Materiais para uma educação inclusiva

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Materiais para uma educação inclusiva

Entenda os princípios envolvidos construção de materiais voltados à inclusão e tenha acesso a mais de 50 recursos para replicar em sala de aula
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Por Stephanie Kim Abe

No começo de 2020, quando ficou sabendo que teria dois alunos com deficiência na sua turma de 1º ano do ensino fundamental, a professora Thais Izumi da Cruz ficou assustada. Leonardo é surdo e Lorenzo tem Transtorno do Espectro Autista (TEA). 

Eu nunca tinha tido contato, nem com o autismo nem com a surdez. Foi a primeira vez que eu tive alunos com deficiência e não sabia mesmo como lidar com a situação. Ainda mais no primeiro ano, que é fase de alfabetização e eles lidam muito com o som das letras. Fiquei perdida, pensando: como trabalhar isso com a criança que não ouve?”

Thais Izumi da Cruz

Ao longo do ano letivo, ela foi descobrindo mais sobre os alunos e as barreiras que enfrentavam para o seu aprendizado. No caso do aluno autista, não foi preciso muitas adaptações no seu material, conta a professora, que hoje está em outra escola da rede municipal de Peruíbe, no litoral sul do estado de São Paulo:

Foto: arquivo pessoal

Esse estudante era muito inteligente e acompanhava o conteúdo melhor que alguns alunos da turma regular. Tive que readequar mais em relação a espaço e tempo, na questão de volume de atividade, porque ele não tinha tanta concentração. Acabei incluindo mais atividades lúdicas, que prendessem sua atenção, como jogos.”

Thais Izumi da Cruz

O trabalho com o estudante com deficiência auditiva demandou mais adaptações, já que havia uma barreira comunicacional entre ele e a comunidade escolar, como explica a professora:

Como o aluno surdo não ouve, as sílabas e o som das letras não fazem sentido pra ele. Então eu adaptei todas as atividades para incluir a palavra inteira, global, uma imagem e o sinal de Libras. Foi bom para o ele, que conhecia Libras, e também para os outros, que não sabiam ler. Nós estávamos começando esse movimento de sinalização da sala e dos ambientes da escola quando a pandemia chegou e tivemos que fechar a escola.”

Thais Izumi da Cruz

Conheça mais sobre a HQ em Libras: Sol, a pajé surda


Conceito social de deficiência 

Identificar a barreira externa que impede a pessoa com deficiência de exercer a sua plena participação no ambiente em que se encontra é chave para entender o conceito social de deficiência que impera hoje em dia e é base para a educação inclusiva. 

Em seu artigo 2º, a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (13.146/15) considera:

pessoa com deficiência aquela que tem impedimento de longo prazo de natureza física, mental, intelectual ou sensorial, o qual, em interação com uma ou mais barreiras, pode obstruir sua participação plena e efetiva na sociedade em igualdade de condições com as demais pessoas.” 

Lei 12.146/2015

Regina Mercurio, coordenadora do projeto Materiais Pedagógicos Acessíveis do Instituto Rodrigo Mendes, explica:

Foto: arquivo pessoal

Existe uma cultura de pensar que a pessoa tem que se adequar à sociedade. O conceito social de pessoa com deficiência muda completamente esse foco, afirmando que todos têm o direito de estudar, de participar ativamente e se desenvolver em sociedade, e que para isso a sociedade, a escola precisa se transformar.
Muitos professores ainda têm dificuldade de entender isso e identificar essas barreiras. Por exemplo, a surdez não é uma barreira. Ela é uma condição do aluno. Qual a barreira para a aprendizagem? O fato de não conseguirmos nos comunicar. Se conseguirmos minimizar essa barreira, então teremos a plena participação desse estudante.”

Regina Mercurio

É daí que vem o conceito de acessibilidade: eliminar as diferentes barreiras presentes no espaço físico e social, que podem ser arquitetônicas, metodológicas, instrumentais, programáticas etc. 


Desenho Universal de Aprendizagem

Uma das soluções encontradas para minimizar a barreira comunicacional entre os colegas e o estudante Leonardo foi a criação do Jogo da Memória, para promover o aprendizado de Libras e língua portuguesa da turma. O projeto foi criado pela professora Thais em parceria com a professora do Atendimento Educacional Especializado (AEE) Raquel Maciel, a intérprete de Libras Alessandra Higa e a coordenadora pedagógica Patrícia Segura, todas da Escola Municipal de Ensino Fundamental (Emef) Professor Fernando Nepomuceno Filho, em Peruíbe.

Elas participaram do projeto Materiais Pedagógicos Acessíveis ao longo de 2020, uma iniciativa do Instituto Rodrigo Mendes em parceria com o MudaLab que busca formar docentes para criarem materiais que auxiliem o processo de ensino-aprendizagem em turmas compostas por estudantes com e sem deficiência.  

A confecção dos materiais tem como princípio o Desenho Universal de Aprendizagem (DUA), conforme explica Regina:

O Desenho Universal de Aprendizagem parte da ideia de que há múltiplas estratégias pedagógicas de envolver os alunos e garantir o seu engajamento, aprendizagem e expressão. Assim, pensar materiais pedagógicos acessíveis não é pensar em um material específico para o aluno com deficiência, mas em um recurso que pode ser utilizado no grupo da sala comum, por todos.”

Regina Mercurio

Por isso, o Jogo da Memória foi utilizado por toda a turma. Em um contexto de ensino remoto, a professora decidiu por enviar o jogo para a casa dos alunos, que o utilizavam por dois ou três dias com os seus familiares e depois devolviam na escola. Foram tomadas todas as medidas de higienização para garantir a segurança no repasse do material aos alunos. Como conta a professora Thais:

Foi uma experiência muito positiva e tivemos um feedback muito bom. Os pais falaram que não conheciam nada sobre Libras, que acharam superinteressante. Foi uma proposta muito legal porque eles aprenderam muito junto com as crianças.”

Thais Izumi da Cruz

A potência da cultura maker

O Jogo da Memória é um dos 56 materiais que estão disponíveis gratuitamente para consulta na plataforma Diversa, do Instituto Rodrigo Mendes. Em cada um deles, há um vídeo explicando a construção (com Libras, audiodescrição e legenda), além da sua articulação com a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e um passo a passo de como confeccionar o material. 

Veja aqui todos os Materiais Pedagógicos Acessíveis 

Eles foram construídos por educadores e educadoras que participaram do projeto Materiais Pedagógicos Acessíveis desde a sua criação, em 2018. Ao pensar em ideias para solucionar as barreiras identificadas para a plena aprendizagem dos estudantes com deficiência, o projeto estimula a cultura maker dos(as) professores(as).

A ideia é que eles se apropriem das tecnologias de ponta para criar materiais que podem ser mais sensoriais, tornando o ensino mais prazeroso, interessante e acessível para todos(as) os(as) estudantes, não só os(as) com deficiência. O resultado são materiais interativos e criativos, como uma maquete do sistema solar construída em MDF que simula o movimento dos planetas em suas órbitas, e um mapa das placas tectônicas construído em 2D e cortado A laser. 

O projeto se utilizava dos espaços Fab Lab Livre SP, rede de laboratórios públicos de fabricação digital espalhada pela capital paulista, para dar acesso e condições tecnológicas para que os(as) educadores(as) desenvolvessem esses materiais. Lá eles(as) tinham acesso a máquinas A laser, impressoras 3D etc. Como a formação em 2020 foi 100% on-line, sem acesso a esses espaços, a solução foi enviar kits de tecnologia para os três municípios paulistas participantes: Nova Odessa, Peruíbe e Cruzeiro. Os kits continham dispositivo de áudio, arduíno e dado digital e sonoro.

Para Regina Mercurio, a dificuldade da formação remota e da limitação do acesso à tecnologia fortaleceu algumas colaborações importantes entre os participantes:

Como eram poucos kits, os professores precisaram resolver entre eles o que cada um ia fazer, quem ia cortar, quando iam discutir as questões, como fazer para adaptar o material. Vimos que eles tiveram muito apoio da comunidade: a mãe de um aluno confeccionou os bonequinhos, o marido da professora ajudou na parte eletrônica etc. Nós enviamos tutoriais e estivemos disponíveis sempre pra ajudá-los, principalmente para garantir que eles tivessem essa experiência prática com a tecnologia, sem esquecer que ela por si só não é um material pedagógico acessível, mas sim um recurso que contribui para a sua criação.” 

Regina Mercurio

Na Corrida do Desafio, material acessível criado na edição de 2020 pela Escola Municipal de Ensino Fundamental e Educação Infantil (Emefei) Dante Gazzetta, de Nova Odessa, no interior paulista, o jogo de tabuleiro é inspirado em elementos presentes no entorno da escola, e tem farol de led, áudios e alfabeto móvel com imagens, braile e Libras para incentivar o processo de escrita e leitura dos estudantes. Para jogar, os estudantes devem acionar o dispositivo de áudio e ouvir as parlendas e canções. Depois, precisam montar a palavra solicitada para avançar casas no tabuleiro.

O Jogo da Memória foi construído em painel MDF, com cartas plastificadas para a associação de figuras com a língua portuguesa e a de sinais, e um dado eletrônico. Para a professora Thais, a formação foi importante para lhe dar segurança e incentivo pra trabalhar com a tecnologia:

Apesar de ter 33 anos, eu ainda tenho muita resistência com as questões tecnológicas. Não sei mexer em muita coisa ainda e o medo de falhar nos impede de seguir em frente, botar a mão na massa. A formação em si deu essa motivação, esse empoderamento, de vermos que conseguimos e podemos fazer, independente das dificuldades. Acredito que nós, enquanto professoras, estamos sempre criando, seja um joguinho de EVA ou um cartaz em cartolina. São coisas simples, mas que pra mim mostram que somos todos um pouco maker, por questão de necessidade, de se adaptar e fazer acontecer.”

Thais Izumi da Cruz

Educação inclusiva no ensino remoto

Uma das principais preocupações dos(as) especialistas em educação hoje é o aumento da evasão escolar por causa da pandemia. De acordo com a pesquisa Enfrentamento da cultura do fracasso escolar, mais de 5 milhões de crianças e adolescentes foram privadas do seu direito à educação em 2020. O perfil desses estudantes é facilmente identificável: em sua maioria, crianças e adolescentes negros(as) e indígenas ou com deficiências, concentrados(as) nas regiões Norte e Nordeste.

A dificuldade de acesso à internet se torna central nesse cenário, já que as atividades pedagógicas em muitos lugares têm se dado por meio da tecnologia. Para Regina Mercurio, esse é um recorte social importante de ser compreendido:

As pesquisas mostram que a maioria dos estudantes no Brasil não tem acesso à internet, é uma questão de desigualdade social – independente de se têm deficiência ou não. Porque temos alunos com deficiência com internet e alunos com deficiência sem internet.”

Regina Mercurio

Para garantir que a escola mantenha o vínculo e o aprendizado de todos(as) os (as) alunos(as) nessas atividades remotas, Regina destaca a importância de experiências de professores(as) que têm buscado diversificar o trabalho pedagógico, utilizando não só os materiais impressos, mas mandando vídeos com Libras e áudios pelo WhatsApp e propondo diferentes recursos e estratégias. 

Ela também chama atenção para o trabalho que a gestão escolar precisa fazer para apoiar os(as) alunos(as) com deficiência nesse período:

Muitas escolas têm materiais acessíveis que ficam na sala de recursos, e que deveriam ser utilizados dentro do plano de aula de acesso ao currículo, não restritos ao atendimento do AEE. Além disso, várias redes têm recursos de tecnologia assistiva nessas salas. É possível disponibilizar esse material para o estudante com deficiência? Às vezes, uma escola tem uma lupa parada, porque ela não tem nenhum estudante com baixa visão matriculado. Será que ela não pode ir para a mão de outro aluno, de outra escola? A gestão precisa fazer essa função de organizar e disponibilizar meios para que a aprendizagem dos alunos continue acontecendo.” 

Regina Mercurio

Confira mais orientações para uma educação inclusiva na pandemia


Trabalho colaborativo e troca de saberes

Trabalhar ao lado da e em parceria com a intérprete de Libras foi essencial para que a professora Thais Izumi pudesse entender melhor do universo e das necessidades dos seus alunos com deficiência. É justamente por saber a importância desse trabalho em conjunto que a formação Materiais Pedagógicos Acessíveis inclui o(a) professor(a) da sala comum, o(a) professor(a) do AEE e a coordenação pedagógica, além de estimular a participação dos(as) próprios(as) alunos(as) e das famílias.

Com o desafio do ensino remoto, a edição de 2020 trouxe um estreitamento dessa relação, explica Regina:

É muito comum os estudantes com deficiência ficarem a cargo somente dos profissionais do AEE, pois eles têm mais contato com as famílias, são especializados etc – o que é um tremendo risco. Com o ensino remoto, estavam todos no terreno de não-saber em relação às tecnologias (mandar um áudio no WhatsApp, anexar um arquivo etc.). Isso trouxe uma tendência maior de se juntar, de um trabalho mais colaborativo entre esses professores e a coordenação. Em relação aos alunos, eles tiveram o cuidado com a mediação e a escuta, para saber como estavam atingindo os estudantes e como seguir planejando.”

Regina Mercurio

O projeto já formou 127 educadores(as) de escolas públicas paulistas e impactou cerca de 1,3 mil estudantes. Este ano, o projeto tem caráter nacional, já que pela primeira vez conta com a participação de redes municipais de todas as cinco regiões brasileiras. Regina comenta os motivos e comemora as possibilidades trazidas por essa expansão do projeto:

Uma coisa positiva do formato virtual é que podemos falar de qualquer lugar do mundo. Tivemos mais de 50 municípios inscritos, muitos do Nordeste. Acredito que será muito vantajoso, porque são territórios absolutamente distintos, com outras culturas e histórias. Essa diversidade enriquecerá a formação, tanto para eles quanto para nós, principalmente na questão da criatividade e no pensar caminhos diferentes a serem trilhados nesse processo.”

Regina Mercurio
Assim Vivemos 2021 - Online - Assim Vivemos

Festival Assim Vivemos On-line

Dos dias 10 a 14 de abril, acontece o Assim Vivemos – Festival Internacional de Filmes sobre DeficiênciaO evento on-line traz a exibição de filmes brasileiros e internacionais que marcaram as edições anteriores, além de dois filmes brasileiros inéditos: O que pode um corpo?, de Victor Di Marco e Márcio Picoli, e Stimados autistas, de Cristiano de Oliveira, que traz relatos de adultos autistas diagnosticados tardiamente.

A programação conta também com debates e materiais didáticos disponibilizados gratuitamente, divididos em quatro temas:Arte e Diversidade, Escola e Vida Independente, Vida Amorosa e Autonomia, e Autismo e Neurodiversidade.

Toda a programação conta com recursos de acessibilidade comunicacional, como  audiodescrição, LIBRAS e Legendas LSE.

Saiba mais no site oficial


Informação e formação pelo direito à educação
Para apoiar educadores(as), gestores(as) e redes de ensino neste momento complexo, sistematizamos nossas produções sobre essa temática desde o início da pandemia no Brasil. Confira #EducacaoNaPandemia


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