Em atividade no CENPEC Educação, jovens falam sobre sua mobilização em defesa da educação pública

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Em atividade no CENPEC Educação, jovens falam sobre sua mobilização em defesa da educação pública

Roda de conversa realizada pelo CENPEC Educação trouxe alunos e educadores para discutir as ocupações nas escolas de São Paulo.
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Por Christiane Gomes

O auditório do CENPEC Educação foi cenário, em 3 de dezembro, de uma potente e produtiva aula de cidadania, participação social e valor à escola pública brasileira.

Os professores não eram os mesmos de sempre, mas meninos e meninas com idades entre 15 e 17 anos, estudantes da rede pública estadual que estão na linha de frente da luta contra a reorganização da rede de ensino do estado, que culminaria no fechamento de 93 escolas.

Foi a roda de conversa “O protagonismo estudantil contra a reorganização da rede estadual de ensino”, promovida pelo CENPEC Educação, com transmissão ao vivo, e que teve a participação de estudantes, pesquisadores, educadores e representantes de coletivos e organizações da sociedade civil. Veja como foi.

Cerca de 15 estudantes que participam do movimento de ocupação das escolas em São Paulo estiveram presentes na roda de conversa onde puderam colocar suas propostas e percepções acerca da educação pública.

Para além da luta contra o fechamento das escolas, o que é em si uma profunda demonstração de vínculo e pertencimento desta juventude junto às suas instituições de ensino, durante a atividade eles também falaram sobre como vislumbram a escola do século XXI, para eles e as próximas gerações.

“Estamos tendo aulas que estão nos empoderando,  porque nas aulas normais os professores não dão voz pra gente. A gente não tem tempo de refletir sobre o que aprendeu. Estamos aprendendo a ter voz nas escolas. Não é simplesmente chegar lá e só ficar vendo ou ouvindo. Temos que fazer nossa aula, nos enturmar com os professores”, afirmou a estudante Elaine Nunes.

“A escola que nós queremos é uma escola onde nós possamos aprender de outras formas que não só na lousa e no caderno. É o aluno poder ir ao laboratório de química, é a aula de música. Durante as reuniões semanais com as outras escolas ocupadas, percebemos isso”, completou a estudante Dafine Damasceno.

O integrante do coletivo Jornalistas Livres, Fernando Sato, que está acompanhando as atividades em diversas escolas ocupadas,  destacou que a intensa relação entre professores e estudantes, que uniram forças neste momento histórico de protagonismo da juventude. “Eu fui à várias escolas e é linda a relação entre professores e alunos.  A construção da mobilização, dia a dia, com diversas atividades, fez com que os estudantes tomassem as escolas para si e elas nunca mais serão as mesmas: as escolas e a juventude”.

Mobilização estudantil

Os estudantes criticaram também a tentativa da Secretaria de Educação de separar os alunos por níveis de ensino e, consequentemente, por idade. A riqueza da convivência foi posta como algo imprescindível para a formação dos estudantes do Fundamental I e II e do Ensino Médio.

“Tem aluno da 6º ano do Fundamental II que sabe coisas que eu não sei com 17 anos estando no último ano do Ensino Médio – e é aquilo: eles estão aprendendo com a gente? Não. Nós é que estamos aprendendo muita coisa com eles. Essa integração é importante, e o governador está querendo proibir que tenhamos qualquer tipo de interação e troca de experiências”, disse Dafine.

Após o governo anunciar que iria promover uma reestruturação da rede estadual de ensino, o que culminaria no fechamento de 94 escolas, os estudantes iniciaram um movimento de ocupação das escolas que se espalhou por diversas regiões do estado.

Apesar do apoio do Ministério Público e Defensoria Pública, que reconheceram a legitimidade do movimento, e do Tribunal de Justiça, que havia suspendido todas os pedidos de reintegrações de posse das escolas, o governo do estado insistia em manter a reorganização, chegando a publicá-la no Diário Oficial de 2 de dezembro.

Sem diálogo por parte do governo, que insistia em manter a reforma, e tratar a questão como caso de polícia, o movimento estudantil começou a ocupar e fechar, grandes cruzamentos das ruas da capital paulista, sofrendo com a forte repressão da Polícia Militar.

Pressionado pelas ocupações de escolas, pelo fechamento de importantes vias na cidade de São Paulo (ações de mobilização dos estudantes) e pelo crescente apoio da sociedade civil, o governador Geraldo Alckmin anunciou na tarde de 4 de dezembro a suspensão, por um ano, do projeto de reorganização da rede estadual de ensino. Como consequência, o secretário de Educação, Hermann Voorwald, pediu demissão do cargo.

De acordo com a organização dos estudantes, apesar da sinalização da suspensão, a ocupação das escolas deve ser mantida: “Imediatamente, nossa postura deve ser a de não desocupar as escolas e não desarticular nossa mobilização”, diz uma nota divulgada pelo movimento dos estudantes.

“Primeiramente, é preciso aguardar um parecer jurídico oficial que ateste que Alckmin não está manobrando o movimento e a publicação no Diário Oficial. Além disso, antes de desocupar, precisamos de outras garantias importantes, como a liberdade de todos os manifestantes atualmente presos e a não punição de ninguém envolvido na luta. Consolidando nossa vitória, nada será como antes para nossa luta em 2016, que deve continuar. Nós, estudantes, provamos o poder que temos!”, afirma o documento.

Confira a facilitação gráfica realizada durante o evento pelo artista Edson Pelicer. Clique para ampliar.

Leia a íntegra da nota divulgada pelos estudantes:

Estudantes divulgam nota e comentam a suspensão da reorganização do sistema de ensino

Movimento dos estudantes divulga Nota comentando a suspensão da reorganização do sistema de ensino anunciada pelo governador Geraldo Alckmin em 4 de dezembro

A JUVENTUDE EMPAREDOU GERALDO ALCKMIN! 
SEGUIR NA LUTA PARA GARANTIR NOSSAS VITÓRIAS

Após semanas de mobilização de estudantes secundaristas, mães, pais, professores e milhares de apoiadores de diversas comunidades, bairros e cidades do Estado de São Paulo, ocupação de mais de 200 escolas, manifestações e trancamentos de avenidas, a força da nossa luta obrigou o Governador Geraldo Alckmin a finalmente se pronunciar.

Esse pronunciamento acontece depois de sua popularidade ter caído drasticamente, conforme divulgado pela Datafolha nessa manhã. O movimento em apoio a luta dos estudantes contra a reorganização atinge 61% da população. Se cai a popularidade do governador, aumenta o apoio a nossa luta.

A juventude que luta hoje contra a reorganização aprendeu com Junho de 2013 como derrotar os poderosos.

Na coletiva de imprensa realizada há poucos minutos, o governador e seus representantes afirmam que a Reorganização Escolar foi adiada até 2017, assegurando as matrículas dos estudantes em suas atuais escolas. A se confirmar esta informação, teremos uma expressiva vitória dos estudantes! Todas as mudanças até ontem consideradas irreversíveis pelo governo serão suspensas em 2016. Sem dúvida, Alckmin tentará retomá-las em 2017, mas, saindo moralizados e vitoriosos de nossa luta neste ano, será que o governador terá coragem de mexer com os estudantes no ano que vem de novo? Se mexer, já sabe: vai sair perdendo de novo.

Imediatamente, nossa postura deve ser a de não desocupar as escolas e não desarticular nossa mobilização. Primeiramente, é preciso aguardar um parecer jurídico oficial que ateste que Alckmin não está manobrando o movimento e a publicação no Diário Oficial. Além disso, antes de desocupar, precisamos de outras garantias importantes, como a liberdade de todos os manifestantes atualmente presos e a não punição de ninguém envolvido na luta. Consolidando nossa vitória, nada será como antes para nossa luta em 2016, que deve continuar. Nós, estudantes, provamos o poder que temos!

É preciso comemorar! Pela segunda vez na história recente do Estado de SP, a juventude dobra a espinha de um governador truculento. Só nós sabemos o quanto lutamos para finalmente desmoralizar Alckmin, convencer toda a sociedade e derrotar a reorganização.

Em 2016, vamos seguir lutando para assegurar mais direitos e derrotar de vez o projeto de reorganização. A coragem e a força que demonstrou o movimento secundarista é irreversível. Ressignificamos o espaço das escolas públicas, que passaram a ter vida política, cultural e em consonância com os sonhos e necessidades de estudantes e das comunidades locais. Nunca a escola pública foi tão ocupada e bem aproveitada como sob o controle dos estudantes.

Estudantes de diversas escolas se reúnem nesse momento em reunião para pensar os próximos passos. Mais informações em breve.

Nossa luta, assim como em 2013, deixa um ensinamento que percorrerá os próximos anos: é possível vencer! E se o Estado vier quente, nós vamos seguir fervendo.