Apoio Pedagógico Complementar: jogos no ensino da matemática

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Apoio Pedagógico Complementar: jogos no ensino da matemática

Formação com técnicos e gestores pedagógicos na Paraíba demonstra como o uso adequado de jogos pode ser o ponto de partida para a personalização do aprendizado
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Por Breno Procópio

O lúdico na aprendizagem da matemática… Funciona? Como o uso dos jogos pode auxiliar as(os) docentes a desenvolver os conhecimentos matemáticos dos suas(seus) estudantes? E como tornar essa ferramenta eficaz na aprendizagem?

Essas e outras perguntas deram o tom à pauta do encontro formativo promovido pelo Programa Melhoria da Educação: Apoio Pedagógico Complementar (APC) em setembro, com técnicos e gestores pedagógicos do Consórcio Intermunicipal de Gestão Pública Integrada nos Municípios do Baixo Paraíba (COGIVA).

Além da contextualização do uso dos jogos para trabalhar os conhecimentos matemáticos, e como utilizá-los de forma efetiva na aprendizagem, também foram discutidas as estratégias de acompanhamento, sempre com um olhar individualizado para as potenciais habilidades das(dos) estudantes.

Embora os jogos possam ser aliados no desenvolvimento da aprendizagem matemática, os resultados positivos são gerados, principalmente, pela intervenção pedagógica. Como afirma  Sandra Amorim, formadora do Módulo de Matemática do APC:

Foto: arquivo pessoal

O jogo em si não desenvolve o conhecimento matemático. A gente tem jogos com foco no ensino da matemática, mas o que está em pauta para que a criança realmente aprenda, adquira conhecimentos matemáticos, são as intervenções que as(os) professoras(es) fazem com relação ao jogo e as jogadas realizadas pelas(os) estudantes.”

 Sandra Amorim


A construção da atividade com jogos

O papel das(dos) educadoras(es é o de agentes em todo o processo da atividade: desde a escolha objetivada do jogo até a avaliação posterior das aprendizagens suscitadas.

A análise qualitativa e mais individualizada da aprendizagem permite às(aos) docentes fazer a escolha de jogos, por exemplo, que para além de trabalharem a matemática são capazes de potencializar as habilidades socioemocionais das(dos) estudantes.

Nesse processo, segundo Sandra Amorim, as(os) professoras(es) devem observar:

  1. Jogo acessível às(aos) estudantes: “elas(es) são capazes de compreender o objetivo do jogo e realizar as principais ações exigidas, por exemplo, manusear as peças, olhar o tabuleiro, ler as regras, interagir com as(os) colegas?”
  2. O roteiro e o objetivo:  as(os) professoras(es) precisam fazer um roteiro daquilo que ele espera alcançar, “é o antes, o durante e o depois. Quem são os sujeitos? O que eu quero com esse jogo? O que eu vou trabalhar?”
  3. A atividade: “Durante o jogo o que que eu posso fazer para que eles se apropriem dos objetivos traçados e como eu avalio essas aprendizagens posteriormente?” As(Os) educadoras(es) são fundamentais na mediação e intervenção pedagógica.

A formadora ainda salienta que o jogo nem sempre irá revelar, logo de início, as aprendizagens. É preciso permitir que, em um primeiro contato, as(os) estudantes explorem o jogo, levantem suas próprias hipóteses, de maneira que, a partir de outras rodadas, seja possível detectar as aprendizagens objetivadas pelas(os) educadoras(es).


O erro como aprendizagem

Certo ou errado? Quando a proposta é uma pergunta com alternativas, marcar um “X” na resposta não abre possibilidades para analisar os registros das(os) estudantes, o que sabem e deixaram registrado ali ao desenvolver, por exemplo, uma operação matemática. As(Os) educadoras(es) não tem como analisar os saberes dessas crianças e, na impossibilidade desse diagnóstico, fazê-lo chegar aos objetivos traçados para a aprendizagem.  

Por isso, para alguns tipos de conhecimentos, às vezes, é preciso ir além das questões objetivas, que oferecem certos limites . O importante é sempre utilizar utilizar o erro como forma de promover aprendizagem a partir dele, contemplando a abordagem capaz de contemplar as diferenças e o desenvolvimento individual.

A análise da produção das(dos) estudantes, muitas vezes, só fica no nível do certo e errado. As(Os) professoras(es) precisam realizar uma análise mais qualitativa dos erros das(dos) estudantes como ponto de partida para uma nova aprendizagem ou para a personalização de uma aprendizagem. É importante fazer esta análise qualitativa para promover uma intervenção de qualidade com as crianças.” 

Sandra Amorim

Na proposta de aprendizagem com jogos, o erro também acontece, mas ele é mais dinâmico e possibilita que a própria criança se questione: por que será que a estratégia dele deu certo? Será que se eu fizer igual vai dar certo? 

Nesse sentido, o coletivo ganha força, como aponta Sandra: “percebe-se que não há apenas uma estratégia para resolver a questão, você vai ter ‘n’ estratégias que emergem do coletivo, do pensar a cada jogada”.

As atividades com jogos potencializam a socialização, o engajamento com as outras crianças, a cooperação e organização, o foco e o gerenciamento do coletivo. É um momento de aprendizado que oportuniza o surgimento de novos agentes fora do contexto das tradicionais lideranças dentro de sala – já que incentiva e promove a participação e envolvimento de todas(os).


O jogo como instrumento para o estímulo criativo-educacional  

“Quando você faz um trabalho bem feito com jogos, ele dá muito mais trabalho do que uma abordagem mais expositiva. E isso tem que ficar claro para as pessoas”, explica Sandra Amorim.

A atividade com jogos deve ser sempre direcionada e contextualizada, mas sem perder a ludicidade. A intervenção do professor precisa ser dosada para que o jogo tenha a fluidez do divertimento a que também se propõe. O estudante não deve ser forçado, mas motivado a participar.

Entre as vantagens desse tipo de dinâmica, está o desenvolvimento da criatividade, do senso crítico, da participação, da competição “sadia”, da observação, das várias formas de uso da linguagem e do resgate do prazer de aprender. Além disso, as atividades com jogos permitem ao professor identificar as atitudes e as dificuldades dos estudantes.

As(Os) professoras(es) não precisam fazer um diagnóstico só com a prova diagnóstica, elas(es) podem fazer um diagnóstico de aprendizagem com um jogo. Só que isso requer um roteiro do que vai ser observado.”

Sandra Amorim

Durante o encontro formativo, foi apresentada a proposta de uso do “Jogo das Operações” proposta no documento do Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa (PNAIC).

Imagem 6
Fonte: PNAIC – Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa: Jogos na Alfabetização Matemática; Caderno de jogos. 2014, p.27

Imagem 7
Fonte: PNAIC – Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa: Jogos na Alfabetização Matemática; Caderno de jogos. 2014, p. 27

Como mostram as imagens acima, até os recursos utilizados na confecção do jogo (garrafas pet e tampinhas) são bem acessíveis e o modelo proposto permite às(aos) professoras(es) trabalhar tanto com números só da ordem da unidade (0 a 9), quanto para operações mais avançadas, envolvendo as dezenas. Daí a importância da análise qualitativa das(os) estudantes para traçar um roteiro condizente com a aprendizagem almejada.


Mão na massa – a prática dos jogos em sala de aula

Temos utilizado os jogos como metodologia ativa, e isso tem favorecido a aprendizagem das(dos) nossas(os) estudantes, tornando a prática pedagógica mais dinâmica e prazerosa.”

A afirmativa é da professora e coordenadora pedagógica Maria Cristina Silva de Andrade, do município de Mogeiro (PB). Ela destaca que, durante as oficinas de jogos, realizadas com docentes nos Horários de Trabalho Pedagógico Coletivo (HTPC), a troca de experiências e os relatos da prática em sala de aula trazem à tona as diferentes perspectivas exploradas por cada professor na atividade com jogos.

O trabalho já rendeu frutos para “além-muros” das escolas, por meio de oficinas oferecidas também aos pais e/ou responsáveis pelas crianças, com o objetivo de conscientizá-los sobre a importância dos jogos no ensino e aprendizagem e como é desenvolvido esse processo.

Foto: arquivo pessoal

Os jogos auxiliam no desenvolvimento da autoconfiança, organização, concentração, atenção, raciocínio lógico, senso cooperativo, socialização dos estudantes, contribuindo para o desenvolvimento de muitas habilidades e uma formação realmente holística, que considera não só a dimensão cognitiva, mas a psicológica, física, social.” 

Maria Cristina Silva de Andrade

A coordenadora ressalta o acolhimento por parte da equipe em relação ao uso dos jogos, mas pondera:

Ainda há um longo caminho a ser percorrido, visto que há muito conhecimento novo a ser construído e é preciso a vivência de um processo contínuo de ressignificação das práticas. Porém, estamos confiantes que, através da ação-reflexão-ação, tomando como base as propostas e conceitos que nos foram apresentados no APC, estamos trilhando um novo caminho que nos conduzirá a uma aprendizagem de qualidade para todos os nossos estudantes.”

Maria Cristina Silva de Andrade


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