Mulheres, direitos e educação

Conheça as origens e as histórias de luta por trás do Dia Internacional da Mulher

POR JOÃO MARINHO | 08/03/2019

Nova York, 8 de março de 1857. Um grupo de operárias da indústria do vestuário inicia uma greve por melhores condições de trabalho, maiores salários e pela redução da jornada de trabalho. Elas são violentamente reprimidas pela polícia, razão pela qual hoje se comemora o 8 de março como Dia Internacional da Mulher.

Se você já pesquisou sobre a data, ou é da geração deste autor, já deve ter ouvido essa versão, mas existe algo importante sobre ela: é um mito surgido em 1955, segundo as pesquisadoras Liliane Kandel e Françoise Picq.

Outra história famosa – esta real – é a do incêndio ocorrido na fábrica da Triangle Shirtwaist, também também em Nova York, uma tragédia que vitimou 146 pessoas, sendo 123 mulheres. No entanto, o incêndio ocorreu no dia 25 de março de 1911, anos depois de um Dia da Mulher ter sido observado. Qual seria, então, a história real?

 

O legado de Clara Zetkin

Clara Zetkin e Rosa Luxemburgo. Foto: Reprodução.

Segundo a historiadora norte-americana Temma Kaplan, as origens do Dia Internacional da Mulher são, acima de tudo, socialistas. A precursora foi Clara Zetkin, que, em 1889, compareceu ao encontro em Paris que criou a Segunda Internacional Socialista, no dia em que se comemorava o centenário da Queda da Bastilha.

Em 20 de junho daquele ano, a assembleia da Segunda Internacional concordou em estabelecer o 1º de maio como Dia Internacional dos Trabalhadores. A partir daí, entre 1890 e 1915, Zetkin passou a promover os interesses das mulheres trabalhadoras no jornal Gleichheit, do Partido Social-Democrata da Alemanha, do qual se havia tornado editora.

Em 1907, Zetkin e Louise Zietz lideraram um encontro de mulheres em 17 de agosto, um pouco antes dos encontros da Segunda Internacional marcados em Stuttgart, na Alemanha. Na ocasião, as mulheres se comprometeram a lutar por igualdade em todos os aspectos da vida e discutiram em assembleia como tornar públicos seus objetivos.

 

O sufrágio universal e as primeiras manifestações

Theresa Malkiel. Foto: Reprodução.

No começo do século XX, socialistas e sufragistas – mulheres e homens que lutavam pela extensão do direito de votar às mulheres – tinham um ponto de desacordo que acabou penalizando os primeiros nas lutas políticas nos Estados Unidos e Europa. Isso porque os socialistas viam os direitos políticos das mulheres como subordinados aos avanços trabalhistas dos operários homens.

Mesmo assim, as mulheres da Segunda Internacional acabaram ganhando o apoio de outros socialistas ao sufrágio universal antes da Primeira Guerra. Por isso, já em 1908, o Partido Socialista dos Estados Unidos organizou um comitê feminino local para apoiar o sufrágio universal, com a tarefa de organizar manifestações em apoio ao voto das mulheres.

Um encontro massivo ocorreu em Nova York no dia 8 de março de 1908, mas os socialistas norte-americanos acabaram por estabelecer, em 1909, o Dia Nacional da Mulher no último domingo de fevereiro – segundo a ONU, em homenagem a uma greve que havia ocorrido no ano anterior, quando mulheres da indústria do vestuário reivindicaram melhores condições de trabalho. A sugestão foi da sufragista e educadora Theresa Malkiel, e a data foi observada pela primeira vez em 28 de fevereiro de 1909, um domingo.

Em 1910, a iniciativa norte-americana inspirou proposta similar na Segunda Internacional. A ideia foi trazida por ninguém menos que Louise Zietz e Clara Zetkin e contou com apoio de Käte Duncker em uma conferência de mais de 100 mulheres de 17 países em Copenhague, capital da Dinamarca.

Aprovada por unanimidade, a decisão já contemplava a estratégia de promover direitos iguais às mulheres, incluindo o direito ao voto, mas não houve a definição de uma data fixa. Isso ocorreu apenas em 19 de março de 1911, na Áustria, Dinamarca, Alemanha e Suíça, já como resultado da iniciativa de Copenhague. Naquele ano, mais de 1 milhão de mulheres e homens compareceram às manifestações que demandavam direitos das mulheres ao trabalho, treinamento vocacional e o fim da discriminação profissional.

 

O 8 de março

Prisão de Sylvia Pankhurst (centro) na Trafalgar Square, em Londres, em 1914. Foto: Reprodução (Time Life Pictures/Mansell/The LIFE Picture Collection/Getty Images).

Entre 1913 e 1914, o Dia Internacional da Mulher tornou-se também palco para manifestações contra a guerra, mas não havia consenso sobre a data: os Estados Unidos continuavam a observar o último domingo de fevereiro; a Rússia, que utilizava o calendário juliano, estabeleceu o último sábado de fevereiro. Na Suécia, era comemorado junto ao 1º de maio.

Manifestações no dia 8 de março apareceram em 1914, na Alemanha, mas provavelmente devido à conveniência de ser um domingo. Em Londres, também houve uma marcha nesse dia, quando a sufragista Estelle Sylvia Pankhurst foi presa pouco antes de discursar na Trafalgar Square a favor do sufrágio universal.

O dia 8 de março começou a se estabelecer definitivamente em 1917. Nesse dia, segundo o calendário gregoriano (23 de fevereiro pelo calendário juliano em vigor na Rússia), operárias realizaram uma manifestação na atual São Petersburgo por Pão e Paz.

As manifestações, que se tornaram atos massivos de descontentamento contra o regime czarista e pelo fim da participação da Rússia na Primeira Guerra, marcaram o início da Revolução de Fevereiro (pelo calendário juliano), que, unida à de Outubro, culminou na Revolução Russa. O czar Nicolau II abdicou sete dias depois, em 15 de março pelo calendário gregoriano (2 de março pelo calendário juliano).

Graças a Vladimir Lenin e à bolchevique Alexandra Kollontai, o Dia da Mulher foi declarado feriado nacional na União Soviética. Em 1922, Clara Zetkin, que se havia tornado comunista, defendeu a proposta de um Dia Internacional da Mulher na Terceira Internacional, ou Internacional Comunista, que resultou aprovada.

A partir de então, a data passou a ser comemorada sobretudo em países e agremiações comunistas, até que as Nações Unidas começaram a observá-la em 1975, no Ano Internacional da Mulher. O 8 de março foi finalmente estabelecido em 1977, pela Assembleia Geral, como um dia para o direito das mulheres e da paz mundial. Em 2019, o tema da ONU para o Dia Internacional da Mulher é Pensemos na igualdade, construamos com inteligência, inovemos para a mudança.

 

 Saiba mais sobre o tema do Dia Internacional da Mulher no site da ONU
 Consulte o portal do International Women’s Day

 

Mulheres na educação

Machismo, racismo, xenofobia e pobreza são alguns dos desafios que mulheres brasileiras têm de lidar em seu dia a dia, além da questão das jornadas múltiplas e dos salários desiguais. Em 2018, por exemplo, segundo o IBGE, as mulheres ganharam 20,5% menos que os homens.

Ainda assim, elas têm encontrado caminhos para superar esses entraves e garantir direitos humanos fundamentais, sempre com muita luta. Entre esses direitos, está a educação, presente desde personagens pioneiras, como Theresa Malkiel, até pautas das primeiras manifestações, como em 1911.

A plataforma Educação&Participação selecionou cinco dessas mulheres, que se destacaram nas regiões Norte, Sul, Nordeste, Sudeste e Centro-Oeste pela defesa da educação e do desenvolvimento integral de todas e todos: Maria Cristina Chaves Garavelo, Macaé Evaristo dos Santos, Seluta Rodrigues de Carvalho, Danielle Barbosa e Naiara Mendes da Silva.

 

 

 As redes sociais do CENPEC postam, ao longo do dia 8, mais histórias de mulheres na educação. Acesse no Facebook e Instagram

 

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1 Comment

  1. Exposição traz trabalhos de jovens atendidos pelo projeto Educação com Arte - Cenpec
    Exposição traz trabalhos de jovens atendidos pelo projeto Educação com Arte - Cenpec03-19-2019

    […] de suscitar o debate cada dia mais urgente sobre igualdade de direitos para as mulheres e reconhecimento das lutas femininas, o evento foi pensado como uma oportunidade para ressignificar […]

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