Explorando a potência da literatura indígena

-

Explorando a potência da literatura indígena

Conheça o Projeto Jamaxim Cultural, veja dicas de literatura indígena e saiba a importância de incentivar a leitura e a escrita de obras que tratam da cultura dos povos originários
Imprimir

Por Stephanie Kim Abe

Já ouviu falar do Jamaxim Cultural? É um projeto que tem uma proposta muito bacana: levar livros indígenas doados para escolas indígenas. O projeto acontece em Roraima, e é fruto do curso de extensão Literaturas Indígenas: Oralidades, Línguas e Escritas, oferecido pela Universidade Federal de Roraima (UFRR) e coordenado pelas professoras Ananda Machado (UFRR) e Roberta Alves (UFVJM).

Ananda Machado, professora do Programa de Pós-graduação em Letras da Universidade Federal de Roraima (UFRR), conta o que despertou a ideia do projeto e o seu objetivo, que vai além de simplesmente dar acesso a esse importante material:

Foto: Acervo pessoal

Pensei nesse projeto de doação de livros de literatura indígena porque as escolas indígenas não tem livros, muito menos de autoria dos próprios parentes – quando os têm, são bem poucos. O objetivo, então, é levar a literatura indígena para ser trabalhada com as comunidades indígenas, por uma série de atividades, encorajando também esses alunos a se tornarem escritores nas próprias línguas ou mesmo em português.”

Ananda Machado

O projeto começou há dois anos e tem, atualmente, 9 acervos circulando pelos territórios indígenas do estado. Isso acontece por meio de professoras(es) e/ou coordenadoras(es) de centros regionais que têm assumido esses kits de livros doados e se responsabilizado em fazê-los circular, propondo atividades e até mandando relatórios com a devolutiva e fotos das ações realizadas

A professora conta que, ao fazer a curadoria do acervo, ela leva em consideração a diversidade de olhares, que contemplem não só os amplos temas que abarcam o universo dos povos originários e suas culturas, mas também as especificidades de cada região em que se encontram. 

“Quando pensamos a seleção de quais livros trabalhar em uma determinada formação, pensamos um pouco nisso. Se vou para a terra Wai Wai, onde o povo vive à beira do rio, busco fazer um recorte de obras literárias cujas histórias tenham essa relação muito próxima com o rio presente”, explica. 

Veja dicas para não cometer equívocos no Dia dos Povos Originários

Ananda acredita que as obras podem ser trabalhadas tanto com escolas indígenas como não indígenas. Ela chama atenção para a importância de as(os) educadoras(es) terem contato com a literatura indígena, seja por meio de formações oferecidas pela rede ou por iniciativa própria.


Conexão com os territórios, culturas e línguas indígenas

“Há diversos canais no YouTube, podcasts e materiais on-line para descobrir e se aprofundar nas obras indígenas. Temos entre 50 e 100 autores e autoras indígenas publicados, então a literatura indígena não é incipiente. Os professores precisam ter o compromisso de ler os livros, conhece-los e pensar atividades a partir deles. Nós, por exemplo, já fizemos até questões em língua indígena e múltipla escolha, que é um tipo de exercício raramente trabalhado com os alunos indígenas, e que eles acabam tendo muita dificuldade quando chegam no vestibular”, diz.

Obras bilíngues, a seu ver, são ainda mais potentes, porque ajudam as(os) educadoras(es) no processo de alfabetização das crianças dos territórios indígenas. “É uma forma contextualizada de ensinar tanto a língua portuguesa quanto a indígena. Como alfabetizar uma criança se você não tem material escrito na língua, ou tem apenas poucas opções?”, questiona Ananda.

O projeto Jamaxim contou com o apoio da Livraria Maracá para receber doações no seu início. Apesar de querer que o projeto continue crescendo, Ananda sonha que as prefeituras, os estados e o próprio governo federal invista mais nessa temática:

“O ideal seria que conseguíssemos construir espaços de leitura nas comunidades, que fossem casas tradicionais ou qualquer espaço onde eles pudessem guardar um acervo bem grande e criar esse hábito de frequenta-lo para ler”.


Dicas de livros e suas potências

A seguir, conheça cinco obras de literatura indígena que podem ser trabalhadas com as(os) estudantes em sala de aula. Todos fazem parte do acervo do projeto Jamaxim Cultural. Ananda Machado comenta algumas possibilidades de temas a serem explorados a partir de cada uma delas, para ajudar educadoras(es) de todo o país a pensar atividades e discussões.

Capa do livro Meu vô Apolinário: um mergulho no rio (da minha) memória, de Daniel Munduruku
Capa do livro de Daniel Munduruku 

📚 Meu vô Apolinário: um mergulho no rio (da minha) memória – Daniel Munduruku 

Essa história evoca uma relação forte que o autor tem com o avô. O avô é quem o ensina a ouvir o rio, por exemplo. A partir dessa leitura, propomos atividades para que os educadores indígenas trabalhem essa relação com os alunos, que os estudantes ouçam as histórias dos avós, acompanhem as suas atividades, conheçam a rotina deles.

É muito bonito de ver esse trabalho, porque os estudantes chegam falando ‘professora, eu não sabia que meu vô conhecia tanta história’. Como muita coisa de fora entrou nas comunidades, como a televisão, às vezes eles acabam não descobrindo tanto o quanto a história desses parentes e da comunidade é rica. Então a ideia é mesmo reconstituir a história da própria família.”

Ananda Machado
Capa do livro de Eliane Potiguara

📚  Metade cara, metade máscara – Eliane Potiguara

Essa obra traz poesias que falam sobre a invasão, a luta do movimento indígena e também do papel da mulher indígena. Há passagens muito interessantes para trabalhar, como a que fala que por mais que se corte a raiz, sempre haverá semente – fazendo uma demonstração da resistência indígena.”

Ananda Machado

Capa do livro de Daniel Munduruku

📚 Crônicas Indígenas Para Rir e Refletir na Escola – Daniel Munduruku

Tem uma crônica fantástica nessa coletânea, que permite discutir a questão do proselitismo religioso e da invasão europeia. Nela, o autor fala de como os homens chegavam e batizavam os indígenas, e nesse processo mudavam o nome deles. Eles eram colocados no rio, onde jogavam água e os batizavam. Quando chegou a quaresma, eles foram proibidos de comer carne. Só que aquele povo era caçador e vivia disso. Enquanto acontecia um conflito danado por conta disso, um dos indígenas levou uma anta para dentro do rio, jogou água nela e a batizou, dizendo ‘agora você vai se chamar peixe’. Pronto, já podiam então comer peixe!”

Ananda Machado
Capa do livro de Márcia Wayana Kambeba

📚 Ay Kakyri Tama: eu moro na cidade – Márcia Wayana Kambeba

Nessas poesias, a autora trata das relações dela com o mundo e da questão da identidade, de como ela é construída. Ela diz que mesmo na cidade, ela continua sendo indígena, porque parece que carrega todo o seu território em seu corpo. Ela questiona essa cobrança do que é o ser indígena, de confrontar quando dizem que ela usa roupa, computador, carro, então não se enquadra como tal. Você não deixa de ser quem é porque muda de lugar.”

Ananda Machado
Capa do livro de Cristiano Wapichana

📚 O Cão e o Curumim – Cristino Wapichana

Usei esse livro em uma das formações com educadores, onde trabalhamos diferentes aspectos que podiam ser discutidos em diferentes trechos – das coisas mais corriqueiras até mais profundas. Quando ele fala que ‘o sol subia’, é possível trabalhar a questão do tempo e fazer brincadeiras com os estudantes sobre isso. Em outro trecho, a avó pede licença para uma árvore centenária para retirar uma casca dela, para curar alguém da comunidade. Aqui, pode-se discutir o que nós, não-indígenas, comemos ou consumimos que vem da natureza ou de algum povo indígena? Há muitas coisas que nem imaginamos.”

Ananda Machado

Confira a live, promovida pelo Cenpec em outubro de 2021, com duas professoras indígenas que discutiram infâncias, educação e culturas indígenas:


Veja também