Revista Educação: Os impactos de uma boa creche

Revista Educação: Os impactos de uma boa creche

REVISTA EDUCAÇÃO | 30/09/2018

Estímulos bem planejados no momento em que o cérebro está em pleno desenvolvimento podem reduzir a desigualdade no aprendizado anos mais tarde, sobretudo para crianças que crescem em ambientes socialmente vulneráveis. Em contrapartida, uma educação de má qualidade pode aprofundar diferenças ainda mais

POR ISABEL BRANCO, da revista Neuroeducação

Apesar de ter ampliado o número de matrículas escolares e estar próximo de universalizar a educação obrigatória para crianças e jovens entre 4 e 17 anos, o Brasil patina nos índices de desempenho escolar e mantém enorme desigualdade entre seus jovens. Sete em cada dez alunos de 15 anos apresentam dificuldades em tarefas de matemática; e mais da metade dos estudantes têm baixo desempenho em leitura e em ciência, segundo estudo da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) divulgado em 2016.

Mas e se incluir a criança mais cedo na escola fosse uma forma de reduzir as desigualdades e influenciar decisivamente os resultados delas no futuro? Pesquisas apontam para isso: a experiência na educação infatil favorece o desenvolvimento intelectual e social das crianças. Um estudo feito no Reino Unido acompanhou 3 mil crianças ao longo de quatro anos e mostrou que o ingresso em ambiente escolar aos 3 anos está relacionado com maior desenvolvimento inte­lectual entre 6 e 7 anos, com maior autonomia, concentração e sociabilidade entre colegas. A pesquisa EPPE (The Effective Provision of Pre-school Education Project) revelou ainda que a experiência pré-escolar era importante, sobretudo, para crianças de famílias vulneráveis socialmente.

“As pesquisas internacionais têm mostrado que, na maioria dos casos, a frequência a pré-escolas para crianças de 3 a 5 ou 3 a 6 anos garante bons resultados, presentes e futuros, mesmo quando as pré-escolas não são de alta qualidade; no caso das creches para os bebês e crianças entre 0 e 2 anos e meio, os bons resultados ocorrem quando as creches são de boa qualidade”, explica Maria Malta Campos, coordenadora da pesquisa Educação Infantil no Brasil. Entre 2009 e 2010, seu grupo de estudo na Fundação Carlos Chagas avaliou a qualidade de 150 instituições de educação infantil em seis capitais brasileiras (Belém, Campo Grande, Florianópolis, Fortaleza, Rio de Janeiro e Teresina) para estimar o impacto da frequência a creches e pré-escolas no desempenho dos alunos no início do ensino fundamental. A análise constatou que idade do aluno, renda familiar e nível de escolaridade dos moradores do bairro respondiam por 11% das diferenças observadas entre o desempenho dos alunos na Provinha Brasil – avaliação nacional de alfabetização. No entanto, quando comparados estudantes com as mesmas condições, aqueles que tinham frequentado educação infantil de boa qualidade apresentavam um desempenho 12% melhor que os que não tinham frequentando o ensino de primeira infância.

Se o impacto positivo é reconhecido em vários estudos científicos, uma pesquisa publicada em 2013 alerta para algo preocupante: creches de má qualidade podem ter impacto negativo na educação de crianças pobres e aumentam a desigualdade. Foram analisadas as notas de matemática de alunos do 5º ano do ensino fundamental. Entre os mais pobres, as crianças que foram para a creche estavam piores que as que não tinham ido. Já entre os mais ricos, as notas das crianças que tinham frequentado a creche eram melhores, explica Daniel Santos, professor de economia da Universidade de São Paulo (USP) em Ribeirão Preto e pesquisador do eduLab21, laboratório de ciências aplicadas à educação criado pelo Instituto Ayrton Senna. “Esses resultados apontam, por evidência indireta, que a qualidade ruim do ensino tenha prejudicado essas crianças.”

O que é qualidade?

A educação infantil precisa considerar o direito da criança à proteção, ao cuidado, à saúde, ao afeto e ao desenvolvimento cognitivo, emocional e social. E, para que todos esses pontos sejam devidamente contemplados, são necessários profissionais capacitados, em número adequado e com um projeto com objetivos educacionais voltados para o momento de desenvolvimento das crianças, consenso entre especialistas.

Os primeiros anos de vida são um momento de intensa formação cerebral em que se desenvolvem conexões neurais, sobretudo de áreas corticais responsáveis por processamentos de estímulos sensoriais (visão, audição) e regiões relacionadas à linguagem (veja quadro na pág. 52). Essas conexões serão a base do desenvolvimento cognitivo ao longo da vida. Daí a importância de atividades com estímulos variados, sonoros, visuais, táteis para apoiar o desenvolvimento infantil adequado. “Uma educação infantil de qualidade tem intencionalidade, e isso é marcado por um currículo com objetivos claros. Por interações ricas entre professor e os alunos, que vão além da interação cotidiana”, indica Antonio Augusto Batista, professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e coordenador de pesquisas do CENPEC – Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária. E não é apenas isso. O vínculo afetivo, o desenvolvimento de habilidades sociais e os cuidados pessoais com saúde são essenciais.

+ Leia a íntegra da reportagem no site da Revista Educação

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