Cenpec 2022: diferentes ações pela equidade e qualidade na educação

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Cenpec 2022: diferentes ações pela equidade e qualidade na educação

Seja por meio de projetos, pesquisas ou do Portal Cenpec, a instituição tem atuado em diferentes frentes de trabalho no enfrentamento das desigualdades e na busca por equidade na educação

Por Stephanie Kim Abe

É sabido que promover a equidade e qualidade na educação pública brasileira é um grande desafio, dada as dimensões do nosso território e as especificidades de cada região. O Cenpec, organização da sociedade civil que trabalha com esse propósito, o faz construindo diferentes soluções e atuando em diversas frentes para enfrentar essas desigualdades educacionais. 

Todas as ações institucionais são pensadas levando em consideração as necessidades das redes de ensino, a sabedoria local acumulada, as experiências da própria equipe e as pautas latentes no cenário educacional nacional e internacional – o que garante um alinhamento entre teoria e prática, uma parceria próspera com diferentes agentes e atores, e um posicionamento político em defesa da escola pública democrática. 

Em 2022, por exemplo, a recomposição das aprendizagens foi o tema latente das escolas e das secretarias de educação, que têm buscado minimizar os impactos da pandemia e garantir o direito de aprendizagem das(os) estudantes. 

Antenado a essa questão, o Cenpec não apenas abordou a recomposição nas parcerias, como também empenhou para que toda a instituição estivesse alinhada ao conceito e aos aspectos desse processo. Beatriz Cortese, diretora executiva do Cenpec, explica que:

Foto: acervo pessoal

Parece uma coisa super simples, mas é muito difícil, pois envolve muitas pessoas e decisões. Por isso, do ponto de vista interno, criamos um grupo de discussão para entender melhor os processos envolvidos na recomposição da aprendizagem (diagnóstico, priorização curricular, práticas de aceleração). Toda a nossa área técnica trabalhou e avançou no tema. A recomposição foi abordada em todos os projetos, de forma direta ou indireta, em seus diferentes escopos e âmbitos, mas sempre buscando trazer respostas para essa questão com as equipes técnicas e docentes com as(os) quais trabalhamos“.

Beatriz Cortese, diretora executiva do Cenpec

Quando o assunto são as pautas educacionais nacionais, a agenda conservadora do atual governo foi alvo de estudo da área de Pesquisa e Avaliação – que conta atualmente com 10 investigações. 

A Pesquisa Educação, Valores e Direitos, coordenada pelo Cenpec e pela Ação Educativa, e realizada pelo Datafolha e pelo Centro de Estudos de Opinião Pública (Cesop/Unicamp) em março de 2022, teve ampla divulgação e mostrou que o nível de adesão a essas agendas excludentes (educação domiciliar, proibição da abordagem de gênero, raça e sexualidade nas escolas, e escolas militarizadas) é limitado e não se sustenta quando confrontado com situações cotidianas e familiares.

Para evidenciar o impacto positivo desta atuação e a forma como trabalhamos para garantir equidade na educação e apoiar estudantes, professoras(es), gestoras(es) e equipe técnica em suas trajetórias na educação, listamos abaixo as temáticas que pautaram a organização em suas diferentes frentes de trabalho

Trazemos também algumas matérias publicadas no Portal Cenpec que documentam essa atuação e depoimentos de pessoas envolvidas nos projetos. Afinal, nada melhor do que a opinião de quem está na ponta para entender como o nosso trabalho está chegando a quem de fato precisa. 

Recomposição das aprendizagens

Acolhimento, priorização curricular, avaliação diagnóstica contínua e acompanhamento das aprendizagens, adaptação das práticas pedagógicas e busca ativa escolar. Essas são as ações que compõem a recomposição e aceleração das aprendizagens realizadas pelo Apoio Pedagógico Complementar (APC), em uma parceria Itaú Social-Conisul-Cenpec, ao longo de todo esse ano de 2022.

O APC tem trazido muitos insumos para discussões internas da equipe do Cenpec sobre a temática, assim como para troca de experiências com demais projetos. Mas a recomposição também está sendo trabalhada em outros projetos (como Programa Escrevendo o Futuro e o Projeto Impulsionar) e pesquisas (como a realizada em parceria com o Instituto Alcoa, que olha para a educação no pós-pandemia). 

Em março, o Cenpec realizou a série de lives #CenpecTiradeLetra, para compartilhar questões e dúvidas sobre alfabetização e letramento no pós-pandemia e como recompor as aprendizagens para as crianças nessa etapa de ensino.

A maneira como o Cenpec tem trabalhado a questão da recomposição das aprendizagens no pós-pandemia apareceu também no Portal Cenpec, que trouxe ainda experiências internacionais sobre a temática

Além disso, a recomposição tem sido trabalhada muito ligada à saúde mental – tema este que tem sido objeto da Pesquisa e Avaliação nas redes municipais de São Paulo e Rio de Janeiro (parceria com o Instituto Ibjea) e que foi o foco da segunda edição do Intercâmbio entre Gestores Escolares, promovido pelo programa Parceria pela Valorização da Educação (PVE)

Conseguimos visualizar nossa realidade e conhecer as experiências de outros municípios. Cada relato foi muito importante, ora por sentir uma identificação por semelhança, ora por perceber naqueles municípios que já superaram certas dificuldades os caminhos que percorreram, logo nos ajudando a nortear/vislumbrar possibilidades para sanar nossas dificuldades.”

Márcia Soares de Melo Tavares, diretora de ensino de Barra de São Miguel (AL), participante do Apoio Pedagógico Complementar (APC)

Nos primeiros encontros, já percebemos que é necessário ajustar nossas ações. A visão de planejamento, a partir do APC e as ferramentas que o compõem, tem nos possibilitado perceber que alguns aspectos de grande relevância para garantia de um atendimento com equidade não vêm tendo a devida atenção de nossa parte.”

José Raimundo da Silva, coordenador de Formação Continuada de professoras(es) dos anos finais de Teotônio Vilela (AL), participante do Apoio Pedagógico Complementar (APC)


Educação antirracista

Considerando que os marcadores sociais, como raça/cor e gênero, influenciam na trajetória escolar das(os) estudantes, o Cenpec tem trabalhado intensamente para que a educação para as relações étnico-raciais esteja presente em todas a escolas e a Lei 10.639/2003 e a Lei 11.645/2008 sejam efetivamente cumpridas

Por isso, a Comunidade Cenpec criou a Campanha Declarar para Respeitar, Colorir pra Educar, buscando fortalecer a autodeclaração com toda a comunidade escolar por meio de materiais de formação, como vídeos e artigos. Em novembro, o Cenpec promoveu ainda a live Educação antirracista: como trabalhar a temática nas escolas?, em que foi contada a experiência da Escola Estadual Alberto Torres, em São Paulo (SP), com apoio de formação da Comunidade Cenpec.

Já o programa Parceria pela Valorização da Educação Quilombola (PVE Quilombola) tem como foco a formação de gestoras(es) escolares e da equipe técnica das secretarias municipais de educação em duas vertentes: equidade racial na educação e implementação da Lei 10.639. A atuação nos municípios de Cachoeira e Maragogipe, ambos na Bahia, acontece desde 2019. Este ano, Cachoeira construiu um Plano Municipal de Educação Antirracista de Cachoeira (BA) (PMEAC)


Eu gosto muito da maneira como são ministradas as formações. Não é aquela coisa verticalizada, de imposição de ideias. A gente constrói o plano de ação a partir da nossa realidade, juntos, e levando em consideração os recursos, as possibilidades, as vontades que temos. Tem sido uma parceria produtiva, e fico muito feliz porque basicamente tudo o que traçamos com as escolas em termos de plano de ação conseguimos realizar“. 

Emanuela Nascimento da Cruz Ramos, coordenadora de Educação Quilombola na Secretaria Municipal de Educação de Maragogipe (BA)


Valorização docente

Entre os posicionamentos do Cenpec de 2022, um dos mais contundentes buscou evidenciar a importância de políticas de valorização e de formação docente na agenda política educacional dos próximos anos. 

Por isso, no contexto das eleições de 2022, realizamos o evento #PriorizaAProfessora: a docência no centro do debate sobre educação nas eleições 2022. O evento teve duas mesas temáticas que abordaram questões emergentes sobre a carreira docente na educação básica do país, sob a condução de especialistas que são referência no assunto.

A partir do evento, foi construído e divulgado o manifesto Por políticas públicas efetivas de valorização docente.

O documento reúne um conjunto de propostas essenciais e inadiáveis no campo da valorização e da formação docentes.

Como parte dessa mobilização, foram publicadas também no Portal Cenpec reportagens e artigo, escrito pelo jornalista Antônio Gois, que versam sobre o histórico da docência e as condições das(os) professoras(es) hoje. 


Desde alguns anos houve avanço na concordância que a questão da docência é chave para melhorar a qualidade da educação no Brasil. Neste ano eleitoral, é importante colocar este tema no centro da discussão sobre educação, pois nenhum outro sintetiza mais os desafios, as contradições e as dificuldades que temos para dar o salto na educação que o país necessita”.

Romualdo Portela, diretor de pesquisa e avaliação do Cenpec


Protagonismo juvenil

Não é de hoje que o Cenpec se debruça sobre os debates das juventudes e de como é importante entender esse universo diverso das(os) adolescentes e jovens para garantir uma educação significativa para elas(es). 

Projetos como o Solve for Tomorrow e o Programa Escrevendo o Futuro, que completou 20 anos em 2022, têm possibilitado, de diferentes maneiras, que estudantes sejam mais protagonistas de suas trajetórias e se conectem com aquilo que faz sentido a elas(es)

Este ano, o foco foi ainda maior com a implementação do Novo Ensino Médio em todos os primeiros anos das escolas dessa etapa de ensino no país.

No Portal Cenpec, a temática foi contemplada ao longo de todo ano por meio do especial Novo Ensino Médio: O que é preciso entender?, uma série de oito reportagens que  deu voz a diferentes atores da comunidade escolar e especialistas sobre aspectos variados desse processo e o seu impacto para cada um(a).


Tenho 23 anos e até hoje trabalho com o tema da crônica que escrevi no 9º ano. Meu objetivo era mostrar uma visão diferente da favela, que não tem só violência, mas também tem cultura e jovens com muito potencial. E não foi só fazer uma prova, sair o resultado e ganhar uma medalha. Foi a criação conjunta com os professores, as etapas de seleção, uma história construída durante um ano. Imagina um garoto de 15 anos, da favela, tendo a oportunidade de viajar de avião para outro estado por causa da educação? Isso me fez acreditar que eu poderia alcançar novos lugares através da educação. E foi o que aconteceu, hoje estudo na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)

Danrley Ferreira, semifinalista da Olimpíada de Língua Portuguesa em 2014


O Prêmio teve um impacto muito grande na minha vida, tanto do lado profissional como pessoal, pensando que o projeto foi desenvolvido no meu 3o ano do ensino médio, onde eu não tinha certeza do que eu queria cursar logo após o término. E conforme fomos tendo mentoria, apoio do Prêmio, de acreditar em você mesmo, e acreditar na sua ideia, eu consegui ter um direcionamento do que eu queria para o meu futuro, tanto que hoje eu sou acadêmico do curso de Fisioterapia, indo para o terceiro período, e tudo isso graças ao incentivo que eu tive com o Prêmio Solve for Tomorrow

Marcus Vinícius da Silva Bezerra, um dos participantes do projeto Reabilitação pulmonar alternativa/baixo custo a pacientes curados de SARS-CoV2, escolhido pelo Júri Popular

Beatriz Cortese resume o que representam essas ações:

Todo esse conjunto de ações em diferentes frentes nos ajudam a posicionar o propósito do Cenpec junto ao nosso público, que é o de enfrentar as desigualdades educacionais. Por isso estamos dando luz a elas, mostrando o que é que o Cenpec faz, o que sabemos fazer e que temos feito ao longo da nossa história. Acreditamos na importância das nossas ações para buscar uma sociedade menos desigual e mais justa e equitativa, na qual as pessoas tenham maiores oportunidades de igualdade, principalmente na educação.”


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