Reflexões para não cometer equívocos no Dia dos Povos Indígenas

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Reflexões para não cometer equívocos no Dia dos Povos Indígenas

A historiadora e escritora puri Aline Rochedo Pachamama traz perspectivas sobre a produção literária dos povos originários e a sua presença nas escolas
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Por Stephanie Kim Abe

Não me chame de “índio”, porque
Esse nome nunca me pertenceu
Nem como apelido quero levar
Um erro que Colombo cometeu

(…)

Esse nome me traz muita dor
Uma bala em meu peito transpassou
Meu grito na mata ecoou
Meu sangue na terra jorrou

(…)

Ele veio sem permissão
Com a cruz e a espada na mão
Nos seus olhos uma missão
Dizimar para a civilização 

(Márcia Kambeba, 2018)

A poesia “Índio eu não sou”, da escritora e poeta Márcia Kambeba, já diz muito sobre um dos principais equívocos que cometemos ainda hoje com relação aos povos originários: denominá-los “índios”. O termo, que foi imposto pelos colonizadores aos povos que já estavam em território brasileiro, já há muito vem sendo criticado pelos movimentos que lutam pelo reconhecimento de sua cultura, história e direitos. 

Para tratar sobre esse assunto, o Portal Cenpec entrevistou a historiadora, escritora e ilustradora Aline Rochedo Pachamama. Pertencente ao povo Puri, ela é idealizadora da Pachamama, editora formada por mulheres originárias. Ela fala sobre como a editora surgiu, a importância de olhar para as produções de autores e autoras originárias e de mudar o currículo escolar para que esses tipos de equívocos sobre a cultura e história dos povos originários deixe de acontecer. É possível conhecer alguns dos autores e das autoras originárias na Bibliografia das publicações indígenas do Brasil, na Wikilivros, por exemplo.

Como ela defende:

Os colonizadores podem sim ter feito uma associação ao fenótipo dos habitantes da Índia, mas isso já tem mais de 500 anos. A gente não aguenta mais esse tipo de imposição. Vamos começar a falar da forma correta, porque dessa forma seremos honrados.”

Aline Rochedo Pachamama

Confira abaixo a entrevista.


Portal Cenpec: Como se deu a criação da Pachamama Editora?

Foto: arquivo pessoal

Aline Rochedo Pachamama: Ela nasceu da necessidade de um espaço para nossa voz. Eu sempre fui uma apaixonada pelas oralidades, mas também me encantei com a forma escrita, o desenho das palavras. Então foi uma proposta, que começou comigo e com a minha mãe, de luta pelo território da palavra, porque eu tinha muitas inquietações no sentido da história do meu povo ter sido apagada da história dita oficial. 

Sabemos que a literatura voltada às questões originárias, em grande parte, foi escrita por não indígenas. Se você for a uma biblioteca, o que ainda prevalece é uma bibliografia escrita por não indígenas sobre os povos originários.

Começamos em 2015 e, hoje, a editora não é minha, ela é coletiva. Eu a entendo como um grande quilombo, que tem um trabalho centrado na questão da reparação linguística, produzindo livros bilíngues, e dos saberes e história dos povos originários. Atuamos em parceria principalmente com autoras negras e originárias, mas também acolhemos autores.  

Eu vejo a editora como as abelhinhas jataí, que as pessoas quase não reconhecem na floresta e muitas vezes acham que são uma variação da mosca, porque não têm ferrão. Mas que estão lá, trabalhando intensamente, com muita lealdade e coletividade. 

Portal Cenpec: Como você analisa a atual produção literária dos povos originários? 

Aline Rochedo Pachamama: Nós recebemos muitos parentes que querem publicar seus materiais, principalmente aqueles que envolvem a luta por território e por honrar o seu idioma. Temos autores e autoras que já são reconhecidos, mas a maioria ainda não é. Outro dia, recebi materiais do povo Poruborá, cuja existência eu, que sou originária, ainda não tinha conhecimento.  

Nós fazemos o possível para produzir os livros, mas nem sempre conseguimos, porque somos independentes, somos uma semeadura, então às vezes não temos fomento para que isso aconteça. A sociedade é capitalista e isso perpassa a literatura. Tanto é que nossa editora opta por não vincular nosso trabalho em grandes livrarias, que trazem processos que nos inviabilizam mais ainda. Trabalhamos com livrarias pequenas, como a Livraria Maracá, especializada em literatura indígena brasileira.

Além disso, nossos livros ainda passam por um crivo de aceitação, porque as pessoas olham para eles e veem o místico, a cosmovisão do povo, mas ignoram a luta dos povos originários e um envolvimento maior na causa. O meu livro Boacé Uchô, por exemplo, que traz narrativas do meu povo puri na Serra da Mantiqueira, é sobre a nossa história – não é lenda ou conto. 

Portal Cenpec: A produção literária e o conhecimento dos povos originários chegam à sociedade em geral e, principalmente, no sistema educativo?

Aline Rochedo Pachamama: Atualmente há um movimento midiático significado em relação ao povo originário, mas ainda é pouco. Na estrutura da sociedade, nós ainda não estamos acolhidos. Os povos originários ainda tem que lutar pelo direito a estar no seu território, pelo direito à vida do seu filho. Por que? Porque o que se ensina sobre nós é um equívoco.

Os autores originários não conseguem espaço nas salas de aula porque o currículo escolar está errado. Eles trabalham a Revolução Francesa como a grande revolução da democracia, quando nossos quilombos são movimentos superiores. Nos territórios dos povos originários, as escolas são construídas pelo próprio povo, mas depois são ocupadas pelo Estado, que impõe sua filosofia e currículo e ignora a cultura local. Ele coloca palavras em inglês nas paredes das escolas originárias e não dá abertura, por concurso, para que o(a) professor(a) originário(a) trabalhe nessa escola. 

Nos livros didáticos, ícones da sabedoria nas escolas, os povos originários são tratados como passado histórico. Dizem “os puris viviam aqui”, sendo que eu e meu povo estamos aqui ainda. Me tira desse tempo pretérito. 

As escolas não possuem um olhar regional, para o território. Eu estou aqui na Serra da Mantiqueira, e elas não me procuram ou, quando o fazem, me perguntam sobre a medicina da Amazônia. Tenho que explicar que a minha floresta é outra, é a Mata Atlântica. 

As pessoas nos tratam como se fôssemos personagens, e ainda perpetuam erros conceituais e históricos da década de 1960. É um sistema cruel, que continua trazendo a história do outro como a nossa história.

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Portal Cenpec: Qual o problema de trabalhar o Dia do Índio na escola?

Aline Rochedo Pachamama: Nas escolas, costumam trabalhar a nossa cultura no dia 19 de abril ou no mês da consciência negra, em novembro, já que os quilombos foram realizados em parceria com os povos originários (ainda que a história não reconheça esse fato). Mas o nosso mês deveria ser o agosto, por causa do dia 9, Dia Internacional dos Povos Indígenas, fruto da atuação de representantes dos povos originários nos anos 1980.

O Dia do Índio não é uma comemoração. Ela foi uma data estipulada por Getúlio Vargas, a fim de se apropriar de terras. Então ela não parte de um momento de luta nossa. Por causa da forma como isso foi imposto, nós acabamos ressignificando essa data. Hoje, queremos que a usem para relembrar o caso de Galdino Jesus dos Santos, professor e liderança pataxó hã-hã-hãe que saiu de sua aldeia para reivindicar o seu território em Brasília e foi assassinado no dia 20 de abril de 1997 por cinco jovens de classe média alta – que hoje ocupam cargos públicos. 

Mas as escolas ainda estão caindo no fetiche, na alegoria do índio. O índio não existe, não reconhecemos essa denominação. O que existe é povo originário. Isso precisa estar na escola, os alunos precisam entender que ainda temos 305 povos originários – talvez mais, porque alguns não foram identificados -, e 275 línguas originárias. E as pessoas reduzem tudo isso ao Dia do Índio.

Saiba mais sobre a importância de celebrar as línguas originárias

Portal Cenpec: Como as escolas deveriam trabalhar os povos originários em seus currículos?

Aline Rochedo Pachamama: Há possibilidade de falar dos povos originários o ano todo, de uma forma cotidiana, porque tem muito assunto: alimentação, linguística, história, geografia e por aí vai. 

Precisamos trabalhar o currículo de forma realmente democrática e valorizar a nossa raiz, inserindo a Lei 11.645 de fato no cotidiano escolar. Nas escolas dentro ou próximas do território Krahô, no Tocantins, por exemplo, os livros produzidos por autores e autoras krahô deveriam estar presentes. 

As escolas e as pessoas precisam ter um olhar para o povo originário mais próximo, porque esse povo tem produção literária. Ao fazer esse esforço de pesquisa, o(a) professor(a) vai encontrar informações sobre os povos originários da região. Quando for fazer o projeto político pedagógico, a escola deveria nos procurar – mas não para explorar o nosso saber, mas para ouvir. Ela deve deixar de ser um espaço de competividade, para ser um espaço de escuta, sem muro, que pratique uma educação para a liberdade – como bem dizia Paulo Freire. 

Não é difícil, o que falta é vontade e empenho das escolas de entenderem que os povos originários e os negros precisam estar na escola. É urgente que isso aconteça!

Conheça o projeto vencedor do Prêmio Respostas para o Amanhã 2016, que estimulou o convívio entre a comunidade escolar e os povos indígenas


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