Viajando pelas histórias, com Telma Vilas Boas

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Viajando pelas histórias, com Telma Vilas Boas

Entrevista com a professora Telma Vilas Boas, publicada originalmente em 2015 na Plataforma do Letramento (CENPEC Educação)
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Selo da campanha #ProfessorEmPauta

A professora Telma Vilas Boas transporta seus alunos para o mundo imaginário das histórias. Ao ler trechos de Vidas secas, de Graciliano Ramos, era preciso fazê-los sentir e assim compreender a dura realidade dos retirantes do sertão. Foi então que a professora teve a ideia de realizar a roda de leitura no chão batido da velha horta da escola, debaixo do sol.

Com 12 anos de experiência em educação, Telma hoje leciona língua portuguesa para alunos do Ensino Médio na Escola Estadual Júlio Fortes, em Lavrinhas, no interior de São Paulo. Para estimular ainda mais o gosto pela leitura nos alunos, ela participa das oficinas on-line do projeto Entre na Roda. Conheça um pouco do trabalho inspirador da professora no bate-papo a seguir.


Professora Telma Vila Boas lendo para os alunos
Telma Vilas Boas. Arquivo pessoal

CENPEC Educação: Como surgiu a sua paixão pelos livros? Você era incentivada por seus pais ou professores? 

Telma Vilas Boas: Eu diria que a minha paixão primeira foi pelas palavras, todas elas: cantadas, contadas, declamadas, comercializadas. Minha avó materna contava história dos santos. Era rotina, ao entardecer dos domingos, me reunir com meus primos embaixo da enorme mangueira daquele quintal de terra para ouvi-la contar a vida da Santa Rita, da passagem do Mar Vermelho, da Arca de Noé. Acho que foi lá, naquele chão, quando eu tinha uns sete anos, que tudo começou.

Capa do livro Garra de campeão, de Marcos Rey
Capa: Reprodução.

Depois, vi as palavras vendidas, compradas lá na mercearia do meu pai. Ficava no meu banquinho tomando meu guaraná caçulinha, só observando cada conversa de gente diferente que passava por lá. Mas as palavras em páginas, com capa e tudo, só me foram apresentadas na escola do primário, o atual ciclo I do Ensino Fundamental. Contudo, só virei as páginas mesmo quando a dona Neusa Garcia levou a Série Vaga-lume para a classe. Eu estava na 5ª série, e o Marcos Rey me tocou com o livro Garra de campeão. De lá, segui pelo caminho de tijolos amarelos e conheci o mágico, aliás, a fada dona Ercília, responsável por essa paixão pelas palavras: a poesia, o romance, a crônica, a metáfora, e me apaixonei de verdade!

Escada com escritos poéticos na escola
Escada literária. Foto: Arquivo pessoal.

CENPEC Educação: Você promove mediação de leitura por temas. Por que você fez essa escolha? Cite alguns temas abordados.

TVB: Promovo mediação por temas, em rodas de leitura, leitura em voz alta e até em transcrição de textos literários e letras de músicas associadas à literatura na escada da escola, um projeto que chamei de “Escada Literária”. Isso porque envolve, encanta mais os alunos, uma vez que, ao se apropriar de um tema, é possível criar instalações específicas, fazer ligações de leituras, verbais e não verbais, homenagear autores, conhecer vários gêneros que tratam do mesmo assunto ou perceber como cada gênero trata a mesma temática. Isso é bacana!

Capa da obra Vidas secas, de Graciliano Ramos
Capa: Reprodução.

Para exemplificar, trabalhei com o tema “Seca” priorizando a obra Vidas secas, do Graciliano Ramos, em uma roda debaixo de sol, sobre a terra ressequida da velha horta da escola. Cheguei com um baú na cabeça, um papagaio na mão e abrindo o baú, apresentando uma peça que representa cada personagem da dura história daquela família retirante.

A minha inquietação era “como vou fazer meus alunos sentirem pelo menos um pouquinho a história?”. E assim a inspiração bateu. Já falei do tema “Almas femininas” homenageando as escritoras do universo feminino, como “Um dia com Cora Coralina”. Também abordei leituras de tradição oral, folclóricas, cordéis, causos, com violão e sanfona, na área externa da escola, e por aí vai.

CENPEC Educação: Quais os resultados de sua iniciativa e como é a participação dos alunos?

TVB: O resultado é o aumento de empréstimos de livros, voluntariamente. Eles discutem sobre as impressões da leitura, escrevem depoimentos em painéis, penduram cartazes com suas opiniões em varais, contam o que chamou a atenção e até me indicam livros! Há os que só espiam meio de longe, por curiosidade. Eles dizem que querem só dar uma olhadinha. O que eu digo sempre é que uma hora acontece o encontro com os livros. Pode não ser hoje, mas de estímulo em estímulo, um leitor se forma!

CENPEC Educação: Qual o papel dos professores e da escola para despertar a vontade de ler nos alunos?

TVB: Despertar a vontade de ler nos alunos começa necessariamente pela vontade de ler do professor. A escola tem o papel de disponibilizar o acervo literário, conseguir outros suportes de leitura periódica, dar abertura aos professores para criação de trabalhos com leitura por fruição – e os professores, por sua vez, têm a tarefa de cuidar para que mundos se abram cada vez que viramos uma página de um livro.

CENPEC Educação: O que você está aprendendo com as oficinas do projeto Entre na Roda?

TVB: Estou adorando as oficinas do Entre na Roda e me emocionando muito. Tenho aprendido que mediar leitura é muito mais que trabalhar obras literárias. É diversificar práticas letradas, construir pontes entre autores e leitores e assim viabilizar passagens para um mundo novo, um admirável mundo novo da leitura. Vale a pena acreditar que qualquer aluno pode ler, não é dom nem talento. É questão de insistir na ideia de que é possível enquanto existirem sensibilidade, livro e mediador!


logo do projeto Entre na Roda

Iniciativa do CENPEC Educação em parceria com a Fundação Volkswagen desenvolvida até 2016. Tratava-se de um projeto de formação de educadores de escola pública, bibliotecários e demais interessados para ampliar seu desempenho como leitores, contribuindo para fortalecer a atuação com seus públicos.  O projeto desenvolvia ações presenciais e a distância.


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