formas de estimular a memória visual, que é a capacidade de guardar com certa precisão aquilo que foi observado. Assim, mesmo passado algum tempo, é possível relembrar o que foi visto.

Após a observação, é importante que a turma compartilhe suas experiências em uma conversa informal e descontraída, ressaltando que o grupo está construindo o conhecimento conjuntamente.

Depois dessa conversa, vocês podem reforçar os elementos visuais que foram percebidos e compartilhados pelos alunos  – e outros que porventura não foram relatados: quais eram as intenções do artista; como era o momento histórico que ele vivia. Também pode apresentar informações pessoais do artista, se você considerar pertinente. Isso pode ser feito por meio de um audiovisual, como um filme ficcional ou documentário. 

É possível que eles cheguem à conclusão de que a leitura da imagem por eles realizada pode corresponder à intenção do artista ao elaborá-la e à época em que foi produzida, mesmo sem terem estudado anteriormente. Isto é, eles podem perceber que a imagem “fala” ao espectador.

Sugerimos, ainda, outra possibilidade de leitura de imagens, seguindo as observações já feitas acerca da pesquisa e leitura individual antes de aplicá-las com seus alunos.

Neste exemplo, usaremos a obra Vibração (1969), de Lothar Charoux, artista plástico concretista austríaco que viveu no Brasil e foi um dos fundadores do Manifesto Ruptura, em 1952. Veja a obra na Enciclopédia Itaú Cultural.

Da mesma forma que os educandos percorreram os olhos pelas imagens impressionistas, podem-se fazer os seguintes questionamentos:

• Quais cores e tonalidades predominam nessa imagem?
• Há linhas ou formas geométricas representadas? 
• Essas formas estão estáticas? Essas formas dão ideia de profundidade? Como essa impressão é dada na figura? Há diagonais? Há variações das tonalidades? 
• Qual é o título da obra? 
• Você acha que esse título tem a ver com a imagem? Por quê? 
• É possível perceber as pinceladas do artista? Se não, por quê?

Para contextualizar a obra e embasar as perguntas realizadas, vocês podem encontrar mais informações sobre esse artista, por exemplo, no site do Itaú Cultural.

Seguem algumas sugestões de links em que você poderá realizar pesquisas sobre arte concreta:
• Enciclopédia Itaú Cultural
• Blogspot Arte Concretista
• Wikipédia
• CUNHA, Arnaldo Marques da. Concretismo no Brasil
• CAMPOS, Haroldo de. Arte construtiva no BrasilRevista da USP. São Paulo, jun/ago 1996. • Vídeos – Waldemar Cordeiro: fantasia exata (2013) – Fernando Cocchiarale fala sobre o Manifesto Ruptura, a arte concreta e a arte de Waldemar Cordeiro; Memórias concretas (2006) – documentário sobre o artista plástico Almir Mavignier.

A visita
Se na sua localidade houver algum museu, organize uma visita com seus alunos. Você pode encontrá-lo no Guia de museus brasileiros. Mas lembre-se: para que a visita seja bem aproveitada, é importante preparar-se e preparar os estudantes! Por isso, é recomendável que você visite o espaço antes e converse com os educadores responsáveis pelas exposições, para poder orientar bem os seus alunos.

No preparo para a visita, comece explicando a eles o que é um museu; o que é uma coleção e o que é um acervo – estude bem antes! Pesquise e peça a seus alunos que pesquisem sobre as atividades que um museu normalmente realiza, quais os tipos de objetos que podem ser guardados em um museu – será que só existe museu de arte?

Diga que, normalmente, há um espaço de visitação para o público e outro espaço restrito, onde os profissionais que ali trabalham elaboram as exposições, guardam os objetos que não foram expostos, estudam a melhor maneira para mostrá-los ao público (acredite: até a cor da parede da exposição foi pensada por esses profissionais!).

• Antes de agendar a visita, informe-se sobre as condições de atendimento que o espaço oferece, verificando: número máximo de visitantes possível; número necessário de acompanhantes responsáveis; se há acompanhamento por educadores do próprio museu e se é oferecido material de consulta; se há oficinas e de que tipo (se há possibilidade de os visitantes se sujarem – nesse caso, é interessante pedir que os alunos levem aventais ou peças de roupa para usar durante a oficina); duração prevista para a visita; preço do ingresso etc.

• Após o agendamento, providencie autorização dos pais, caso os alunos sejam menores de idade, transporte e lanche (se necessário). Prepare-se com antecedência e converse com eles, procurando estimular a sua curiosidade e fornecendo informações que possam resultar num aproveitamento melhor da visita.

• Oriente-os a se comportar adequadamente, informando que: não devem comer no espaço expositivo (nem mesmo chupar balas ou mascar chicletes) ou tocar nas obras, para não danificá-las; é importante falar baixo, para não atrapalhar os demais visitantes, e andar sempre junto do grupo; devem ler as etiquetas das obras e, sempre que tiverem dúvidas, perguntar aos educadores da instituição, levantando a mão para chamar sua atenção. É importante dizer que eles não devem ter vergonha de manifestar suas impressões ou expor sua curiosidade.

• No dia marcado, procure chegar com certa antecedência ao local, para evitar que o tempo de visita seja prejudicado por atraso. (Atenção: se houver lanche, ele deve ser servido antes ou após o término da visita, fora do espaço expositivo).

• Após a visita, faça com os participantes uma avaliação, discutindo o que aprenderam, do que gostaram ou não, bem como um levantamento dos cuidados a se tomar nas próximas atividades dessa natureza.

Retorno à sala de aula
Logo em seguida à visita com seus alunos, não perca a oportunidade de conversar com a turma sobre o passeio como um todo: a preparação em sala de aula; o encontro para a saída ao museu; como foi entrar em um museu (sobretudo para aqueles que não conheciam um espaço como esse); como foram a visita e o percurso pelo prédio; se houve acompanhamento de educador, como foi a conversa com ele. Será que há diferença em ver um objeto em uma projeção e “ao vivo”? As cores mudam? Ficam mais nítidas? E as formas e relevos representados?

Se quiser, você pode elaborar atividades práticas, como a criação de um objeto, uma pintura, um desenho, para que sensações e conteúdos sejam recuperados e ampliados.

Visitar um museu nos faz conhecer outros universos e outras formas de pensar e interagir com a sociedade, com o mundo ao redor. É importante que as crianças e os jovens tenham consciência disso!

Para ampliar

A experiência estética
Representar pensamentos, sentimentos, histórias, experiências pessoais e coletivas, conferindo-lhes dimensão estética, é o que a humanidade vem fazendo há milhares de anos por meio da linguagem artística ou pelos diversos caminhos e motivações da arte.

Nesse contexto de busca e criação, aparecem as artes que fazem da visão o seu meio principal de apreciação e são conhecidas como artes visuais. Elas se utilizam dos mais variados recursos e formas de expressão para apresentar e representar a realidade conhecida como um mundo significativo, surpreendente e revelador.

O artista usa desenhos, pinturas, gravuras, esculturas e colagens, papel, tinta, gesso, argila, madeira e metais, filmadoras, máquinas fotográficas, programas de computador e outras ferramentas tecnológicas para representar o mundo real recriado por seu imaginário.

Trailer do documentário O mistério de Picasso, de 1956, dirigido por Henri Clouzot
René Magritte, O duplo segredo, 1927

Essas obras de arte, diferentemente dos objetos utilitários, revelam uma visão muito singular, especial e inventiva  que o artista tem da vida e provocam no observador uma emoção, admiração ou inquietação. Esse conjunto de sensações recebe o nome de experiência estética.

Quando alguém vive uma experiência estética, recupera outras vivências anteriores, por vezes até imaginadas, situações que ganham novos sentidos e se espelham numa determinada época, camada social ou instituição, como a escola, a família, o ambiente de trabalho, a religião, o partido político a que pertence.

Referências