Conselheiros avaliam as perspectivas da Educação a partir de 2019

Membros do Conselho de Administração do CENPEC, Maria Alice Setubal e Thiago Thobias comentam desafios e perspectivas para as políticas educacionais no contexto de um novo governo

POR JOÃO MARINHO | 14/12/2018

Aula em escola estadual no Rio de Janeiro. Foto: Reprodução.

Com a aproximação do fim do ano e o início de um novo governo, com os ministros já definidos, vêm as questões: o que esperar das políticas públicas para a Educação a partir de 2019? Quais as perspectivas para pautas como a Educação integral, a liberdade de ensinar dos professores e o diálogo entre poder público e sociedade civil?

Na última reunião do Conselho de Administração do CENPEC – Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária, foram as perguntas que o Portal fez para dois conselheiros da instituição: Thiago Thobias; e Maria Alice Setúbal, que também preside os conselhos da Fundação Tide Setubal e do Gife (Grupo de Institutos, Fundações e Empresas).

Agendas fundamentais

De acordo com Maria Alice Setubal, resolver a estagnação do Ensino Médio é urgente. Foto: Reprodução.

“O CENPEC tem uma agenda”, avalia Maria Alice Setúbal (foto). “E, levando em conta o que temos discutido internamente e o diagnóstico da Educação no País hoje, acredito que possa elencar três pontos prioritários: correção e recuperação do fluxo escolar, com aceleração da aprendizagem; formação de professores; e Ensino Médio”.

Segundo ela, corrigir o fluxo escolar no Brasil, por meio de diferentes ferramentas e estratégias, e dar suporte para a formação dos docentes são essenciais para reduzir as desigualdades educacionais: “O CENPEC tem uma experiência muito grande no aspecto da correção de fluxo, tem as metodologias, e podemos atuar fortemente nesse eixo. Da mesma forma, podemos atuar na formação dos professores, tendo a Base Nacional Comum Curricular como um suporte fundamental, especialmente do 6º ao 9º ano – e somos uma das poucas organizações com experiência no Ensino Fundamental II – e no Ensino Médio”.

O Ensino Médio, por sua vez, é uma urgência para Maria Alice Setúbal: “Os dados do Ideb mostram que o Ensino Médio está estagnado: não saiu do lugar, e já era um lugar muito baixo, com indicadores insuficientes de aprendizagem, aos quais se acrescentam os indicadores de homicídios, que impactam muito fortemente a população jovem e negra como principais vítimas. Se nada for feito, daqui a uns 10 anos, olharemos para trás e teremos perdido uma geração: porque está sendo morta, porque está saindo do Ensino Médio, ou porque cursou o Ensino Médio, mas nada aprendeu e está fora do mercado de trabalho. A questão do Ensino Médio é, portanto, urgente”.

 

As três agendas fundamentais – correção do fluxo, formação dos professores e Ensino Médio – dialogam completamente com as políticas públicas e com a situação da Educação no País, dentro das competências e expertises do CENPEC.”

(Maria Alice Setubal)

 

 

Perspectiva: Educação integral e conservadorismo

Para Thiago Thobias, não é possível avançar sem uma Educação inclusiva e liberdade de pensamento. Foto: Arquivo pessoal/Reprodução.

Para o conselheiro Thiago Thobias, o Brasil terá, no futuro breve, a Educação integral como principal desafio: “A começar do Ensino Fundamental, mas também no Ensino Médio. Dentro da Educação integral, é possível contemplar um conjunto de atividades para aceleração do fluxo, avaliação integral, acompanhamento… Mas a pauta tem desaparecido um pouco nos últimos anos. Nas eleições, sequer foi mencionada”.

De acordo com Maria Alice Setúbal, o principal desafio está no crescimento de uma visão conservadora na Educação: “Teremos uma agenda basicamente conservadora – mas, dentro disso, há muitos ‘tons de cinza’, que dependerão do quanto o novo ministro da Educação estará aberto ao diálogo e às possibilidades de atuação”. 

Ainda sobre essa visão conservadora, a conselheira acredita que as propostas inspiradas no movimento Escola sem Partido também não serão aprovadas no Supremo Tribunal Federal (STF), que analisa a chamada “Lei Escola Livre”, aprovada em Alagoas: “Essas bandeiras, porém, já estão dadas na sociedade. A própria sociedade, pais e escolas já têm atuado em uma direção muito mais conservadora”, avalia Maria Alice. “É melhor que não haja aprovação do Escola sem Partido, porque pioraria ainda mais a perseguição e o obscurantismo dentro da escola – mas, de qualquer maneira, isso infelizmente já está acontecendo. No entanto, temos de aguardar. Na minha opinião, a perspectiva não é boa, mas há variações possíveis”.

Já para Thiago Thobias, os avanços conquistados ao longo dos anos no campo educacional poderão, talvez, contrabalançar essas questões: “Ao longo dos anos, na esfera dos municípios, com secretários municipais e estaduais mais abertos ao diálogo sobre a gestão educacional, com a participação ativa de fundações e entidades como os sindicatos de professores, a Undime e o Consed, constituiu-se um campo educacional muito consistente no País, que possibilitou avançar em indicadores e em projetos que dialogam com as desigualdades. O novo governo terá de interpretar os anseios da sociedade, que são de eficiência, eficácia e qualidade nos serviços públicos. A Educação não está fora disso, e já se provou que algumas ideias não funcionam em termos de equidade e qualidade: não é possível avançar, por exemplo, sem uma Educação inclusiva, sem liberdade de pensamento e sem a gestão democrática”.

Compartilhar:

Deixe um comentário

You must be logged in to post a comment.

/* ]]> */