O jornalismo e os desafios da educação no Brasil

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O jornalismo e os desafios da educação no Brasil

Confira destaques do 3º Congresso Internacional de Jornalismo de Educação, promovido pela Jeduca nos dias 19 e 20 de agosto
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Por João Marinho, Isabella Viana e Caia Amoroso

Aconteceu, nos últimos dias 19 e 20 de agosto, no Colégio Rio Branco, em São Paulo, o 3º Congresso Internacional de Jornalismo de Educação, promovido pela Associação de Jornalistas de Educação (Jeduca).

Com a presença de cerca de 480 pessoas nos dois dias do evento, políticas públicas e financiamento da educação, o papel da cobertura da mídia, polarização política e Base Nacional Comum Curricular (BNCC) foram destaques do congresso, que teve como tema “O jornalismo de educação na era da desinformação”.

O Portal CENPEC Educação acompanhou algumas das 22 sessões, entre falas especiais, debates e oficinas.

Abertura do Congresso, com Antonio Gois.
Abertura do congresso, com o jornalista Antonio Gois. Foto: Isabella Viana.

O novo Congresso Nacional e a educação

Logo após a abertura, os deputados Caroline de Toni (PSL-SC), Pedro Cunha Lima (PSDB-PB) e Tabata Amaral (PDT-SP) debateram a visão do atual parlamento quanto à educação.

Sob mediação do jornalista, diretor da Jeduca e repórter da Folha de S. Paulo, Paulo Saldaña, a mesa tocou em temas polêmicos, como a tentativa de remover Paulo Freire como patrono da educação brasileira, o projeto Escola sem Partido, educação domiciliar e a polarização política atual.

De Toni, por exemplo, fez uma fala a favor da pluralidade para justificar seu projeto de lei que propõe retirar de Freire o título de patrono da educação brasileira. Segundo a deputada, o método Paulo Freire tinha uma matriz marxista e que, por isso, tê-lo como patrono privilegia uma ideologia em detrimento de outras. “Não queremos ter patrono”, disse ela, para quem o método apresentou resultados insuficientes. A afirmação, porém, contraria as evidências apresentadas por estudos e especialistas.

⇒ Confira o que o Portal CENPEC Educação já publicou sobre Paulo Freire e sua importância como teórico e pedagogo.

Em contraste, Tabata Amaral e Pedro Cunha Lima declararam que esses temas não são os verdadeiramente relevantes para a educação. Para Amaral, iniciativas apoiadas pelo governo, como o Escola sem Partido e a educação domiciliar, são “cortinas de fumaça”.

“Não é isso que importa na ponta”, disse a deputada, para quem os temas polêmicos trazidos pela gestão Bolsonaro e Weintraub impedem discussões mais aprofundadas, como a do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb), que expira em 2020.

Pedro Cunha Lima, Tabata Amaral, Caroline de Toni e Paulo Saldaña.
Pedro Cunha Lima, Tabata Amaral, Caroline de Toni e Paulo Saldaña. Foto: Isabella Viana.

Já para Pedro Cunha Lima, a polarização e a discussão política “baseada em memes”, em parte devido à forte carga ideológica do governo federal, são prejudiciais, impedindo que se discuta, por exemplo, o próprio financiamento, a sobrecarga que recai sobre os municípios – responsáveis pela maior parte da educação básica, mas os que menos arrecadam entre os entes federados – e os resultados de aprendizagem em exames como o Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA).

Soluções educacionais não vêm com soluções ideológicas.”

Pedro Cunha Lima

Sandra Martins
Foto: Caia Amoroso.

A escola tem voz

“Participar do Congresso trouxe alimento intelectual e alimento afetivo para mim, tanto como profissional da educação quanto da mídia (…). Achei muito importante o que a adolescente Julia Farias falou em ‘A visão do estudante sobre a cobertura da imprensa’. Ela reivindicou mais atenção por parte da mídia aos adolescentes, ao comentar o episódio da ocupação das escolas ocorrida em 2016. Os estudantes foram massacrados, literalmente. Precisamos, enquanto jornalistas, compreender que a escola tem voz”.

Sandra Martins, jornalista e mestre em História pela UFRJ.

Oficina esclarece Fundeb

O Fundeb foi tema de uma oficina realizada pelo ex-secretário de Educação do Acre e conselheiro do CENPEC Educação, Binho Marques, que contou com mediação do editor-assistente do caderno “Metrópoles” do jornal O Estado de S. Paulo, Victor Vieira.

A oficina teve a participação de 60 pessoas e foco em explicar como funciona o financiamento público da educação brasileira e o papel do Fundeb para a garantia da oferta e da qualidade do ensino.

Quando se fala de Fundeb, [é preciso] que façamos um esforço para que nós, pessoas envolvidas com educação, no nosso limite, possamos construir uma união para uma boa proposta.”

Binho Marques

O palestrante apresentou um panorama histórico de fundos governamentais na área de educação, explicou como funciona o Fundeb e as novas propostas para o Fundo. Segundo Marques, um desenho adequado diminuiria as distorções presentes no atual modelo. “O Fundeb diminui desigualdades, mas acaba também gerando mais disparidade entre os municípios”, explica.

Binho Marques, conselheiro do CENPEC Educação, na oficina "Financiamento: o que vai mudar com o novo Fundeb e onde encontrar os dados".
Binho Marques, conselheiro do CENPEC Educação, na oficina “Financiamento: o que vai mudar com o novo Fundeb e onde encontrar os dados”. Foto: Isabella Viana.

O conselheiro do CENPEC Educação chama a atenção para a necessidade de transparência no repasse do dinheiro para estados e municípios. “Não se sabe quanto dinheiro chega efetivamente à sala de aula”, afirma. Marques ainda reforça que, no que tange ao financiamento, “a educação deve ser simples e para todos, porque, se não for simples, não tem como ser para todos”.

Quanto mais gente debatendo o assunto, mais empenho para a construção de um bom projeto (…), um projeto que realmente defenda a educação do Brasil.”

Binho Marques

⇒ Quer saber mais sobre Fundeb e financiamento da educação? Veja o que o Portal CENPEC Educação já publicou sobre esses temas.

Wellington Divino Pereira.
Foto: Caia Amoroso.

Contra a militarização

“Sou professor em uma escola que foi militarizada, em Goiás (…). O diretor capitão da PM assumiu no ano passado e reuniu alunos, professores e policiais para cantar o hino nacional e filmar os alunos, fez uma fala e leu a carta do MEC na íntegra, inclusive com o slogan de campanha (…). Eu me manifestei dizendo que era contrário à leitura da carta e à filmagem, posição suficiente para começar a ser perseguido (…): fui afastado por 60 dias. A escola cívico-militar é extremamente excludente: eles criaram uma associação chamada APMF – Associação de Pais, Mestres e Funcionários, para arrecadar fundos e (…) escolhem pela pele, pelo desempenho escolar, aqueles que têm condições de pagar a taxa, comprar uniformes caros – e selecionam alunos e professores com o perfil seguindo esses critérios. Um congresso como este dá oportunidade tanto para o estudante quanto para o professor entender que a população precisa conhecer a verdade.”

Wellington Divino Pereira, professor em São Luís de Montes Belos (GO).

⇒ Leia a nota técnica do CENPEC Educação sobre as escolas cívico-militares.

Alfabetização na prática

Professoras de escolas referências em alfabetização, Ticiane Maria de Souza Silva (Sobral, CE) e Mirlene Barcelos (Lagoa Santa, MG) contaram suas experiências com a alfabetização, no dia 20, com mediação da repórter Ana Carolina Moreno.

Ambas apresentaram os processos e ações das escolas municipais que atuam e falaram sobre as políticas públicas para o ensino básico durante a mesa “Alfabetização na prática”.

Ticiane Silva, Ana Carolina Moreno e Mirlene Barcelos.
Ticiane Silva, Ana Carolina Moreno e Mirlene Barcelos. Foto: Isabella Viana.

O ponto em comum apontado pelas docentes foi a importância da construção coletiva: a escola e os professores trabalhando juntos, com foco nos alunos, essencial para o desenvolvimento de habilidades de leitura e escrita. “Para a alfabetização efetiva, é necessário um trabalho de todos”, defendeu Ticiane Silva, especialista em educação infantil pela Universidade Federal do Ceará (UFC).

Já Mirlene Barcelos – que participou de um projeto de alfabetização baseado no método de Magda Soares, que também pautou o projeto Letra Viva Alfabetiza, do CENPEC Educação – ressaltou que é fundamental desenvolver um trabalho realizado em conjunto com secretarias de Educação, para além das práticas de cada governo.

A professora também comentou sobre a polêmica sobre os métodos de alfabetização, trazidas recentemente pelo Ministério da Educação (MEC) via Plano Nacional de Alfabetização (PNA). “Método bom é o que o professor conhece”, disse ela, sem deixar de pontuar que é importante que a aprendizagem seja significativa para o aluno, ou seja, dialogue com sua realidade.

As professoras também defenderam que toda criança tem direito a aprender e que é preciso focar no que é essencial, como políticas públicas efetivas: “O que mais a educação necessita nesse momento?”, questionam.

Saiba mais

As especialistas Magda Soares e Maria Alice Junqueira concederam entrevista sobre o PNA para o Portal CENPEC Educação. Confira.

Janaina Pereira da Silva.
Foto: Caia Amoroso.

Educação e realidade

“Com a tecnologia, vejo que a comunicação e a educação se aproximam cada vez mais: as plataformas e as redes sociais tornam todo o trabalho muito mais próximo, e (…) minha tese é sobre jornalismo de educação. Por isso, estou aqui. Este ano, eu achei muito especial, porque a Jeduca trouxe professor e aluno para falar de educação, e não apenas comunicadores – e eu senti que foi bem ‘pé no chão’ (…). As pessoas precisam de realidade e de boas histórias para servirem de exemplo para tempos melhores.”

Janaina Pereira da Silva, estudante de jornalismo. 

A BNCC e o Ensino Médio

Adriana de Cássia Moreira, professora da Escola Municipal de Ensino Fundamental (EMEF) Dr. José Dias da Silveira, em São Paulo (SP); Katia Stocco Smole, ex-secretária de Educação Básica do MEC e diretora do Instituto Reúna; e Frederico Amancio, secretário de Educação de Pernambuco, participaram da mesa “A implementação da BNCC e a reforma do Ensino Médio”. A mediação foi do jornalista e mestre em Literatura pela USP, Paulo de Camargo.

O debate tratou da importância tanto da BNCC do Ensino Fundamental quanto da do Ensino Médio, que, em 2019, começam a ser implementadas em estados e municípios.

Adriana Moreira, Fred Amâncio, Paulo de Camargo e Katia Smole.
Adriana Moreira, Fred Amancio, Paulo de Camargo e Katia Smole. Foto: João Marinho.

Apesar dos desafios em fazer a Base, finalmente, chegar às redes de ensino e às salas de aula, o momento atual de sua implementação e o próprio documento curricular foram abordados de maneira positiva pelos debatedores.

Para Frederico Amancio, por exemplo, a discussão sobre a implementação da BNCC tem a possibilidade de trazer para o debate uma série de outras questões relevantes da educação, à maneira do que ocorreu em outros países: formação inicial e continuada dos professores, material didático, direito à aprendizagem, avaliações – e propostas pedagógicas para a educação infantil, que, até então, era essencialmente vista por um prisma de assistência, segundo o secretário.

Chegou o momento de pararmos de apenas contar a história bonita da escola ou do município que faz um trabalho maravilhoso – e trabalhar para algo que seja para todo o Brasil e para todas as escolas.”

Frederico Amancio

Katia Smole e Adriana Moreira, por sua vez, enfocaram o Ensino Médio e a formação de professores para a Base em suas falas. Para Smole, tanto a Base para o Ensino Médio quanto os itinerários formativos trazidos pela reforma dessa etapa da educação básica são avanços para torná-la mais atrativa, ainda que nem todas as escolas possam oferecer todos os itinerários. Moreira, no entanto, destacou a necessidade de estados e municípios propiciarem mais formação aos professores sobre a BNCC, iniciativas estas que ainda se encontram muito incipientes, segundo a professora.

Finalmente, a proposta de articulação com o território, trazida pela BNCC, foi vista como importante dentro de uma perspectiva de educação integral, bem como o protagonismo que a União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime) e o Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed) têm adotado no processo de implementação.

Saiba mais

Lançado pelo Movimento pela Base Nacional Comum Curricular, o Banco de Informações e Práticas sobre a BNCC traz informações atualizadas para entender como as orientações do documento funcionam no dia a dia.