Alunos confrontam MEC sobre infraestrutura escolar

Problemas reais batem à porta do ministro Vélez, que, após dois meses de gestão, não mostra metas claras para pasta. Muito criticado, ele desistiu de pedir que estudantes sejam filmados; 45% das escolas sequer têm biblioteca

O GLOBO | 28/02/2019

POR PAULA FERREIRA E RENATO GRANDELLE

Na Escola Municipal Clementino Fraga, em Bangu, buracos no muro. Estrutura de concreto destruída dentro da escola e entulhos à mostra geram risco aos alunos. Foto: Fabiano Rocha/Agência O Globo.

A carta do ministro da Educação, Ricardo Vélez Rodríguez, recomendando, na última segunda-feira (25), que as escolas enviassem vídeos de alunos perfilados durante a execução do Hino Nacional, teve efeito inusitado – e acabou escancarando para o novo frequentador da Esplanada dos Ministérios a realidade das instituições de ensino brasileiras. Em reação à orientação, estudantes de todo o País começaram a se organizar para enviar a Brasília gravações revelando mazelas cotidianas, da estrutura precária dos colégios aos baixos salários dos professores.

Depois de toda a polêmica, em explicação ao Ministério Público Federal (MPF), o MEC afirmou, na noite de quarta-feira, dia 27, que remeterá novo ofício às escolas, desta vez desistindo do pedido inicial “por questões técnicas e de segurança”.

42% dos colégios sem banda larga

A insatisfação dos alunos é revelada em matizes claros nos dados compilados pelo próprio governo: quase 45% das escolas de ensino fundamental não têm biblioteca, 42% não contam com banda larga. Cerca de 4% sequer possuem banheiros, segundo números do Censo Escolar 2018. Nas escolas de ensino médio, a situação é um pouco melhor.

Presidente da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (UBES), Pedro Gorki lançou a campanha #MinhaEscolaDeVerdade, que incentiva alunos e professores a filmarem as condições degradantes de seus colégios.

— Há um sucateamento crescente da rede pública. Faltam quadras, bibliotecas, salários — critica. — Diante da falta de recursos, os docentes levam papel higiênico para as escolas.

No Ciep Aarão Steinbruch, em Duque de Caxias (RJ), uma aluna conta que os professores fizeram vaquinha para a reforma dos banheiros:

— Tudo bem cantar o Hino, mas os problemas precisam ser resolvidos. Não temos bebedouro adequado, levamos água de casa.

Embora escolas estaduais e municipais não sejam atribuição direta do MEC, espera-se do órgão a fomentação de políticas públicas que atendam a essas demandas, assim como o desenvolvimento de projetos de apoio.

 

 

As prioridades deveriam ser a valorização dos professores, evasão escolar, distorção idade-série, alfabetização.”

Anna Helena Altenfelder, do CENPEC

 

 

Questões urgentes negligenciadas

Após quase sessenta dias à frente do MEC, a crítica central de especialistas ao estilo Vélez é a de que, até o momento, não se priorizaram questões urgentes da educação brasileira. O ministro posiciona-se na linha de frente da batalha contra o que qualifica como “doutrinação ideológica” nas salas de aula, mas não detalhou, por exemplo, projetos para a alfabetização (meta apresentada como prioritária para os 100 dias de governo).

— Apareceram estratégias pontuais de pouco alcance, sem consequência imediata para aumentar o processo de aprendizagem dos alunos, como a sugerida na carta, mas as prioridades deveriam ser a valorização dos professores, evasão escolar, distorção idade-série, alfabetização — diz Anna Helena Altenfelder, presidente do Conselho de Administração do CENPEC – Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária.

Heleno Araújo, presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação, recebe diagnósticos anuais de 50 sindicatos de professores e funcionários, em que são apontados fatores que dificultam o trabalho nos colégios.

— Há um número excessivo de contratos temporários. Em um colégio em Pernambuco, uma turma de ensino médio teve quatro professores de matemática em um ano. Não há vínculo entre aluno e mestre.

Érica Lucas, mãe de duas crianças que estudam na Escola Municipal Guilherme da Silveira, na Vila Kennedy, no Rio de Janeiro, dá outro recado a Vélez:

— Vale muito mais ter material e uma sala de aula decente do que cantar o Hino Nacional — diz ela, que vê a escola dos filhos alagar nos dias de chuva. — O Hino não vai trazer livro, uniforme, educação.

 Leia a reportagem no site do jornal O Globo

 

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