Diagnosticar antes, intervir depois

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Diagnosticar antes, intervir depois

Coletar dados e identificar estudantes com dificuldades de aprendizagem são aspectos determinantes para o trabalho de formação docente no apoio pedagógico complementar
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Por Stephanie Kim Abe

Antes de pensar nas intervenções pedagógicas, é preciso identificar quais as dificuldades de aprendizagem e quais os(as) estudantes que as estão enfrentando. No Programa Apoio Pedagógico Complementar (APC), esse diagnóstico inicial é parte essencial na elaboração do Plano de Ação, e caracteriza-se pela “postura investigativa sobre o problema” no município.

Essa investigação não deve focar apenas no diagnóstico de aprendizagem. Ela precisa ser mais abrangente, olhando para dados como as taxas de distorção idade-ano, de reprovação e de abandono escolar.

Érica Catalani, coordenadora do Apoio Pedagógico Complementar, explica:

Foto: arquivo pessoal

Sabemos que existem grupos sociais mais afetados pelo problema da distorção idade-ano. Se pensarmos no recorte por gênero, os meninos aparecem em maior quantidade nessa taxa, por raça/cor, autodeclarados pretos e pardos estão em maior percentual. Se olharmos por nível socioeconômico, os estudantes de baixa renda são os mais afetados. Olhar para esses estratos ajuda a ajustar as ações de enfrentamento do problema. A ideia é fazer com que as Secretarias e as escolas percebam e reflitam sobre os grupos sociais mais afetados, desigualdades que também estão presentes nas esferas educacionais”

Érica Catalani

De acordo com a pesquisa Enfrentamento da cultura do fracasso escolar, realizado pelo Cenpec, em parceria com o Unicef Brasil e o Instituto Claro, os mais impactados pela cultura do fracasso escolar são estudantes negros(as) e indígenas, os meninos, as pessoas com deficiência e aqueles(as) residentes nas regiões do Semiárido e da Amazônia (regiões Norte e Nordeste, principalmente).

Saiba mais sobre a pesquisa aqui


Coletando dados

Para ajudar os(as) 240 técnicos(as) e gestores(as) de 13 municípios do Baixo Paraíba que estão participando das formações nessa empreitada, a equipe do APC tem estimulado a  postura investigativa e ofertado alguns instrumentos para auxiliar o levantamento de dados. São indicadas fontes primárias, como os microdados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), o banco de dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad) e das próprias secretarias, e secundárias, caso de plataformas como o QEdu e o Trajetória Escolar.

Érica explica que há vantagens e desvantagens no uso de cada uma delas, e que um diagnóstico mais efetivo acaba bebendo de todas as fontes. Na plataforma Trajetória Escolar, do Unicef, os dados agrupados por município já trazem uma análise por grupos sociais, ou seja, mostram quantos dos(as) estudantes em distorção idade-anosão do gênero feminino ou masculino, quantos são autodeclarados negros, brancos ou pardos; quantos estão na zona rural ou urbana; quantos possuem deficiência ou não. A taxa de distorção idade-ano aponta o(a) aluno(a) com dois ou mais anos de idade acima da considerada adequada para o ano escolar.

As fontes primárias e secundárias também são boas para oferecer um percurso série-histórica dos dados levantados, e são uma saída para os municípios que não tem pessoal especializado entre a sua equipe técnica para fazer levantamento e tratamento de dados.

É preciso olhar para as limitações que essas fontes trazem, por não permitir a identificação nominal dos(as) estudantes que necessitam de apoio pedagógico. Para buscar dados atuais, deste ano letivo, o jeito é fazer o levantamento nas escolas, podendo usar os instrumentos oferecidos pelo APC. Érica aponta a importância da rede olhar para a sua própria produção e de saber trabalhar com todos esses dados:

O mais importante não é saber quantos, mas saber quem são essas pessoas. Por isso, temos reafirmado que as fontes de dados quantitativos são importantes, nos ajudam a tomar decisões, mas não são suficientes, precisam ser complementadas. Às vezes, a Secretaria já faz um levantamento desses dados, ou seja, tem uma fonte primária, mas ele não é manipulado pelo setor pedagógico da secretaria de educação. A nossa ideia é que eles sejam utilizados para pensar a formação de docentes e de intervenções pedagógicas.”

Érica Catalani

Identificando as causas

Uma vez coletados esses dados, é preciso ir além de descobrir as possíveis causas dessa distorção idade-série. Érica explica que a maioria dos casos de distorção idade-série é fruto de reprovação, o que caracteriza uma dificuldade de aprendizagem. Mas há também outros motivos a serem considerados: o aluno pode ter abandonado a escola para trabalhar ou ter entrado na escola tardiamente.

Há estudantes na zona rural que saem da escola em certo mês para ajudar os pais no trabalho, e aí perdem o ano. Então, esse abandono faz com que reprovem. Há alunos(as) que entram no primeiro ano com oito anos de idade e compõem as taxas de distorção mesmo que não passem por outras reprovações. Em ambos os casos, a distorção idade-ano não foi causada pela dificuldade  na aprendizagem.”

Érica Catalani

Para auxiliar as Secretarias, o Programa APC tem fornecido um instrumento para o diagnóstico das dificuldades. É uma prova padronizada, que não deve ser usada isoladamente pelas redes, mas complementada com outras avaliações construídas pelos(as) professores(as). Por ser um instrumento da gestão educacional, ele já traz também algumas das prioridades curriculares que devem fazer parte do currículo continuum.

Saiba mais sobre como planejar a flexibilização curricular

Para Érica, esse instrumento deve ser aplicado para todos(as) os(as) estudantes, não só os que estão com distorção idade-ano:

Para os(as) estudantes que estão com distorção, esse instrumento vai apontar se ela é proveniente de dificuldades de aprendizagem. Mas também podemos encontrar estudantes com dificuldade e que não estão com distorção, cujo atendimento será na perspectiva da prevenção da reprovação e dessa distorção idade-ano.”

Érica Catalani

No último encontro do Programa, ocorrido nesta segunda-feira (dia 19), os(as) participantes levantaram os desafios de aplicar essa prova com as atividades remotas. A ideia é discutir diferentes estratégias de aplicação do diagnóstico que essas redes acreditem ser mais efetivas para seus(suas) alunos(as), seja utilizando um formulário on-line com o acompanhamento síncrono de um(a) docente ou aplicando-o presencialmente, com todas as medidas de prevenção e protocolos sanitários.


Propondo encaminhamentos

Os dados devem ser coletados a partir de um trabalho sistêmico entre a escola e a Secretaria, com os professores nessa linha de frente, apoiados pelos gestores(as). Cada um desses atores usará os resultados desse instrumento de uma forma. Para os(as) educadores(as), um encaminhamento possível é a intervenção pedagógica na sala de aula. Para os(as) gestores(as) e técnicos(as) da Secretaria, se debruçar sobre a síntese dessas informações será importante para organizar a formação de professores.

Érica ressalta que esse trabalho, na verdade, está muito interligado:

A equipe da Secretaria de Educação pode organizar uma formação de professores que vai ensinar a olhar para uma pergunta que foi feita na prova, e cada resposta dada trará  indícios das dificuldades que eles podem estar enfrentando. Isso ajudará os(as) professores(as) a pensar ações pedagógicas na sala de aula.”

Érica Catalani

Ao olhar de maneira mais ampla para os resultados, a Secretaria pode até reconhecer fraquezas e forças na rede como um todo. Por exemplo, identificar as escolas que estão conseguindo fazer os(as) estudantes avançarem em aprendizagem neste contexto de pandemia, com atividades remotas. O órgão também pode usar as informações para pensar metas e prioridades na estruturação do apoio pedagógico complementar a ser oferecido.

Outra questão a ser discutida ao olhar para os resultados desse levantamento diagnóstico refere-se aos(às) estudantes que não apresentam dificuldade de aprendizagem, mas que estão em distorção idade-ano. Enquanto muitas redes deixam esses casos serem resolvidos como decisão particular de cada escola, Érica acredita que é preciso sim ter pessoas na Secretaria que tratem do assunto do ponto de vista da rede. Ela cita como exemplo o município de Itanhaém, litoral sul de São Paulo:

A rede tinha uma quantidade relativamente razoável de crianças em distorção idade-ano, mas quando cruzaram essas informações com outras sobre a aprendizagem, perceberam que muitas não estavam com dificuldade. Essa investigação serviu para a Secretaria tomar uma decisão política de orientar a rede sobre a reclassificação das crianças.”

Érica Catalani

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