Os problemas da gestão da educação em debate e novo livro

Os problemas da gestão da
educação em debate e novo livro

Evento do CENPEC, Fundação Santillana, Editora Moderna e Fundação Tide Setubal contou com gestores que fizeram parte da história recente da Educação brasileira. Assista ao vídeo e baixe o PDF gratuitamente

POR JOÃO MARINHO | 06/12/2018

Quais os desafios diários para um gestor que atua na Educação? Como lidar com recursos muitas vezes escassos e com órgãos e redes que têm um extenso número de profissionais e servidores? É melhor continuar uma política pública já existente ou propor um novo rumo, mesmo que com grandes rupturas? Razões e desafios do gestor da Educação: dez entrevistas sobre a prática educacional é um livro que traz algumas dessas reflexões e outras mais, dando voz e vez ao gestor público. Confira o vídeo do lançamento da publicação, ocorrido em São Paulo/SP na última quarta-feira (5).

Reflexões teóricas e práticas

“Gestores, em geral, ocupam uma posição importante nas disputas políticas. Raramente decisões corriqueiras relacionadas à matrícula ou ao transporte escolar, por exemplo, são banais. Sejam quais forem, elas sempre têm impacto e, em alguns casos, podem afetar a vida e a formação de milhões de alunos”, diz Anna Helena Altenfelder, presidente do Conselho de Administração do CENPEC. “O CENPEC espera […] contribuir para a formação de gestores educacionais, visibilizando reflexões teóricas daqueles que enfrentaram e enfrentam, na prática, os desafios e dilemas cotidianos para a melhoria da qualidade da Educação no Brasil”.

Razões e desafios do gestor da Educação é estruturado em 10 capítulos, cada qual trazendo a entrevista de um gestor que fez parte da história recente da Educação nacional. As entrevistas foram concedidas à revista Cadernos CENPEC ou realizadas especialmente para o livro, entre 2011 e 2017. Maurício Holanda Maia, Rita Coelho, Joaquim Bento Feijão, André de Figueiredo Lázaro, Binho Marques, Frederico da Costa Amâncio, José Henrique Paim Fernandes, Macaé Evaristo, Maria Helena Guimarães Castro e Maria do Pilar Lacerda Almeida e Silva são os personagens que compõem a obra de cerca de 200 páginas.

 

 

Em pauta: Ensino Médio e liberdade

Mônica Gardelli Franco, diretora-executiva do CENPEC (à dir.); e Luciano Monteiro, diretor de Relações Institucionais da Fundação Santillana, abriram o debate.

O lançamento do livro contou com a presença de cerca de 80 pessoas e foi feito em um debate com duas mesas, realizado das 9h às 12h30 (horário de Brasília) no auditório Paschoal Geraldo da Silveira Isoldi, na Biblioteca Alceu Amoroso Lima, em Pinheiros. A abertura coube a Mônica Gardelli Franco, diretora-executiva do CENPEC.

Realizada das 9h30 às 11h, a mesa “Gestão das diferenças na Educação” teve mediação de Anna Helena Altenfelder e participação de André de Figueiredo Lázaro, da Fundação Santillana; Frederico da Costa Amâncio, secretário de Educação de Pernambuco; e Joaquim Bento Feijão, assessor especial de gestão escolar da Secretaria de Educação de Marília/SP.

Os debatedores iniciaram a participação relatando suas trajetórias e experiências na Educação, com destaque para as políticas educacionais empregadas em Marília/SP e a implementação da Educação integral em Pernambuco, inclusive para o Ensino Médio. Dessa forma, a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) do Ensino Médio, aprovada na véspera (04/12) pelo Conselho Nacional de Educação, foi naturalmente inserida no debate. “Com a aprovação da Base, o Ensino Médio vai mudar totalmente, e isso exigirá investimento”, comentou Frederico Amâncio, destacando a necessidade de adequar a formação dos professores e de todas as redes ao principal conceito trazido pelo documento: a flexibilidade.

Anna Helena Altenfelder, presidente do Conselho de Administração do CENPEC (à dir.); e Frederico Amâncio, secretário de Educação de Pernambuco, na primeira mesa.

A obrigatoriedade única do ensino de matemática e língua portuguesa nos três anos do Ensino Médio, no entanto, provocou uma avaliação crítica em relação ao conteúdo da Base. “É claro que o Ensino Médio tem de ser mudado, mas tenho profundas preocupações com a Base em um contexto de congelamento de gastos e quando se colocam apenas português e matemática como obrigatórios”, avaliou André Lázaro, para quem os pontos negativos e positivos do documento não são simétricos – e a Base, se não abordada em uma perspectiva adequada, pode até mesmo aprofundar as desigualdades sociais no Brasil e o acesso ao conhecimento por parte dos jovens.

Outro assunto trazido à tona foi o projeto de lei inspirado nas propostas do movimento Escola sem Partido, que provocou falas em favor da liberdade de cátedra dos professores, garantida constitucionalmente. “Os professores já estão sendo ameaçados […]. É preciso dizer que a liberdade é um direito das instituições. Não é justo que os professores, que já enfrentam condições de trabalho bastante difíceis, baixos salários etc. ainda tenham de lidar com a ameaça de pessoas gravando suas aulas com celulares”, comentou Lázaro, no que foi aplaudido pela plateia.

Joaquim Bento Feijão, assessor da Secretaria de Educação de Marília/SP, falou sobre a gestão das diversidades na Educação.

Diálogos, rupturas e continuidades

André Lázaro, diretor da Fundação Santillana no Brasil, comentou sobre a Base Nacional do Ensino Médio e sobre o projeto Escola sem Partido.

Iniciada às 11h15, a mesa “Mudança e continuidade nas gestões educacionais” teve a participação de Binho Marques, ex-governador do Acre e ex-secretário do Ministério da Educação; e José Henrique Paim Fernandes, professor da Fundação Getúlio Vargas e ex-ministro da Educação, com mediação de Luciano Monteiro, diretor de Relações Institucionais da Fundação Santillana.

O Escola sem Partido foi novamente um dos temas levantados pela plateia, em um contexto político-social de desafios ao diálogo. “O quadro de hoje é muito difícil. É um quadro de irracionalidade (…), e me preocupa alunos reprimindo professores. Quando atuei no Acre, tive momentos tensos, com falas muito duras, mas todos os debatedores se baseavam em uma firme racionalidade: mostrávamos os dados, discutíamos em cima deles. Hoje, é difícil responder como acontece o diálogo neste contexto em que vivemos”, avaliou Binho Marques.

José Henrique Paim alertou para o risco de retrocessos na Educação se não houver clareza, por exemplo, da importância de políticas como o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb), previsto em lei para acabar em 2020, cuja manutenção permanente tem sido discutida no Legislativo. Para o ex-ministro, é preciso que o poder público concentre-se em uma política que valorize o ensino-aprendizagem: “É preciso construir uma política de cadeias de responsabilidades, com uma gestão voltada à aprendizagem e que não deixe nenhum aluno para trás”.

José Henrique Paim Fernandes (à esq.) e Binho Marques falaram sobre rupturas e continuidade na segunda mesa.

As boas práticas de gestão – como o foco no desenvolvimento integral do aluno e na valorização dos professores – devem ser o parâmetro na hora de tomar decisões sobre temas como currículo, uso dos recursos e parcerias com organizações da sociedade civil (OSCs). “Nem sempre a continuidade é importante (…). Algumas vezes, é preciso haver rupturas”, comentou Binho Marques, sobre políticas educacionais desconectadas da realidade das escolas.

 

Confira a repercussão

 

 


Fotos: Thiago Luis de Jesus e Marco Antonio Vieira
Vídeo: Vanessa Nicolav e Helder Lima
Edição de vídeo: Vanessa Nicolav
Com colaboração de Mayara Simeão

Compartilhar:

Deixe um comentário

You must be logged in to post a comment.

/* ]]> */