6 pesquisas para entender como a pandemia tem afetado a comunidade escolar

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6 pesquisas para entender como a pandemia tem afetado a comunidade escolar

Veja estatísticas e dados sobre a percepção dos jovens, educadores, família e redes de ensino em relação às mudanças nas atividades escolares ocasionadas pelo fechamento das escolas
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Por Stephanie Kim Abe

Que o WhatsApp é a ferramenta mais utilizada para o contato entre alunos e professores em tempos de pandemia e aulas remotas, pouca gente tem dúvida. Mas você sabia que muitos jovens consideram mais importante priorizar atividades que trabalhem emoções que as disciplinas curriculares propriamente ditas?

Essas são algumas das informações e perspectivas sobre o contexto da educação brasileira em tempos de pandemia que pesquisas realizadas desde março têm trazido à tona.

Esses levantamentos buscam entender não só o acesso dos alunos às atividades remotas, mas também a realização e entrega das mesmas. Ou olhar não só para a rotina de trabalho dos educadores, mas como ela tem afetado a sua vida pessoal e o seu lado emocional.

No caso das redes de ensino, mostram que tipo de apoio (ou não) elas têm dado aos profissionais, ao mesmo tempo que trazem relatos que podem servir para que outras redes se inspirem ou reconheçam os mesmos desafios.

Também é importante olhar para aqueles que vão ficando ao longo do caminho, às vezes representados nas porcentagens menores das pesquisas – professores sobrecarregados, alunos que não têm acesso ou não têm participado das atividades remotas, redes de ensino com problemas de recursos. Quem são essas pessoas, em que regiões estão localizadas?

Foto de Romualdo Portela, diretor de Pesquisa e Avaliação do CENPEC Educação.

É fundamental termos esses dados, porque você não pode tomar decisões idealizando situações. Ainda que o problema gerador seja o mesmo, as contradições são diversas, e é importante conseguirmos percebê-las. Então no caso do professor, por exemplo, uma temática que aparece com muita força é a angústia dele em trabalhar a distância sem ter sido formado para isso

Romualdo Portela, diretor de Pesquisa e Avaliação do CENPEC Educação

Dada a importância de ter dados e informações, selecionamos seis pesquisas recentes de diferentes instituições e que olham para atores do cenário educacional para nos apoiar na construção de políticas públicas e no entendimento desse contexto.


1. Pesquisas com educadores(as)


1.1 Sentimento e percepção dos professores brasileiros nos diferentes estágios do coronavírus no Brasil


Destaques

• 88% dos professores nunca tinha dado aula a distância de forma remota antes da paralisação das aulas presenciais;
• 83,4% dos professores se sentem nada ou pouco preparados para ensinar de forma remota;
• 75% dos professores não receberam suporte emocional; cerca de metade dos entrevistados tem essa demanda;
• 55% não recebeu treinamento para ensino a distância da escola, sendo que a maior demanda deles é justamente por esse treinamento (75%).

Sobre as ações das escolas, é bem visível a diferença em relação às privadas e públicas no que diz respeito à oferta de aulas a distância de forma virtual, à criação de ambiente virtual de aprendizagem e ao contato direto com as famílias dos estudantes.

Imagem da pesquisa Sentimento e percepção dos professores brasileiros nos diferentes estágios do coronavírus no Brasil, no que diz respeito às ações que as escolas têm realizado.
Gráfico da pesquisa Sentimento e percepção dos professores brasileiros nos diferentes estágios do coronavírus no Brasil, realizada pelo Instituto Península

A pesquisa também traz dados sobre as atividades rotineiras dos professores, o acesso a equipamentos e a forma de comunicação com os alunos – sendo o WhatsApp a ferramenta mais utilizada (83% dos respondentes). No caso das redes privadas, os ambientes virtuais de aprendizagem ganham espaço nessa comunicação.

Os dados são apresentados por etapa de ensino e por rede (municipal, estadual ou privada).

Em relação à primeira etapa da pesquisa, as principais mudanças sentidas foram que os educadores têm menos tempo para o lazer e mais para o estudo, e que 3 em cada 4 professores acreditam que o seu papel é interagir remotamente com os alunos – no estágio inicial, a proporção era de 2 a cada 5.

Objetivo
A pesquisa se divide de acordo com cada um dos estágios do novo Coronavírus no país: estágio inicial, referente a até 2 semanas da suspensão das aulas presenciais; estágio intermediário (entre duas e seis semanas após a suspensão – pesquisa atual); estágio final e retomada (ambos a definir). A primeira pesquisa, sobre o estágio inicial, foi realizada entre 23 de março e 04 de abril e pode ser acessada aqui.

Quem fez
Instituto Península.

Quando
De 13 de abril a 14 de maio, e divulgada em 2 de junho.

Como foi feita
7.773 professores das redes municipais, estaduais e particulares do Ensino Infantil ao Ensino Médio de todos os estados do Brasil responderam a um questionário on-line com 24 perguntas. O método utilizado foi o quantitativo, por meio de um survey online e de uma amostra por conveniência.

Acesse a 2ª etapa da pesquisa Sentimento e percepção dos professores brasileiros nos diferentes estágios do coronavírus no Brasil


1.2 Educação escolar em tempos de pandemia na visão de professoras/es da Educação Básica


Destaques

• 53,4% dos educadores informaram que houve um aumento de ansiedade/depressão de seus alunos;
• Praticamente metade dos respondentes acredita que com a suspensão das aulas houve uma diminuição da aprendizagem;
• Sobre o retorno das atividades escolares presenciais, a maioria dos professores é favorável a uma readequação nos modelos de avaliações, ao rodízio de alunos, e à continuidade do ensino on-line junto com o ensino presencial;
• 66,8% afirmam sentir-se apoiados pela escola. No entanto, esse percentual foi ligeiramente menor entre professoras negras (63,5%) e professores negros (60,2%).

A pesquisa traz ainda dados sobre a relação entre a escola e a família, a atuação profissional e o perfil dos entrevistados – a maioria mulheres (brancas e negras), com idade entre 30 e 50 anos, que atuam na escola pública, na área urbana.

Imagem da pesquisa Educação escolar em tempos de pandemia na visão de professoras/es da Educação Básica, realizada pelo Departamento de Pesquisas Educacionais da Fundação Carlos Chagas (DPE/FCC), em parceria com a UNESCO do Brasil e o Itaú Social.
Gráfico da pesquisa Educação escolar em tempos de pandemia na visão de professoras/es da Educação Básica, realizada pelo Departamento de Pesquisas Educacionais da Fundação Carlos Chagas (DPE/FCC), em parceria com a UNESCO do Brasil e o Itaú Social

Objetivo
Verificar como os(as) educadores(as) das redes de ensino públicas e privadas do Brasil estavam desenvolvendo suas atividades nas primeiras semanas de isolamento social, conciliando o trabalho com a vida privada, e suas expectativas para o período pós-pandemia.

Quem fez
Departamento de Pesquisas Educacionais da Fundação Carlos Chagas (DPE/FCC), em parceria com a UNESCO do Brasil e o Itaú Social.

Quando
De 30 de março a 10 de abril e divulgada em 16 de junho.

Como foi feita
14.285 professoras e professores de todas as 27 unidades da federação responderam a um questionário on-line com 24 perguntas fechadas e 2 abertas.

Acesse a pesquisa Educação escolar em tempos de pandemia na visão de professoras/es da Educação Básica


1.3 A situação dos professores no Brasil durante a pandemia


Destaques

• 33% dos professores participantes consideraram razoável a experiência de trabalhar com o ensino remoto; 30% a consideraram ruim ou péssima;
• 28% avaliaram a sua saúde emocional como ruim ou péssima; 30% como razoável;
• 36% dos professores afirmaram realizar atividades de revisão do 1º bimestre (março-abril);
• 51,1% dos professores relataram não ter recebido formação de suas redes ou mantenedores para trabalhar;
• 59% dos docentes em redes privadas alegaram que seus alunos têm participado (em sua maioria) das atividades remotas, enquanto tal número de participação é de 32% nas públicas.

A pesquisa traz dados sobre a participação das famílias e dos alunos e sobre as perspectivas para o retorno das atividades presenciais. Também revela informações referentes às categorias dos profissionais – por exemplo, que os mais beneficiados com formação são os professores do Ensino Médio (56,6%), e os menos os docentes da Educação Infantil (46,6%).

Há ainda referências a dados trazidos de outras pesquisas realizadas pela Nova Escola, como a pesquisa on-line Como está a covid-19 na sua rede?, com 367 respondentes. Ela revela que a plataforma mais utilizada para se comunicar com a família é o WhatsApp (65,3%), seguida pelo Facebook.

Imagem da pesquisa A situação dos professores no Brasil durante a pandemia, realizada pela Nova Escola.
Imagem da pesquisa A situação dos professores no Brasil durante a pandemia, realizada pela Nova Escola

Objetivo
Compreender a diversidade de cenários vividos pelos educadores usuários do site Nova Escola durante a pandemia em quatro eixos: participação de alunos e famílias nas atividades, situação do professor, situação da rede e perspectivas para o retorno das atividades presenciais.

Quem fez
Nova Escola.

Quando
Entre 16 e 28 de maio, e divulgada em 2 de julho.

Como foi feita
9.557 profissionais de escolas municipais, estaduais e particulares, sendo 8.121 (85,7%) professores da Educação Básica (Ensino Infantil, Fundamental e Médio), responderam a um questionário on-line disponível no site da Nova Escola. Vale notar que cerca de 75% dos respondentes são da rede pública, 50% são da rede municipal, e 53,3% da Região Sudeste do país.

Acesse a pesquisa A situação dos professores no Brasil durante a pandemia


2. Pesquisa com redes de ensino


A Educação Não Pode Esperar


Destaques

• 82% das redes municipais de ensino afirmaram ofertar conteúdos pedagógicos aos estudantes neste momento;
• 61% das redes pesquisadas não ofereceram formações para os profissionais desenvolverem as atividades a distância. No caso das redes estaduais, apenas 3 das 17 participantes não ofereceram formações;
• 84% das redes municipais declararam que estão se preparando para a volta às aulas;
• Quase oito em cada dez redes de ensino afirmaram que já estão se organizando para enfrentar o abandono e a evasão escolar, na volta às aulas presenciais.

A pesquisa traz relatos das redes participantes sobre como estão realizando algumas das atividades, como o monitoramento de acesso às atividades e à plataforma, e a distribuição dos alimentos (realizada por 87% das redes municipais respondentes).

Ela também traz observações sobre o uso do celular e do WhatsApp como uma das principais formas de comunicação (tanto com os alunos e familiares, como da rede com os professores), o uso de televisão e rádio nas atividades remotas (já que atingem mais domicílios brasileiros que a Internet) e a preocupação das redes com o acolhimento e o vínculo do aluno com a escola.

Gráfico da pesquisa A Educação Não Pode Esperar, realizada pelo Interdisciplinaridade e Evidências no Debate Educacional (Iede), Instituto Rui Barbosa (IRB) e 26 Tribunais de Contas.
Gráfico da pesquisa A Educação Não Pode Esperar, realizada pelo Interdisciplinaridade e Evidências no Debate Educacional (Iede), Instituto Rui Barbosa (IRB) e 26 Tribunais de Contas

Objetivo
O estudo compila ações de redes públicas de ensino em áreas como práticas pedagógicas, suporte e formação de professores, orientação às famílias, distribuição de alimentos aos estudantes e estratégias para combater o abandono escolar e as defasagens de aprendizagem.

Quem fez
Interdisciplinaridade e Evidências no Debate Educacional (Iede), Instituto Rui Barbosa (IRB) e 26 Tribunais de Contas.

Quando
Entre maio e junho de 2020 e divulgada no dia 19 de junho.

Como foi feita
Secretários municipais e estaduais de educação ou técnicos das secretarias responderam a dois questionários on-line e participaram de entrevistas via telefone ou videoconferência com técnicos dos Tribunais de Contas. As redes foram sorteadas seguindo critérios de porte (entre as 25% com o maior número de matrículas) e nível socioeconômico (entre as 25% de nível socioeconômico mais baixo).

Além disso, também foram compartilhadas pelas redes de ensino as ações adotadas em diversas esferas: distribuição dos alimentos destinados à merenda escolar; estratégias e ferramentas de ensino remoto adotadas neste momento; e preparação para a volta às aulas presenciais.

No total, o estudo teve uma amostra de 249 redes de ensino, de todas as regiões do país, sendo 232 municipais e 17 estaduais.

Acesse a pesquisa A Educação não pode esperar


3. Pesquisa com a família


Educação não-presencial


Destaques

• 31% dos pais ou responsáveis demonstraram preocupação com a evasão escolar – percentual mais alto entre famílias com baixa escolaridade e menor renda;
• 46% dos pais ou responsáveis consideraram que os estudantes não estão motivados para fazer atividades escolares em casa;
• 74% dos estudantes estão recebendo algum tipo de atividade para fazer em casa (seja pela televisão, rádio, computador ou material impresso). Entre os alunos do Ensino Médio, esse número chega a 86%;
• Entre as principais dificuldades das atividades não presenciais estão o acesso à Internet (23%), a dificuldade com conteúdo (20%) e a falta de interesse no conteúdo (15%).

A pesquisa traz dados dos alunos que não têm recebido nenhum tipo de atividade para fazer em casa (24%), sendo a maioria deles do Ensino Fundamental (90%), de escolas municipais (65%) e da região Nordeste (42%) – evidenciando as desigualdades educacionais do país. Também traz informações sobre o perfil dos participantes e a posse de equipamentos.

Imagem da pesquisa Educação não-presencial, realizada pelo Datafolha, a pedido do Itaú Social, Fundação Lemann e Imaginable Futuress.

Imagem da pesquisa Educação não-presencial, realizada pelo Datafolha, a pedido do Itaú Social, Fundação Lemann e Imaginable Futuress

Objetivo
Identificar se os estudantes do Ensino Fundamental e Médio estão recebendo e realizando as atividades remotas enviadas pelos professores, quais as dificuldades enfrentadas por eles e as percepções dos responsáveis sobre a rotina de aprendizagem, a evolução do estudo e a qualidade do apoio das escolas.

Quem fez
Datafolha, a pedido do Itaú Social, Fundação Lemann e Imaginable Futures.

Quando
Entre 18 e 29 de maio, e divulgada no dia 24 de junho.

Como foi feita
Foram realizadas 1.028 entrevistas com pais ou responsáveis por 1.518 estudantes do Ensino Fundamental e Médio da rede pública em todo o Brasil. A pesquisa quantitativa teve abordagem telefônica, a partir de sorteio aleatório de números de celulares.

Acesse a pesquisa Educação não presencial


4. Pesquisa com jovens


Juventudes e a Pandemia do Coronavírus


Destaques

• 6 a cada 10 jovens consideraram que escolas e faculdades devem priorizar atividades para lidar com as emoções;
• 5 a cada 10 jovens pedem estratégias para gestão de tempo e organização;
• O equilíbrio emocional, a dificuldade de organização para o estudo a distância e a falta de um ambiente tranquilo em casa são os principais entraves para os jovens estudarem em casa;
• 28% dos jovens já pensaram em não retornar à escola após o fim do isolamento social;
• Metade dos jovens que pretendem fazer o Enem ou ainda não se decidiram já pensaram em desistir da prova.

A base de referência para as análises relacionadas ao ensino e aprendizado é de jovens respondentes que estão estudando (21.201), grande parte no Ensino Médio (31%) e Educação Superior presencial (28%).

Imagem da pesquisa Juventudes e a Pandemia do Coronavírus, realizada pelo Conselho Nacional da Juventude (CONJUVE), em parceria com Em Movimento, Fundação Roberto Marinho, Mapa Educação, Porvir, Rede Conhecimento Social, Unesco e Visão Mundial.
Imagem da pesquisa Juventudes e a Pandemia do Coronavírus, realizada pelo Conselho Nacional da Juventude (CONJUVE), em parceria com Em Movimento, Fundação Roberto Marinho, Mapa Educação, Porvir, Rede Conhecimento Social, Unesco e Visão Mundial

Além dos dados sobre o ensino remoto e a continuidade dos estudos, a pesquisa revela o perfil dos entrevistados, em termos de raça, gênero, ocupação, participação social, acesso a equipamentos e à Internet, entre outros. Há também informações sobre os efeitos financeiros da pandemia na vida dos jovens, os hábitos de saúde e bem-estar e as perspectivas para o futuro.

Objetivo
Por meio do levantamento da percepção dos jovens de diferentes regiões, vivências e realidades sociais sobre a pandemia e os seus efeitos em suas vidas, o estudo visa apoiar a construção de políticas baseadas em evidências e sustentadas por um processo de diálogo e articulação social que envolve o público-alvo dessa política.

Quem fez
Conselho Nacional da Juventude (CONJUVE), em parceria com Em Movimento, Fundação Roberto Marinho, Mapa Educação, Porvir, Rede Conhecimento Social, Unesco e Visão Mundial.

Quando
Entre 15 e 31 de maio, e divulgada em 23 de junho.

Como foi feita
33.688 jovens de 15 a 29 anos de todo o Brasil responderam um questionário on-line com 48 perguntas distribuídas em sete blocos temáticos: Informação, Hábitos, Educação e aprendizado, Economia, Emprego e renda, Saúde e bem-estar, Contexto e expectativas, Perfil socioeconômico.

A pesquisa utilizou a metodologia PerguntAção, desenvolvida pela Rede Conhecimento Social, que envolve o público pesquisado em todas as etapas do processo da pesquisa (da concepção do questionário à análise dos resultados).

Acesse a pesquisa Juventudes e a pandemia do coronavírus


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