Desigualdade de renda no Brasil cresce e é a maior em sete anos

Coeficiente Gini aumenta pelo 16º trimestre consecutivo. Análises apontam para precariedade do mercado de trabalho

POR REDAÇÃO | 26/02/2019

A concentração de renda e a desigualdade socioeconômica no Brasil voltaram a aprofundar-se e atingiram o pior patamar em pelo menos sete anos. Essas são as conclusões do levantamento realizado pelo Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV) divulgado hoje pelo jornal O Estado de S. Paulo.

No quatro trimestre de 2018, quando observada a renda domiciliar, o coeficiente Gini do rendimento domiciliar per capita obtido do trabalho atingiu o maior patamar da série histórica iniciada no primeiro trimestre de 2012, quando a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua) começou a ser apurada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O índice passou de 0,6156 no terceiro trimestre de 2018 para 0,6259 no último trimestre do ano: o 16º aumento consecutivo. Quanto mais perto de 1, maior é a concentração de renda.

A precariedade do mercado de trabalho é apontada como uma das principais razões por Daniel Duque, pesquisador do mercado de trabalho do Ibre/FGV. Segundo Duque, os trabalhadores menos qualificados têm tido dificuldades de aumentar seus rendimentos e o salário mínimo não registra ganhos reais desde 2015. “Na crise, a probabilidade de estar empregado e ter renda maior depende mais de o trabalhador ter qualificação (…). Houve também muita geração de ocupação informal, que tem menores salários. E há um desalento muito grande ainda”, disse o especialista ao jornal.

Thiago Xavier, analista da Tendências Consultoria Integrada e também entrevistado pelo Estadão, informa que houve um aumento no número de pessoas trabalhando em 2018, mas a subutilização da força de trabalho permanece elevada. São considerados subutilizados os trabalhadores à procura de emprego, os que desistiram de procurar ou os que trabalham, mas encontram-se atuando durante menos horas do que poderiam e ganham menos por essa razão.

Ainda segundo o jornal, o salário mínimo não teve ganho real nos últimos anos devido ao encolhimento do Produto Interno Bruto (PIB) em 2015 e 2016. Pela regra de reajuste criada ainda na gestão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e válida até este ano, o reajuste do mínimo de um ano é a soma da inflação medida pelo INPC do ano anterior somada à variação do PIB dos dois anos anteriores.

Em 2015 e 2016, porém, o PIB teve variação negativa, e, dessa foram, o salário mínimo recebeu reajustes equivalentes apenas à inflação. “Precisa ter uma reação do mercado de trabalho (…). Precisa de geração de vagas formais, com salário médio maior, jornadas de trabalho que não fiquem aquém do desejado”, disse Xavier.

► Confira a reportagem completa no site de O Estado de S. Paulo

 

Tendência de aumento

O Ibre/FGV não é primeiro instituto a detectar aumento da desigualdade no Brasil. Em novembro de 2018, o relatório País estagnado: um retrato das desigualdades brasileiras, da Oxfam Brasil, já havia apontado para estagnação da desigualdade domiciliar per capita, também utilizando o coeficiente Gini, bem como piora em indicadores por raça, gênero e concentração de renda.

Na ocasião, o relatório também citou retrocesso nos gastos sociais para o patamar de 2001, com impacto direto na área da educação, e criticou a  Emenda Constitucional 95/2016, que estabeleceu um teto de gastos públicos por 20 anos. “Durante o pouco tempo de debate da então Proposta de Emenda à Constituição 241/2016 (55/2016 no Senado), os poucos estudos que estimavam impactos sociais de uma medida fiscal tão horizontalmente radical apontaram para a precarização da saúde e da educação a médio prazo”, concluiu o documento.

► Leia a reportagem sobre o relatório da Oxfam Brasil aqui, no Portal CENPEC

 

 

 

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