Como as secretarias de educação podem apoiar os professores no isolamento social?

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Como as secretarias de educação podem apoiar os professores no isolamento social?

Programa Melhoria da Educação: Apoio Pedagógico Complementa realiza encontros de formação a distância com técnicas de secretarias municipais da Paraíba
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A distorção idade-série ainda é um grande desafio na educação brasileira, ao lado da reprovação e da evasão escolar. De acordo com o último Censo Escolar, elaborado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), 18,7% dos matriculados nas escolas da rede pública do ensino fundamental têm idade acima da esperada para o ano/série. 

Para enfrentar essa questão, o Programa Melhoria da Educação: Apoio Pedagógico Complementar tem como proposta dar subsídios a municípios para a implementação de políticas de apoio pedagógico a alunos dos anos iniciais do ensino fundamental com dificuldades de aprendizagem. Para isso, oferece assessoria e formação presencial e a distância às equipes técnicas de secretarias municipais de Educação organizadas em polo de municípios, durante o período de um ano, com foco em língua portuguesa e matemática.

Inspirado no programa Aceleração da Aprendizagem, desenvolvido pelo CENPEC Educação entre 1995 e 2016, o Apoio Pedagógico Complementar nasceu da parceria com o Itaú Social e o Consórcio Intermunicipal de Gestão Pública Integrada nos Municípios do Baixo Paraíba (Cogiva), no âmbito do Melhoria da Educação.

A assessoria, que ocorre ao longo de 2020, abrange nove municípios paraibanos: Juripiranga, Itabaiana, Salgado de São Félix, Mogeiro, São José dos Ramos, Gurinhém, Sobrado, Mari e Pilar. A formação é organizada em quatro módulos: Planejamento, Língua Portuguesa/Alfabetização, Matemática e Avaliação. A estratégia adotada no curso é híbrida, mesclando encontros presenciais e a distância. Com base nas discussões e nos conteúdos abordados, a equipe técnica de cada município participante realiza a formação dos professores de suas redes.

Erica Maria Toledo Catalani, coordenadora de Projetos do CENPEC Educação, esclarece:

Erica Maria Toledo Catalan
Foto: arquivo pessoal

Essa formação tem o objetivo de contribuir para o desenvolvimento de competências e habilidades necessárias ao planejamento, implantação, execução, monitoramento e avaliação de uma política de atendimento aos estudantes dos anos iniciais do ensino fundamental que apresentam dificuldades em Língua Portuguesa e Matemática.”

Erica Catalani

Essa política de atendimento prevê a realização de aulas no contraturno, o acompanhamento dos avanços nas aprendizagens e a possibilidade de reclassificação de acordo com os avanços dos estudantes, bem como a formação continuada dos professores, explica a coordenadora.

Encontro de formação do módulo de planejamento. Foto: reprodução
Encontro de formação do módulo de planejamento. Foto: reprodução

A formação teve início em fevereiro, quando aconteceu o primeiro encontro presencial do módulo de Planejamento, e tem previsão se encerrar em dezembro de 2020.

Estavam previstos outros encontros presenciais, mas, com o isolamento social devido à pandemia Sars-Covid-19, essas atividades foram reajustadas para a forma remota, por meio de videoconferências e tarefas on-line.

Mas como a formação com as secretarias de educação pode dar subsídios à orientação dos professores neste período de isolamento? Convidamos três técnicas participantes do Programa Apoio Pedagógico Complementar para trazer seus olhares sobre essa questão.


Compartilhamento de experiências entre municípios

Taíses Araújo técnica da Secretaria Municipal de Educação de Mogeiro, destaca as informações e experiências compartilhadas que os encontros de formação do Apoio Pedagógico Complementar promovem entre o grupo de profissionais dos diversos municípios integrantes do Cogiva. Para a educadora, as trocas, mediadas pela equipe do CENPEC, “têm contribuído para a construção de conhecimentos importantes, capazes de responder a alguns dos desafios que temos nos deparado nesta pandemia”. 

Taíses Araújo
Foto: arquivp pessoal

O CENPEC tem nos instrumentalizado e ajudado a compreender a importância de sistematizar ações pedagógicas-administrativas dos nossos sistemas de ensino, bem como tem nos levado a refletir/ressignificar nossas abordagens e a ideia do que consideramos como conhecimentos importantes, a serem construídos por professores e alunos, a fim de responder aos desafios encontrados na sociedade atual.”

Taíses Araújo

“Estamos participando de um momento bastante dinâmico de troca de experiências e aquisição de conhecimentos teóricos e práticos que têm contribuído bastante na orientação dos nossos professores”, conta a pedagoga Jeanne Karla Abrantes Pereira de Sá.

Orientadora educacional no município de Pilar desde 1998, Jeanne considera que a formação do Programa tem oferecido subsídios para a formação docente de maneira a contemplar as mudanças no modo de ensinar e de aprender que a realidade atual impõe.

Foto: arquivo pessoal

Estamos planejando atividades remotas e assistência on-line munidos de conhecimentos oferecidos pela formação, a fim de atender as necessidades e dificuldades dos nossos estudantes, objetivando que todos aprendam, apesar de não estarem na sala de aula. Além disso, estamos nos preparando para que no retorno possamos oferecer um ensino adequado à realidade da comunidade escolar, garantindo uma aprendizagem significativa que alcance a todos os estudantes.”

Jeanne Karla A. Pereira de Sá

Desafios da formação docente em tempos de isolamento

Em seu depoimento, a pedagoga e psicóloga Heloisa Helena Costa de Araújo Cavalcanti relata os desafios, iniciativas e conquistas do trabalho de formação desenvolvido com os professores neste momento.

Heloísa, que atua na coordenação pedagógica em três escolas e com professores do 6º ao 9º ano no município de Pilar, revela as dificuldades, reflexões e mudanças inevitáveis que o isolamento tem trazido às escolas, educadores e gestores. “Não tem sido uma tarefa fácil, pois a situação nos pegou de surpresa, com todas as limitações de uso e acesso à internet. Não conhecíamos bem quais ferramentas usar, quem teria habilidade necessária para tal e exatamente o que repassar aos estudantes”, revela a técnica.

Se num primeiro momento, esse cenário gerou angústias, desconhecimento e insatisfação, em um segundo momento levou a Secretaria a buscar entender como atuar a distância de forma igualitária com todas as escolas, professores e alunos, relata a educadora.

Heloisa Helena C. A. Cavalcanti
Foto: arquivo pessoal

Neste momento, a coleta de dados nos fez enxergar a possibilidade em utilizar várias ferramentas e outros recursos, respeitando o acesso, facilidade do professor no uso da ferramenta e de fato o que fornecer aos alunos.”

Heloisa Helena C. A. Cavalcanti

Para possibilitar a continuidade dos trabalhos, Heloísa elenca, entre as ações adotadas, a criação um único grupo que possibilitasse o repasse de informações a todos os professores do 6º ao 9º ano. Além disso, a semana letiva foi organizada de modo que os estudantes tivessem apenas duas disciplinas por dia, e cada disciplina com no máximo três questões.

Escolas com diferentes condições e perfis adotaram estratégias e ferramentas mais adequadas para atender suas necessidades. “Na maior escola do município, que mais de 300 alunos matriculados, os professores criaram grupos de WhatsApp por turma. Nesta mesma escola, alguns professores estão trabalhando com o Google Classrom e a secretaria de educação está fornecendo semanalmente material impresso para estudantes sem acesso à internet. Outra escola adotou apenas Google Classrom e o material impresso fornecido semanalmente. E uma outra escola na zona rural, apenas material impresso fornecido mensalmente”, conta Heloísa.

Ainda assim, pondera a educadora, há dificuldades e limitações que precisam ser observadas, como: dificuldades de professores com o uso das ferramentas digitais; entrega de materiais fora na data acordada; famílias que não acreditam no trabalho desenvolvido nesse contexto; estudantes que não interagem, como também acontece no ensino presencial. Nesse sentido, Heloísa destaca a importância de contar com profissionais comprometidos para que o trabalho de formação faça a diferença nas escolas, contribuindo para a melhoria da aprendizagem de todos os estudantes.

Em meio a tantos desafios, esse acompanhamento e suporte aos professores e às escolas começa a render frutos: “Esta semana compartilhamos em alguns grupos de WhatsApp e Instagram da Secretaria produções textuais de alunos do 8º ano, resultado de uma atividade com gênero carta. Eles fizeram as cartas para serem enviadas como alento e motivação aos profissionais da Saúde de Pilar”, comemora a coordenadora.


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