Brinquedoteca para todo mundo

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Brinquedoteca para todo mundo

Autoria: Educação & Participação
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O que é?

Confecção de brinquedos para um espaço público da comunidade.

Material
  • Folhas de papel kraft.
  • Retalhos de tecido.
  • Elásticos.
  • Cola.
  • Sucata.
  • Baús para guardar adereços.
Finalidade

Valorizar a prática de ações visando ao bem comum.

Expectativa

Desenvolver o protagonismo pessoal e de equipe em prol do bem comum.
Aprender a trabalhar em equipe, respeitando a maioria e negociando decisões.
Respeitar o espaço público como espaço de cidadania a que todos têm direito.

Público-alvo

Crianças

Espaço

Sala de atividades, pátio, praça ou outro espaço público.

Tempo

4 encontros de 1h30


Início de conversa

A brincadeira é uma necessidade própria do ser humano. O brincar brota espontaneamente na criança, que desde bebê brinca com as próprias mãos, depois com objetos, explorando o mundo de forma própria, sem regras. É uma ação de autoconhecimento que permite fazer relações, reflexões e determinar coisas importantes para toda a sua vida. É por meio da brincadeira que ela cria, imagina, constrói imagens e memórias, se desenvolve corporal, cognitiva e emocionalmente.”

Maria Lúcia Medeiros, pedagoga e especialista em cultura da infância, foi coordenadora do Projeto Brincar (CENPEC Educação/FVW).
Crianças brincando
Foto: Wanderley Francisco da Silva Pessoa/MEC

Para além da escolarização como transmissão de conteúdos, experimentar jogos e brincadeiras promove a socialização, a comunicação, a relação com os espaços, a exploração do corpo, da criatividade e da memória.

Nesse sentido, as Diretrizes Curriculares Nacionais da Educação Infantil (DCNEI, Resolução CNE/CEB n. 5/09) destacam a importância de um currículo que articule “as experiências e os saberes das crianças com os conhecimentos que fazem parte do patrimônio cultural, artístico, ambiental, científico e tecnológico, de modo a promover o desenvolvimento integral das crianças. Em seu artigo 4º, as Diretrizes definem a criança como:

sujeito histórico e de direitos, que, nas interações, relações e práticas cotidianas que vivencia, constrói sua identidade pessoal e coletiva, brinca, imagina, fantasia, deseja, aprende, observa, experimenta, narra, questiona e constrói sentidos sobre a natureza e a sociedade, produzindo cultura.”

BRASIL, 2009.

Na etapa da educação infantil, a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) apresenta seis direitos de aprendizagem e desenvolvimento: 1. conviver, 2. brincar, 3. participar, 4. explorar, 5. expressar, 6. conhecer-se. O direito de brincar é assim definido na Base:

Brincar cotidianamente de diversas formas, em diferentes espaços e tempos, com diferentes parceiros (crianças e adultos), ampliando e diversificando seu acesso a produções culturais, seus conhecimentos, sua imaginação, sua criatividade, suas experiências emocionais, corporais, sensoriais, expressivas, cognitivas, sociais e relacionais.”

BRASIL, 2017.

Embora seja um direito prioritário para crianças pequenas, a brincadeira é uma atividade presente e importante em qualquer idade. Seja na escola, seja em outros espaços, criar momentos e ambientes para brincar, explorar as possibilidades corporais em conjunto com a imaginação, permite uma aprendizagem rica e dinâmica, que articula as diferentes possibilidades e formas de conhecimento.


Na prática

Mulher e criança brincando de boneca
Interação adulto/criança. Foto: acervo E&P/CENPEC

1º encontro: conversas preliminares
Crianças gostam de brincar e a brincadeira é fundamental para o seu desenvolvimento porque, além do prazer e da recreação, permite a elas se relacionarem com a realidade em que vivem para conhecê-la, compreendê-la e expressar os sentimentos e ideias que desenvolvem em relação a ela.

Do que sua turma gosta de brincar? Quais seus brinquedos e brincadeiras preferidas? Vamos investigar? Faça uma roda de conversa e comece um levantamento com elas.

E se?
Se eles citarem apenas jogos virtuais, insista nos jogos coletivos, sem uso do computador.

Pergunte do que precisam para realizar as brincadeiras de que falaram: bola, peteca, boneca, joguinhos de montar, quebra-cabeças, roupas de bruxa, princesa, leão, caçador, robô? Que mais?

Onde brincam: em casa? Na rua? Na casa de amigos? Aqui, na escola/OSC? E quando vão a algum lugar, como a UBS (Unidade Básica de Saúde) ou o CRAS (Centro de Referência da Assistência Social), acompanhando a família, e precisam esperar para o atendimento? Tem como brincar para se distrair enquanto esperam?

E se lá tivesse um baú com brinquedos para brincar enquanto aguardam sua vez? Seria legal? E no parquinho da praça, onde só há brinquedos para crianças menores? E na banca dos jornais, da outra pracinha? E aqui na escola/OSC? Seria legal ter também alguns baús de brinquedos para serem usados, por exemplo, na entrada ou no recreio?

Se gostarem da ideia, proponha que lancem uma campanha na escola/OSC para montar alguns baús de brinquedos que eles mesmos confeccionarão. Se outras turmas entrarem na proposta, elas poderão montar uma brinquedoteca comum para a escola e outra para uma instituição pública da comunidade, como a UBS. O que acham? Cada turma decidirá que brinquedos ficarão para a escola/OSC e quais serão doados e para que espaço público.

Você, educador/a deve falar antecipadamente com os gestores da escola/OSC e com seus colegas de trabalho, tanto para convidá-los a participar do projeto, como para contar com a autorização prévia da equipe gestora, para não frustrar os pequenos. Havendo adesão, o projeto a ser realizado será de todos.

Planejem o desenvolvimento do trabalho, juntos: o tempo de duração do projeto, as propostas dos brinquedos a serem confeccionados e as orientações a serem dadas para as crianças. Será importante também investigar qual o local mais adequado para instalar a brinquedoteca, que deverá abrigar os brinquedos, de forma organizada e com acesso fácil.

E se?
Se nem todos os educadores quiserem participar do projeto, organize-o com os que aderirem. Como o convite às outras turmas será feito pelos seus alunos, peça aos colegas que os recebam carinhosamente e, por ocasião da visita, ajudem-nos na sua missão.

Então, organize com sua turma algumas comissões: uma para falar com os gestores da instituição a fim de solicitar a autorização da campanha e outras para falar com as demais turmas da escola/OSC, cujos educadores aderiram à proposta.

Lembre-se de misturar crianças maiores com menores, assim como crianças mais tímidas com mais expansivas, de modo a equilibrar as comissões e garantir que as ações aconteçam. É importante que todas as crianças tenham algum nível de participação e ninguém fique de fora. Mesmo que algumas apenas acompanhem quem tem mais facilidade para se comunicar, já estarão participando.

Oriente que escrevam os nomes dos integrantes de cada comissão em um cartaz específico e exponham o conjunto dos cartazes na sala.

A primeira ação será da comissão que contatará os gestores; após a obtenção da autorização, as demais comissões poderão visitar as outras turmas para convidá-las a participar da campanha e solicitar que tragam material de sucata, a fim de construírem os brinquedos.

Mas, antes de tudo, faça um planejamento com elas e ensaiem as ações das comissões. Esse exercício ajudará a conversa que terão com as outras turmas, dando-lhes segurança para agir, falar, sugerir, orientar. Depois, sim, podem combinar o dia das visitas.

Começando o planejamento, peça que relacionem os brinquedos que poderiam montar: bonecos de palha, de pano? Bolas de meia? Quebra-cabeças com cartolina? Jogos da memória, com figuras coladas em cartolina ou madeirinhas? Petecas de penas de galinha? Caixas com roupas usadas para teatro? Hum… que mais? Relacione as sugestões num cartaz e afixe na sala.

Será que alguém já teria feito algum brinquedo antes? Poderia ensinar os outros? E que tal convidar mamães, papais, titias, titios ou avós para ensinar a fazer alguns? As crianças farão a consulta com os familiares e trarão as respostas numa data combinada. Quando o fizerem, relacione os nomes dos familiares ajudantes em outro cartaz.

Agora, a pergunta: a quem doar os brinquedos? À UBS? Ao CRAS? Ao parque infantil da praça? Deixe que levantem várias possibilidades, que argumentem e escolham. A condição fundamental é que seja um espaço público, para que qualquer criança que o frequente possa usufruir dos brinquedos.

Feita a escolha, é importante que uma comissão faça uma visita com você à instituição receptora, para fazer a proposta aos gestores dela e trazer a resposta à turma.

Espaço brincante
Brinquedoteca. Foto: acervo E&P/CENPEC

2º e 3º encontros: oficinas de brinquedos em ebulição
Nesse momento, as salas de atividades e o pátio se transformarão em oficinas de brinquedos artesanais. Será interessante que cada turma consulte os materiais arrecadados e escolha o que podem fazer com eles, considerando a relação inicial de brinquedos que fizeram no primeiro encontro. Podem ser confeccionados brinquedos repetidos, o que é bom porque várias crianças poderão brincar ao mesmo tempo com petecas, bolas, bonecas, etc.

Brinquedos prontos, cada turma fará, com a ajuda dos seus educadores, a divisão entre os que ficarão na brinquedoteca da escola e os que serão doados.

E se?
Se alguns familiares se voluntariaram para ensinar e ajudar as crianças a fazerem alguns brinquedos, converse e oriente para que não façam os brinquedos pelas crianças, apenas ensinem e acompanhem, cuidando assim para que elas exerçam sua criatividade e habilidade. A oficina deve ser pedagógica para as famílias também.

4º encontro: eis a brinquedoteca!
É hora de organizar a brinquedoteca da escola, cujo local já deverá estar pronto para recepcioná-la.

Jogos
Jogos coletivos. Foto: acervo E&P/CENPEC

Oriente as crianças a formarem cantinhos de brinquedos iguais: o cantinho das petecas, o das bolas, dos bonecos, etc. A organização das turmas para isso fica a cargo dos educadores.

Também é hora de organizar, da mesma forma, os brinquedos a serem doados, colocando juntos os iguais, numa mesma caixa ou saco plástico.

Como cada turma decidiu para que instituição doar, cada uma organizará, com a ajuda de seu educador, como fará a entrega e qual o dia melhor para ambas as instituições.

Após as entregas, que tal marcar um dia de celebração na escola/OSC, com direito a salgadinhos, docinhos e refrigerantes, com a presença de representantes dos diferentes espaços públicos para onde foram doados os brinquedos? Seria uma ótima oportunidade para as crianças vivenciarem o reconhecimento da comunidade a que pertencem, pelo seu empenho em contribuir com ela. Eles merecem!

Agora é com você: o que mudaria no desenvolvimento da atividade?


Hora de avaliar

Finalizado o projeto da brinquedoteca, faça uma avaliação da oficina com eles. O que significou para cada um produzir brinquedos com as próprias mãos? E o que significou doar os brinquedos para outras crianças brincarem? Que sentimentos vivenciaram? Acham que aprenderam alguma coisa com toda essa atividade? O quê?

Agora é com você: que outras formas de avaliar você adoraria?


O que mais pode ser feito?

Uma grande oficina de confecção de brinquedos em espaço público, envolvendo crianças e famílias da comunidade, culminando numa feira de trocas do que for produzido.

Agora é com você: o que mais faria?


Para ampliar

Entre os valores considerados prioritários no desenvolvimento de crianças e adolescentes em uma sociedade democrática estão: a cidadania, a convivência com o diferente, o respeito à pluralidade, a solidariedade e o bem comum.

Para as crianças, adolescentes e jovens se apropriarem desses valores é importante que vivenciem situações concretas capazes de implicar a prática dos mesmos.

A partir de experiências como a elaboração e a realização conjunta de projetos comunitários, as crianças podem construir maneiras mais elaboradas de perceber a realidade, de interagir com outras crianças e outros grupos sociais, assim como de avaliar diferentes possibilidades de ação e de tomar decisões fundamentadas na solidariedade.

As interações que as crianças estabelecem entre si em todo o processo do projeto comunitário, desde sua configuração, favorecem a manifestação de saberes já adquiridos em sua vida e a construção de novos conhecimentos, compartilhados com os demais participantes do grupo.

Na relação com os colegas, as crianças aprendem que participar de um grupo envolve assumir algumas posições, como concordar com os demais participantes ou contrapor-se a eles, mostrar-se dependente ou independente, líder ou seguidor. Tais relações interpessoais são situações de crescimento pessoal.

No entanto, as relações que as crianças estabelecem entre si não são sempre harmoniosas, mas envolvem também rivalidade e conflitos. Dessa forma, disputas e oposições são situações frequentes nessas situações, mas precisamos considerar que elas são também situações de aprendizagem. É lidando com tais situações que irão se apropriar da condição de suportar frustrações, superar ressentimentos e reconhecer que nem sempre ganharão.

Ao participar de um grupo, as crianças aprendem a trabalhar seus impulsos, a internalizar regras, adaptando seu comportamento a um sistema de controle e sanções. Aprendem também a ser sensíveis ao ponto de vista do outro, a cooperar e a desenvolver uma variedade de formas de comunicação para expressar ideias, sentimentos e conflitos.

Como as escolhas do grupo são resultado da discussão de considerações e propostas diversas dos participantes, as crianças assimilam as ideias das outras, fazem-se ouvir, negociam soluções.

A interação com as instituições da comunidade onde vivem também é muito importante porque ajuda a ampliar o leque de relacionamentos com outros grupos sociais, propiciando conhecer outras formas de procedimento, outras regras, outras formas de pensar e agir que favorecem a observação, a reflexão e, consequentemente, a ampliação da sua visão de mundo.

Construir uma brinquedoteca para outras crianças da comunidade é uma atitude de cidadania também, pois no alcance de suas possibilidades estão agindo para transformar minimamente seu espaço, ajudando a conscientizar, com seu gesto, outros cidadãos para os quais essas questões e valores passam despercebidos. Abrir os olhos e os ouvidos para o que está acontecendo com o outro e com o ambiente à nossa volta é condição de humanização e de cidadania.


Referência

BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação a Distância. Programa de Formação Inicial para Professores em Exercício na Educação Infantil. Brasília, 2005. (Coleção Proinfantil.) Disponível em: http://portaldoprofessor.mec.gov.br/storage/materiais/0000012746.pdf.

______. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Básica. Diretrizes curriculares nacionais para a educação infantil. Brasília, 2010. Disponível em:
https://ndi.ufsc.br/files/2012/02/Diretrizes-Curriculares-para-a-E-I.pdf.

______. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Básica. Base Nacional Comum Curricular da Educação Infantil. Brasília, 2017. Disponível em: http://basenacionalcomum.mec.gov.br/abase/#infantil.

Texto sobre a importância da brincadeira, de alunas do curso de pós-graduação oferecido pela UFRRJ em parceria com a Prefeitura Municipal de Mesquita. Disponível em: http://www.ufrrj.br/graduacao/prodocencia/publicacoes/desafios-cotidianos/arquivos/integra/integra_MATOS%20e%20MIRANDA.pdf.

Acessos em: jan. 2020.


Veja também

Jogos e brincadeiras na praça

Cantigas e brincadeiras na alfabetização

Brincadeiras indígenas do Xingu

Documentário Tarja Branca: a revolução que faltava (Maria Farinha, 2014).