Ensino técnico: maioria dos alunos não trabalha em sua área

Pesquisa aponta que apenas 25% dos estudantes de escolas técnicas acabam em empregos deste nível. Desconexão com o mercado de trabalho e preferência por seguir para a educação universitária explicam baixa adesão

O GLOBO | 05/03/2019

POR PAULA FERREIRA

Um estudo divulgado recentemente pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) mostra um descompasso na educação brasileira: somente 25% dos estudantes formados em cursos de nível médio técnico do País acabam trabalhando em ocupações que requerem esse tipo de formação.

A realidade demonstrada pela pesquisa é uma preocupação que também é expressa por educadores: o ensino precisa ser repaginado e alinhar os ponteiros com o mercado de trabalho.

De acordo com o levantamento, quando uma pessoa com formação técnica ocupa uma vaga específica para esse tipo de qualificação, seus rendimentos tendem a aumentar em média 25%. Apesar disso, essas posições continuam não atendendo ao público para o qual são destinadas.

O pesquisador Maurício Reis, um dos autores do estudo, afirma que o ensino técnico brasileiro está desconectado das demandas do mercado e que muitos cursos estão obsoletos. A crítica é antiga também entre os educadores e foi, inclusive, uma das justificativas para embasar a necessidade de uma reforma no ensino médio brasileiro.

— Esse é um tipo de curso que visa ensinar as pessoas a desempenhar determinadas ocupações, é importante que a sintonia com o mercado de trabalho seja forte — afirma Reis.

O ensino técnico tem recebido atenção especial nos últimos anos. Em 2014, o Plano Nacional de Educação (PNE) estabeleceu que, até 2024, o Brasil deve alcançar cerca de 5,2 milhões de matrículas de educação profissional de nível médio. Atualmente, há 1,9 milhão, de acordo com o último Censo Escolar.

Em 2016, com a reforma do ensino médio, a educação profissional ganhou destaque. A partir da nova lei, a etapa deve permitir que os alunos escolham o caminho para sua formação entre cinco áreas: ciências humanas, ciências da natureza, matemática, linguagens ou formação técnica e profissional.

Embora tenha dado indícios de que pretende privilegiar a formação profissional no Brasil, o novo ministro da Educação, Ricardo Vélez Rodríguez, ainda não esboçou publicamente os planos para etapa. Em entrevistas, citou apenas que analisava o modelo alemão.

Planejamento

A educadora Mônica Gardelli Franco, diretora-executiva do CENPEC – Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária, diz que a reforma pode ser uma oportunidade para fortalecer esse tipo de ensino, mas ressalta que é necessário que a implementação seja feita de forma planejada.

— É preciso um diagnóstico do local onde a escola está inserida para identificar qual a qualificação profissional demandada pela região. Não adianta um jovem ser formado em tecnologias de comunicação, por exemplo, e, na região dele, não ter demanda para essa área. Sem esse planejamento, continuaremos com essa distorção de vagas do mercado ocupadas por pessoas sem qualificação — opina Gardelli.

O estudo do IPEA mostra que pessoas sem formação técnica têm um ganho de apenas 6% no salário quando atuam em uma vaga para a qual essa qualificação é exigida. Já os que têm formação técnica para a vaga ganham 25% a mais.

Além da desconexão com o mercado, outra hipótese que explica a falta de técnicos ocupando vagas específicas para sua formação é a busca pelo ensino superior. Muitos alunos concluem a formação técnica e partem para a universitária em seguida, trabalhando depois em funções que exigem esse nível.

Segundo os especialistas, essa é uma evidência de que os jovens brasileiros não têm uma perspectiva de formação para o mercado de trabalho.

— Temos que entender o curso técnico com uma visão mais emancipatória, como um começo do ingresso do jovem no mercado. Ele ainda é visto como uma função menos qualificada do que o curso superior. Novas maneiras de formar e seguir aprendendo precisam ser construídas — defenda Ana Inoue, assessora de educação do Itaú BBA.

 Leia a reportagem no site do jornal O Globo

 

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